O governo de Lula (PT) apresentou aos Estados Unidos um pacote de medidas técnicas para tentar conter a aplicação de uma sobretaxa de 25% sobre as exportações brasileiras. Batizado internamente de “mapa do caminho”, o plano busca esvaziar a influência política nas negociações bilaterais e responder a seis pontos críticos levantados por uma investigação comercial de Washington.
O prazo para a gestão de Donald Trump decidir se aplica ou não as sanções encerra-se em 15 de julho. A investigação americana foi baseada na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA. O principal argumento de Brasília contra o tarifaço é econômico: os EUA registram superávit comercial com o Brasil, o que, na visão de negociadores brasileiros, torna as sanções sem sentido prático.
Apesar do esforço diplomático, há ceticismo na comitiva brasileira. Auxiliares de Lula avaliam que a reversão total da medida é inviável e que a Casa Branca dificilmente entregará uma vitória política ao presidente brasileiro às vésperas do pleito americano. A estratégia foca, portanto, em conseguir uma postergação do prazo, cenário considerado mais realista.
Concessões e dados defasados
A proposta mais robusta apresentada pelo Brasil consiste na redução de tarifas de importação para setores controlados por companhias americanas, como máquinas, equipamentos médico-hospitalares e tecnologia da informação.
Outro pilar do plano envolve o combate ao desmatamento ilegal. O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) justificou a ameaça de taxação sob o argumento de que a destruição florestal havia aumentado no Brasil. Os negociadores brasileiros, contudo, contestam a premissa e apontam que os americanos usaram dados de 2021, período anterior ao atual mandato de Lula, e que os índices de derrubada de vegetação caíram recentemente.
As frentes de negociação avançam por meio de um grupo de trabalho bilateral liderado pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Marcio Elias Rosa, e pelo chefe do USTR, Jamieson Greer. Ambos se reuniram pela quinta vez nesta quinta-feira (2), dando sequência aos compromissos firmados após a visita de Lula a Trump na Casa Branca, em 7 de maio.
Em nota oficial, o ministério detalhou o escopo das conversas:
“Na reunião de hoje, seguimos debatendo as relações econômico-comerciais entre Brasil e Estados Unidos, contemplando analise concretas para os seis temas suscitados no contexto das investigações em curso no âmbito da Seção 301: comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, proteção à propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal”
A linha vermelha do Pix
Se por um lado o governo brasileiro aceita ceder em alíquotas de importação, por outro estabeleceu linhas vermelhas claras. O Palácio do Planalto avisou que o Pix é inegociável.
Dentro do escopo de “comércio digital”, o USTR alega que o Brasil adota políticas desleais que favorecem o sistema de pagamentos instantâneos local em detrimento de empresas norte-americanas de serviços financeiros e cartões de crédito.
Para o governo brasileiro, o Pix é considerado uma política pública consolidada de inclusão financeira e modernização econômica e não sofrerá alterações ou limitações para atender às demandas de Washington. A aposta de Brasília reside em demonstrar pragmatismo na agenda comercial para evitar que a resposta de Trump seja uma retaliação unilateral imediata.
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