7 de junho de 2026

Dedicatória antirracista ao Gattuso, por Walter Moreira Dias

Ex-técnico da seleção italiana (2025-2026), Gennaro Gattuso, que criticou a quantidade de vagas para o continente africano na Copa do Mundo
Comemoração da classificação de Cabo Verde para a Copa do Mundo de 2026 – Reprodução Instagram

Itália foi eliminada da Copa do Mundo 2026, marcando terceira ausência consecutiva após derrota para a Bósnia.
Gattuso criticou o aumento das vagas africanas na Copa, comparando de forma incorreta e com tom racista.
A presença africana no Mundial é fruto de luta histórica contra exclusão e colonização, não de concessão da FIFA.

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Dedicatória antirracista ao Gattuso

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É preciso dedicar politicamente cada gol e vitória das seleções africanas ao ex-técnico da seleção italiana (2025-2026), Gennaro Gattuso, que criticou a quantidade de vagas para o continente africano na Copa do Mundo

por Walter Moreira Dias

A Itália não se classificou para a Copa do Mundo de novo. Será a terceira ausência consecutiva (2018, 2022 e 2026) da tetracampeã no torneio, eliminada nos pênaltis pela Bósnia na repescagem europeia em 31 de março deste ano.

Ou seja, seria nítido apontar a própria seleção italiana como culpada pelo fracasso por não ter conseguido classificação em 1º lugar no Grupo I com Noruega, Israel, Estônia e Moldávia, e nem na repescagem.

Mas, mesmo antes da eliminação, em coletiva no dia 13 de novembro de 2025, o técnico Gennaro Gattuso já tinha encontrado seu culpado preferido em caso de insucesso. Ao reclamar do formato das Eliminatórias e das vagas destinadas aos países europeus, comparou: “em 1994 eram duas seleções africanas na Copa, agora são oito. Não vou acrescentar mais nada”.

Mas podemos acrescentar por ele. A insinuação racista que subalterniza africanos ao desejo dos europeus não é nova. O problema é sempre do outro, do estrangeiro, do africano, do latino, que ocupa um lugar que, no imaginário de Gattuso, não deveria ser dele.

Além de ter errado até no número. Eram três seleções africanas (Nigéria, Camarões e Marrocos).

E essa fala não é um deslize isolado de uma personalidade do futebol italiano. Da última Copa que a Itália esteve presente, em 2014, pra cá, também tivemos outros episódios relevantes e repugnantes.

Em 2014, Carlo Tavecchio, em campanha para presidir a Federação Italiana de Futebol, falou de um jogador fictício, “Opti Poba”, que “comia bananas” e de repente virava titular da Lazio. Menos de um mês depois, foi eleito presidente da entidade com 63,3% dos votos. A UEFA o puniu com seis meses de suspensão. O futebol italiano o agraciou com o cargo máximo. Tendo inclusive sido reeleito posteriormente.

No ano seguinte, em 2015, foi a vez de Arrigo Sacchi, ex-técnico do Milan e da seleção italiana. Ao comentar sobre um torneio de jogadores de base, disse que a Itália “não tem dignidade, nem orgulho” porque havia “muitos jogadores negros” nas categorias de formação.

O que todos eles lamentam, no fundo, é a perda de um suposto orgulho e pureza italiana, que todos nós sabemos de onde vem esse sentimento e como isto realimenta o crescimento extrema direita. Mas convém perguntar: de que época eles têm saudade?

A resposta começa em 1930.

A primeira Copa do Mundo teve treze seleções: sete da América do Sul, quatro da Europa e duas da América do Norte. Nenhuma africana. E não foi por acaso, nem por falta de talento. Foi porque quase não existiam países africanos livres e autônomos para organizar e promover o esporte e ter seleções. Menos de três décadas depois da Conferência de Berlim de 1885, as potências europeias já haviam repartido entre si quase todo o continente.

Entre 1934 e 1958, em cinco edições da Copa, houve exatamente uma presença africana: o Egito, em 1934, único país do continente com federação própria e relativa autonomia para competir naquele momento. Justamente na Copa que foi dentro da Itália fascista de Mussolini. Depois disso, o continente inteiro não esteve no Mundial por 36 anos.

A Confederação Africana de Futebol (CAF) é criada em 1957 apenas com quatro países membros justamente por terem autonomia administrativa frente às amarras imperialistas que ainda sufocavam a grande maioria dos territórios do continente.

E outra coisa que podemos acrescentar para o Gattuso: A Itália não foi espectadora dessa exclusão, tendo por exemplo, dois momentos de tentativas de dominação da Etiópia.

A presença africana na Copa não foi um presente da FIFA. Foi preciso lutar para que houvesse esta representatividade. Em 1966, revoltadas por terem de disputar uma única vaga com Ásia e Oceania, quinze nações africanas boicotaram em massa as Eliminatórias da Copa do Mundo na Inglaterra.

A pressão funcionou. A partir de 1970, a África teve sua primeira vaga direta, ocupada pelo Marrocos. Uma vaga virou duas em 1982, e foi crescendo até as nove vagas diretas de 2026.

Quando Gattuso diz que “antes eram duas, agora são oito”, ele começa a contar a história exatamente no ponto em que a injustiça começava a ser corrigida. Antes das poucas vagas, houve décadas de zero vagas. Um zero fabricado pela colonização e por uma FIFA que preferiu acolher o apartheid, chegando a colocar a África do Sul para disputar as Eliminatórias da Ásia, no lugar de se posicionar com justiça.

Há ainda uma última constatação. A última vez que um clube italiano foi campeão da Champions League, principal competição de clubes na Europa, foi em 2010, com a Inter de Milão. O time titular do clube italiano daquela final não tinha nenhum italiano: Júlio César, Maicon, Lúcio, Samuel, Chivu, Zanetti, Cambiasso, Sneijder, Pandev, Milito e o camaronês Eto’o no ataque. A pureza e o destaque italiano que Sacchi e Gattuso pleiteiam não conquistou nada nas últimas décadas. Quem ganhou foi a mistura. Quem ganhou foi, inclusive, o africano, para terror do Tavecchio.

Por isso, nesta Copa de 2026, fica a proposta. Cada gol e vitória de Marrocos, de Senegal, da Costa do Marfim, de Cabo Verde, da Tunísia, do Egito, da Argélia, de Gana, da África do Sul e da República Democrática do Congo deve ser comemorado e dedicado, irônica e politicamente, a Gennaro Gattuso. Dez seleções africanas para o seu delírio.

Que o continente que a Itália quis manter de fora seja exatamente aquele que terá holofotes, enquanto a Azzurra assiste à Copa de casa pela terceira vez seguida.

As vagas que tanto incomodam o senhor Gattuso não são generosidade.

São fruto de luta e pressão.

Walter Moreira Dias é doutorando em Educação (UFF), mestre em Sociologia e Antropologia (UFRJ) e graduado em História (UFF). Professor da SEDUC-Maricá e SEEDUC-RJ e autor de “Futebol é Política” (Dialética, 2024)

LATERAL ESQUERDA – Parceria dos professores e pesquisadores Christian de Morais, Henrique Alvarez, Luander Rocha e Walter Moreira Dias.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Lateral Esquerda

Parceria dos professores e pesquisadores Henrique Alvarez (Doutor em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento pela UFRJ), Walter Moreira Dias (Doutorando em Educação pela UFF) Christian de Morais (Graduando em História pela UFF) e Luander Barros (Mestre em História Comparada pela UFRJ) para tratar da interface entre futebol e política.

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