O afastamento do perito criminal federal João Cláudio Nabas da Operação Compliance Zero abriu uma nova frente de questionamentos nos bastidores da Polícia Federal (PF). Além da investigação central sobre o suposto vazamento de dados sigilosos envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), o histórico digital do servidor revela um alinhamento público e reiterado às principais bandeiras da Operação Lava Jato e a personagens da direita brasileira.
De acordo com o relatório da corporação encaminhado ao STF, Nabas criou arquivos digitais intitulados “Moraes.pdf” e “Toffoli e esposa.pdf”. O primeiro reunia trechos de um contrato de R$ 129 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes. Segundo a investigação, poucos dias após a suposta sugestão de vazamento feita pelo perito a colegas da própria PF, detalhes exatos desse documento passaram a ser divulgados pela imprensa.
O episódio levou a PF a retirar imediatamente o servidor da equipe da operação, cancelar seu acesso aos materiais apreendidos e instaurar um procedimento interno para apurar quebra de sigilo funcional. Paralelamente à materialidade do caso, as manifestações públicas feitas pelo perito ao longo dos últimos anos passaram a ser analisadas de perto pela instituição por contextualizarem o pano de fundo ideológico de um dos investigadores centrais do chamado Caso Master.
O histórico digital: Apoio à Lava Jato e críticas ao STF
Embora o perfil de João Cláudio Nabas na rede social X (antigo Twitter) esteja inativo desde 2023, as publicações preservadas e reveladas inicialmente pela revista Fórum mostram uma atuação política distante da discrição normalmente esperada de peritos criminais em casos de alta voltagem política.
As manifestações de Nabas miravam, inclusive, a cúpula do Judiciário. Em uma das postagens, o servidor compartilhou críticas diretas à gestão do ministro Dias Toffoli na presidência do Supremo, classificando o período como o “desmonte da Lava Jato” devido à revisão de processos e ao fim da execução provisória da pena em segunda instância.
O rastro de interações e compartilhamentos salvos na conta do perito desenha um mapa claro de suas inclinações políticas:
- Sergio Moro: Em junho de 2020, Nabas compartilhou uma publicação em que o hoje senador Sergio Moro interagia com apoiadores afirmando que “Boas causas nunca estão isoladas, não se preocupe”. O tuíte do ex-juiz era uma reação direta a análises da mídia que o apontavam como isolado politicamente na época, e o endosso do perito funcionou como um aceno de solidariedade à figura do principal símbolo da Lava Jato.
- Procuradores de Curitiba: O perito também repercutiu conteúdos de Roberson Henrique Pozzobon, integrante da Lava Jato e um dos aliados mais próximos de Deltan Dallagnol.
- Narrativa Antipetista: Nabas compartilhou publicações do perfil Desesquerdizada, conhecido pela militância digital voltada ao combate ao PT e defesa irrestrita de Moro.
- Oposição Parlamentar: Entre os políticos endossados pelo perito está o deputado federal Marcel van Hattem (Novo-RS). Na publicação compartilhada, o parlamentar criticava duramente as decisões judiciais do ministro Dias Toffolli no âmbito da Lava Jato.
- Endosso a Delegados: O servidor também replicou conteúdos do delegado federal Alexandre Saraiva, nome frequentemente associado a pautas da direita no debate público.
A tese da “Lava Jato 2” e o impacto institucional
O pano de fundo ideológico de Nabas ganha ainda mais relevância diante da tese da “Lava Jato 2”, que aponta que parcelas das investigações do Caso Master passaram a mimetizar o modus operandi da antiga força-tarefa de Curitiba. Esse fenômeno seria caracterizado por práticas como:
- Vazamentos seletivos direcionados a veículos estratégicos da grande imprensa;
- Pressão midiática sobre alvos centrais do inquérito e ministros do STF;
- Construção de narrativas públicas de culpabilidade antes mesmo da conclusão formal das apurações.
Até o momento, não há nenhuma acusação formal ou indício material de que as convicções políticas de Nabas tenham corrompido ou influenciado a elaboração de seus laudos periciais. Contudo, o rastro digital e os relatórios paralelos deixados pelo servidor tornaram-se peças fundamentais para que a PF compreenda a real motivação por trás do vazamento de informações sigilosas que chacoalhou as instituições.
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