Quem poderia ser o nosso Lumumba?
por Walter Moreira Dias
EUA ajudaram a matar Lumumba em 1961 e, em 2026, negaram visto ao torcedor que o encarna. Uma reflexão sobre futebol, racismo e os heróis brasileiros, escolhidos ou apagados
Terno nas cores do Congo, óculos, cabelo repartido, um dos braços erguido e suspenso no ar tal como na estátua em Kinshasa. Por vezes, leva uma das mãos à boca e, com a outra, imita o cano de uma arma: encena, ali, na arquibancada de uma Copa do Mundo, o tiro que calou Patrice Lumumba.
Seu nome é Michel Mboladinga, mas o mundo o conhece como “Lumumba Vea”. Decidiu que ao estar na arquibancada torcendo pela seleção da República Democrática do Congo seria também um momento de reverenciar o homem que deu ao país o direito de ser independente. Isto é, quando o deixam estar presente. Ele compareceu só onde os EUA não mandavam e foi barrado nas duas partidas em solo estadunidense, por restrição ligada ao ebola na estreia e por visto negado no 3º jogo da fase de grupos.
Convém lembrar quem ele homenageia. Patrice Lumumba foi o primeiro a governar o Congo independente, em 1960, depois de décadas sob o colonialismo cruel da Bélgica, com mutilações e assassinatos sistemáticos. Defendeu a real autonomia, soberania e o panafricanismo. Em 17 de janeiro de 1961, aos trinta e cinco anos, foi executado, com a cumplicidade da Bélgica e dos Estados Unidos, que não toleraram tamanha liberdade em plena Guerra Fria. O torcedor que encena uma estátua não leva à arquibancada um craque: leva um estadista assassinado.
Talvez esse símbolo de resistência e liberdade também não seja bem-vindo em 2026 nos EUA, haja vista a recusa do seu visto.
E desde que a Copa se iniciou e a saga do “Lumumba Vea” se popularizou, para conseguir estar presente nos jogos, vencendo as barreiras impostas pelas autoridades, me questionei algumas vezes: e se uma torcida brasileira fizesse o mesmo, se um torcedor congelasse, imóvel, na estátua viva de um herói nacional, quem seria?
Trata-se apenas de um exercício imaginativo, deixando do lado de fora os anacronismos, analogias complexas e reducionismos.
Em Kinshasa, o herói anticolonial e o herói nacional são a mesma pessoa. Lembrar Lumumba é lembrar da Rep. Democrática do Congo. Não há contradição entre a memória da resistência e a identidade do país, porque foi a resistência que fundou o país. No Brasil, é bem mais complicado. Temos no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria personagens do calibre de Marechal Deodoro e D. Pedro I. Se olharmos para nossas moedas, temos, além destes, Pedro Alvares Cabral, Tiradentes e Barão do Rio Branco.
Um colonizador, um imperador centralizador e autoritário, um marechal golpista, um diplomata e um mártir fabricado. Todos brancos. Celebram a ordem, não a romperam. São raros os negros e mulheres indicados nesta lista de heróis.
Lá, o herói é consenso. Aqui herói nacional não emergiu, foi fabricado. Eric Hobsbawm havia mostrado que as tradições tidas como antigas e naturais costumam ser invenções a serviço de uma lógica de poder. Tiradentes é o nosso caso emblemático. Enforcado e esquartejado em 1792, mas o mártir só foi forjado quase um século depois, desenhado pela recente República, que precisava de um herói, à semelhança de um Jesus embranquecido.
Se pensarmos, então, em um nome mais contemporâneo para a nossa estátua de arquibancada. Abdias do Nascimento? Darcy Ribeiro? Brizola? Marielle Franco? Paulo Freire? Uma parte relevante de um país polarizado, que bebe detergente e idolatra traidores da pátria, não os chancelaria, vaiaria e atacaria este movimento.
Nove anos depois da Inconfidência, o Brasil teve uma conspiração que era tudo aquilo que a de Minas não foi: republicana de verdade, popular e abolicionista. Foi a Conjuração Baiana, de 1798, feita por alfaiates, soldados e artesãos negros e mestiços que queriam o fim da escravidão e a igualdade entre as pessoas, sem distinção de cor.
A Inconfidência Mineira foi movimento de senhores de escravizados que não pretendiam libertar ninguém e o próprio Tiradentes possuía escravizados. A República, fundada por herdeiros daquela mesma elite, escolheu o seu mártir com cuidado: branco, fardado, inofensivo à ordem racial.
Os líderes da Conjuração Baiana chamavam-se Lucas Dantas, Luís Gonzaga das Virgens, João de Deus do Nascimento e Manuel Faustino. Foram executados e esquartejados em Salvador, e quase ninguém aprendeu seus nomes na escola. Eis, talvez, os nossos Lumumbas, se não os tivessem apagado.
E se levássemos à arquibancada um craque do futebol? O nosso futebol brasileiro não tem tantas figuras que conseguiram brilhar dentro de campo e fora dele nos embates políticos. Nossos maiores ídolos ou se calaram, ou se inclinaram à direita em posicionamentos extracampo. De cara, podemos pensar em Pelé, Ronaldo, Romário, Rivaldo e Neymar. De outro lado podemos lembrar rapidamente de Reinaldo, ídolo do Atlético-MG e motivo de alerta constante dos militares e do saudoso Sócrates mobilizando a Democracia Corinthiana, ambos causadores de incômodos no período da ditadura civil-militar.
Será que teremos uma conjuntura em que a nação brasileira julgue com orgulho e representatividade estátuas ou pessoas com o braço levantado com punho cerrado, como Reinaldo ou Sócrates, simbolizando o nosso povo e história?
Bertolt Brecht escreveu que “infeliz a terra que precisa de heróis”.
Será?
Mesmo sem necessariamente precisar, não valeria termos a referência de um símbolo nacional de luta por dignidade, justiça e igualdade?
Não seria melhor termos os líderes da Conjuração Baiana como heróis do que o Tiradentes?
Não seria melhor termos uma “pessoa-estátua” que representasse um símbolo humanista, que valorizasse a democracia, prezasse pela coletividade e inspirasse resistência?
A bola está em jogo.
Walter Moreira Dias é doutorando em Educação (UFF), mestre em Sociologia e Antropologia (UFRJ) e graduado em História (UFF). Professor da SEDUC-Maricá e SEEDUC-RJ e autor de “Futebol é Política” (Dialética, 2024)
LATERAL ESQUERDA – Parceria dos professores e pesquisadores Christian de Morais, Henrique Alvarez, Luander Barros e Walter Moreira Dias.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário