26 de junho de 2026

Michelle Bolsonaro e a reinvenção do bolsonarismo, por Benedito Tadeu César

A disputa pública entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro talvez esteja inaugurando uma nova etapa da política brasileira.
Fotomontagem com Michelle Bolsonaro em primeiro plano. Atrás dela, em tamanho menor, Meloni, Le Pen, Noem, Sanders, Stefanik, Keiko e María Corina. Imagem gerada por IA por meio do ChatGPT.

Michelle Bolsonaro rompe publicamente com Flávio Bolsonaro, sinalizando disputa pela sucessão do bolsonarismo.
Ela busca ampliar o legado bolsonarista com comunicação focada em fé, família e valores morais, distinta de Jair Bolsonaro.
Michelle segue tendência global de lideranças femininas conservadoras que renovam a direita com discurso mais inclusivo.

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Michelle Bolsonaro e a reinvenção do bolsonarismo

por Benedito Tadeu César

A partir do rompimento público entre Michelle e Flávio Bolsonaro, o cientista político Benedito Tadeu César analisa a disputa pela sucessão do bolsonarismo, compara a ex-primeira-dama a lideranças conservadoras femininas internacionais e sustenta que ela pode representar uma nova etapa da direita brasileira.

O conflito com Flávio Bolsonaro pode marcar o início da sucessão de Jair Bolsonaro e revelar a emergência de uma nova liderança da direita brasileira para o ciclo político pós-2026.

A disputa pública entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro talvez esteja inaugurando uma nova etapa da política brasileira. Mais do que um conflito familiar, ela pode marcar o início da sucessão de Jair Bolsonaro e da disputa pela liderança da direita brasileira na próxima década.

Até pouco tempo, a principal pergunta feita por analistas era quem seria o candidato do bolsonarismo caso Jair Bolsonaro permanecesse impedido de disputar a Presidência da República. Hoje, outra questão começa a se impor: que tipo de bolsonarismo sobreviverá ao próprio Jair Bolsonaro?

Os acontecimentos das últimas semanas sugerem que essa disputa já começou.

Na realidade, essa hipótese não é nova. Em 19 de agosto de 2025 publiquei o artigo “Michelle Bolsonaro: A Evangélica Arquétipa e a Candidatura Silenciosa”, no qual sustentava que Michelle Bolsonaro deveria ser observada não apenas como esposa do ex-presidente ou como um ativo eleitoral do bolsonarismo, mas como um projeto político em construção. A tese central era que seu silêncio não representava ausência de ambição política, mas uma estratégia para preservar uma liderança que poderia amadurecer no momento oportuno. O artigo pode ser lido em: https://red.org.br/noticias/michelle-bolsonaro-a-evangelica-arquetipa-e-a-candidatura-silenciosa/.

O conflito público entre Michelle e Flávio Bolsonaro parece confirmar que o tempo político da ex-primeira-dama começa a chegar. Michelle rompeu publicamente com o senador, acusando-o de deslealdade e afirmando que reduziria sua participação na campanha presidencial dele. O episódio, antes tratado como rumor de bastidores, tornou-se um fato político.

Não há elementos para afirmar que Michelle esteja deliberadamente trabalhando contra a candidatura de Flávio. Mas os movimentos recentes produzem essa aparência e reforçam uma hipótese levantada por diferentes analistas: a de que ela começa a construir um caminho político próprio, olhando para além da eleição de 2026 e tendo 2030 como horizonte possível.

Entre esses analistas estão Pedro Doria e Paulo Nogueira Batista Jr. Doria interpreta o conflito como um sintoma da disputa pela liderança futura do bolsonarismo, enquanto Paulo Nogueira Batista Jr., em seu artigo “A disputa na direita e o fator Michelle”, publicado na RED (https://red.org.br/noticias/a-disputa-na-direita-e-o-fator-michelle-por-paulo-nogueira-batista-jr/), sustenta que Michelle pode emergir como a principal beneficiária política caso Flávio fracasse eleitoralmente em 2026. Ambos convergem na percepção de que a ex-primeira-dama deixou de ser apenas uma coadjuvante para se tornar protagonista da sucessão bolsonarista.

Mais do que herdeira

Há uma diferença importante entre Michelle Bolsonaro e os filhos do ex-presidente.

Flávio Bolsonaro representa a continuidade do bolsonarismo construído por Jair Bolsonaro. Sua força eleitoral deriva em grande medida do sobrenome Bolsonaro e da identificação direta com o pai.

Michelle preserva esse legado, mas procura ampliá-lo.

É mulher em um campo político tradicionalmente dominado por homens; é jovem; é evangélica pentecostal; comunica-se com naturalidade com o eleitorado religioso; participa de iniciativas voltadas à inclusão de pessoas surdas por meio da Libras; e desenvolveu uma forma de comunicação bastante distinta da adotada por Jair Bolsonaro e por seus filhos.

Sua comunicação privilegia a fé, a família, a superação e os valores morais. A política aparece mediada pela emoção e pela experiência pessoal, estabelecendo forte identificação com mulheres religiosas e conservadoras.

Uma direita em transformação

A ascensão de Michelle Bolsonaro também dialoga com um fenômeno observado em diversas democracias.

Nos últimos anos, o avanço das direitas conservadoras deixou de depender exclusivamente de lideranças masculinas de perfil confrontacionista. Em vários países, mulheres passaram a desempenhar papel decisivo na renovação da imagem desses movimentos, preservando suas agendas políticas, mas comunicando-as de forma mais ampla, emocional e socialmente inclusiva.

Na Itália, Giorgia Meloni transformou um partido de raízes pós-fascistas em uma força capaz de conquistar setores moderados do eleitorado ao combinar firmeza ideológica com uma imagem pública centrada na defesa da família, da maternidade, da identidade nacional e dos valores cristãos.

Na França, Marine Le Pen conduziu um longo processo de “desdemonização” da antiga extrema direita francesa. Sem abandonar o nacionalismo e o discurso anti-imigração, suavizou a linguagem herdada de seu pai e ampliou significativamente sua competitividade eleitoral.

Nos Estados Unidos, também cresce o protagonismo feminino dentro do conservadorismo republicano. Kristi Noem, ex-governadora da Dakota do Sul e atual secretária de Segurança Interna do governo Donald Trump, tornou-se uma das principais referências do trumpismo ao combinar conservadorismo moral, nacionalismo e forte presença nas redes sociais. Sarah Huckabee Sanders, ex-porta-voz da Casa Branca durante o primeiro governo Trump e atualmente governadora do Arkansas, construiu sua liderança associando valores familiares, religião e firme defesa da agenda conservadora. Já Elise Stefanik, deputada federal pelo estado de Nova York e uma das parlamentares republicanas mais influentes dos Estados Unidos, consolidou-se como uma das principais vozes do trumpismo no Congresso norte-americano.

Na América Latina, Keiko Fujimori continua sendo a principal liderança do fujimorismo e uma das figuras centrais da direita peruana, enquanto María Corina Machado tornou-se o principal nome da oposição ao governo venezuelano e uma referência da direita liberal latino-americana. Embora situadas em contextos políticos bastante distintos, ambas demonstram como mulheres podem assumir a liderança de grandes campos políticos.

Michelle Bolsonaro parece inserir-se nessa tendência internacional.

Ela preserva os elementos centrais do bolsonarismo — conservadorismo moral, forte identidade religiosa, defesa da família, oposição à esquerda e valorização da autoridade —, mas os apresenta por meio de uma comunicação menos beligerante do que a de Jair Bolsonaro.

Enquanto o ex-presidente mobiliza principalmente o conflito, Michelle mobiliza pertencimento. Em vez da retórica permanente da guerra cultural, privilegia a linguagem da fé, da família, do cuidado e da experiência religiosa compartilhada. É uma comunicação construída para estabelecer vínculos afetivos, especialmente com mulheres, famílias evangélicas e setores conservadores que se identificam mais com valores do que com confrontos.

Não se trata de uma simples diferença de estilo. Trata-se de uma estratégia política potencialmente mais eficaz para ampliar a base social do bolsonarismo sem abandonar seus fundamentos ideológicos.

Uma liderança em construção

Os acontecimentos recentes reforçam uma hipótese formulada pela RED ainda em agosto de 2025: Michelle Bolsonaro não era apenas uma aliada do ex-presidente, mas uma liderança em construção. Sua combinação de carisma, identidade evangélica, capacidade de comunicação afetiva, identificação com o eleitorado feminino e atuação em causas como a inclusão de pessoas surdas fazia dela um projeto político próprio, cujo tempo parecia ainda não ter chegado. Hoje, essa hipótese parece muito mais plausível.

Se Flávio Bolsonaro vencer em 2026, Michelle continuará sendo uma figura central no governo e no movimento político.

Se perder, sobretudo em caso de derrota significativa, a disputa pela herança política de Jair Bolsonaro deverá se intensificar. Nesse cenário, Michelle poderá surgir como a liderança mais competitiva para reorganizar o bolsonarismo e disputar a Presidência da República em 2030.

Nada disso está definido. A política raramente segue roteiros previsíveis. Mas os movimentos recentes sugerem que a sucessão do bolsonarismo começou antes mesmo da eleição presidencial de 2026.

Se essa leitura estiver correta, Michelle Bolsonaro poderá representar algo diferente de uma simples herdeira política de Jair Bolsonaro. Poderá tornar-se a principal responsável pela adaptação do bolsonarismo a um novo ciclo histórico, preservando seu núcleo ideológico, mas ampliando seu alcance social por meio de uma comunicação mais sofisticada, emocionalmente mais eficiente e capaz de dialogar com públicos que o bolsonarismo tradicional nunca conseguiu conquistar plenamente.

Foi essa possibilidade que a RED apontou ainda em agosto de 2025, quando a candidatura silenciosa de Michelle parecia improvável para muitos observadores. Hoje, diante dos conflitos internos da família Bolsonaro, do fortalecimento de sua liderança e das transformações pelas quais passa a direita internacional, aquela hipótese parece menos uma especulação e mais um cenário político que merece ser acompanhado com atenção por adversários, aliados e por todos aqueles que procuram compreender os rumos da política brasileira.


Nota editorial

Esta análise foi produzida com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial generativa e revisada pelo autor e pela equipe editorial da Rede Estação Democracia (RED), responsáveis pela seleção das fontes, pela interpretação dos fatos, pela redação final e pelo conteúdo publicado.

Ilustração da capa: Fotomontagem com Michelle Bolsonaro em primeiro plano. Atrás dela, em tamanho menor, Meloni, Le Pen, Noem, Sanders, Stefanik, Keiko e María Corina. Imagem gerada por IA por meio do ChatGPT.

Referências

Veja Abaixo, os vídeos de Michele Bolsonaro e de Flávio Bolsonaro.

A fala de Michele está dividida em dois vídeos. Veja os dois. Vale a pena:

Veja o vídeo de Flávio Bolsonaro. Fica claro que ele sentiu o golpe:

Benedito Tadeu César é mestre em antropologia social e doutor em ciências sociais, ambos pela UNICAMP, cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi docente da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), jornalista e diretor dos jornais Posição (ES) e Sul 21 (RS). Especialista em democracia, partidos políticos e análise eleitoral, poder e soberania, integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED – Rede Estação Democracia.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Benedito Tadeu César

Benedito Tadeu César é mestre em antropologia social e doutor em ciências sociais, ambos pela UNICAMP, cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Especialista em democracia, partidos políticos e análise eleitoral, poder e soberania, integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED Rede Estação Democracia.

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