17 de agosto de 2026

Na Vila Euclides, Lula lança a campanha do tetra e a militância faz sua festa

PT reúne milhares de apoiadores, juventude e movimentos sociais em clima de festa, memória e mobilização para a campanha presidencial
Ato de lançamento da campanha de Lula, em São Bernardo do Campo. Foto? PCdoB/SP

Lula lançou sua campanha ao “tetra” no Estádio Primeiro de Maio, em São Bernardo do Campo, reunindo 40 mil pessoas.
Militantes e jovens de várias regiões participaram, destacando a importância histórica e política do local para Lula.
A mobilização teve clima festivo, com bonecos, baterias e caravanas, simbolizando pertencimento e resistência política.

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Na Vila Euclides, Lula lança a campanha do tetra e a militância faz sua festa

por Cezar Xavier

O sol ainda nem havia vencido a preguiça da manhã quando as primeiras bandeiras começaram a tremular na Vila Euclides. Foi domingo, 16 de agosto, e São Bernardo do Campo amanheceu diferente. Não pelo céu azul que se estendia sem pressa sobre o ABC paulista, nem pela fumaça dos espetinhos que já se anunciava nas esquinas, mas porque aquele pedaço de chão tinha um encontro marcado com a própria história. No Estádio Primeiro de Maio — nome que já é programa, já é manifesto —, Luiz Inácio Lula da Silva lançava sua candidatura ao que os militantes chamam, com fé de torcida, de “tetra”. Quarenta mil pessoas vieram dizer que lembram de onde tudo começou.

O passado parecia caminhar de mãos dadas com o futuro. São Bernardo do Campo voltou a ser ponto de encontro de trabalhadores, militantes, dirigentes partidários e eleitores que chegaram de diferentes regiões para o lançamento da campanha de Lula à Presidência.

O palco era carregado de simbolismo. O Estádio Primeiro de Maio é parte da história política de Lula e do movimento sindical brasileiro. Foi ali, entre assembleias e grandes mobilizações operárias, que o metalúrgico construiu uma liderança que ultrapassaria os portões das fábricas e chegaria à Presidência da República.

Por isso, para muitos dos que atravessaram estradas e bairros da Grande São Paulo, estar naquele lugar tinha significado maior que participar de um ato eleitoral.

Geisa, militante da União da Juventude Socialista, viajou de Santos com um motivo simples e inabalável: “Eu gosto muito do Lula.” Quando perguntada sobre o significado do lugar, respondeu sem hesitar: “É histórico, de onde ele saiu. É importante que seja aqui.” Maria Elisa, de São Mateus, na Zona Leste de São Paulo, cruzou a cidade com a convicção de quem vai a uma trincheira: “O presidente Lula é a nossa única chance de combater o neoliberalismo e o fascismo da família Bolsonaro e seus cúmplices.”

Uma multidão que chega de longe

Geisa, Maria Elisa, Ergon, Cauê, Larissa e Igor falaram ao Portal Vermelho

A dimensão do ato podia ser percebida antes mesmo de entrar no estádio. As filas se prolongavam pelas ruas, enquanto novas caravanas chegavam continuamente. A multidão avançava lentamente, misturando bandeiras, camisetas, faixas, materiais de campanha e símbolos de partidos, sindicatos e movimentos sociais.

Quem não conseguia entrar permanecia do lado de fora, acompanhando os discursos pelos equipamentos de som e transformando as ruas próximas ao estádio em uma extensão da manifestação.

Ergon veio de Praia Grande, na Baixada Santista, com um megafone debaixo do braço e uma frase que resume a mística do dia: “É quase o ciclo do herói. Aquela pessoa que sai do lugar de origem, da humildade, e depois não esquece de onde veio. Retoma pra poder falar na cara do povo que ele tá aqui pra continuar lutando pela classe trabalhadora.” A metáfora captura o que o ato político significou naquele domingo: um retorno às origens como ato político.

Para ele, Lula representa a luta de um povo trabalhador e a possibilidade de novas conquistas. “Lula tetra presidente!”, repetia ao megafone, enquanto se preparava para participar da mobilização.

A frase encontrava eco em uma paisagem sonora marcada pelas baterias da UJS, pelos gritos da militância e pelos tradicionais “olê, olê, olá”.

O “lulinha” e a política transformada em festa

Nas ruas, a campanha assumia também uma dimensão quase carnavalesca. Havia bonecos gigantes, bandeirões, personagens de circo e materiais gráficos distribuídos por diferentes candidaturas.

Célia, militante que saiu do Jardim Helena, na Zona Leste, chegou às 6h da manhã com uma sacola de bonecos de Lula para vender. Em tom de brincadeira, chamou a criação de “bebê reborn do Lula”. Os compradores balançavam os bonecos vestidos com faixa presidencial como se fossem crianças.

“Todo mundo quer ter um lulinha”, brincou.

A cena ajuda a explicar o caráter peculiar daquele domingo: a política aparecia como disputa eleitoral, mas também como pertencimento, memória, confraternização e celebração coletiva.

Espetinhos soltavam fumaça pelas ruas, cervejas circulavam entre os grupos e a espera, em vez de dispersar a multidão, transformava-se em conversa entre amigos e companheiros de militância.

A juventude ocupa seu espaço

16.08.2026 – Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante o lançamento oficial de sua campanha no Estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP). Foto: Ricardo Stuckert

No meio da multidão, as baterias da UJS ditavam o ritmo — um gingado de marcha que transformava o ato em carnaval cívico. E era justamente a juventude que carregava boa parte dessa energia. Larissa, Cauê e Igor, três militantes do PCdoB, falaram em jogral, como se ensaiassem a campanha inteira em três vozes:

“A gente veio pra prestigiar o Lula e representar o PCdoB”, disse Larissa. Cauê completou: “Mas também fazer a disputa e colocar o Projeto Nacional de Desenvolvimento pra esse novo período de quatro anos, pra continuar reconstruindo o país.” Igor arrematou: “Pra mostrar que a juventude tá do lado do Lula pra derrotar essa extrema direita no país e no estado de São Paulo.”

Para eles, o estádio não era apenas um endereço. “É uma representatividade enorme. A gente sabe que o Lula surge, cresce e nasce como liderança política aqui”, disse Igor. Cauê lembrou que, naquele mesmo chão, Lula enfrentou a ditadura. “E agora estamos nesse cabo de guerra contra a direita e o fascismo.” Larissa, mais jovem do grupo, confessou que esperava se emocionar: “É que eu sou jovem e tô bem ansiosa pra ver o Lula de perto.” E todos, quase em coro: “A gente tá muito animado pra mostrar a força da juventude.”

A fala dos três sintetizava uma mensagem que se repetia entre os grupos de jovens: a campanha também é uma disputa pela participação política de uma nova geração.

“Fizemos história mais uma vez”

Na saída do estádio, quando o ato já havia terminado, Tonhão, liderança da luta por moradia, esperava o ônibus para voltar para casa. Cercado por militantes, avaliava a dimensão da mobilização.

Para ele, cerca de 40 mil pessoas participaram do comício, vindas de diferentes partes de São Paulo e também de outros estados. O número não era apenas uma estatística: era, em sua leitura, a demonstração de força de uma campanha que acabava de começar.

“Fizemos história, mais uma vez, aqui em São Bernardo do Campo”, afirmou, lembrando que aquele é o estádio onde Lula iniciou sua trajetória política na defesa dos trabalhadores.

Ao seu redor, a resposta veio em coro: “Olê, olê, olá, Lula!”, acompanhado pelo gesto do L formado pelas mãos.

O espetáculo é o próprio povo

16.08.2026 – Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante o lançamento oficial de sua campanha no Estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP). Foto: Ricardo Stuckert

No estádio Primeiro de Maio, a política teve cenário, palco, discursos e personagens. Mas o espetáculo principal estava nas ruas.

Estava na jovem que veio de Santos, na militante de São Mateus, no trabalhador de Praia Grande, na vendedora dos “lulinha”, nos jovens que enxergam na campanha uma disputa sobre o futuro e nas famílias que transformaram a espera em confraternização.

Estava também nas bandeiras de partidos e movimentos, nas baterias que davam ritmo à caminhada, nos candidatos que buscavam visibilidade e nas pessoas que, mesmo sem conseguir entrar no estádio, permaneceram do lado de fora para participar da festa.

O lugar onde tudo começou voltou a cumprir sua função simbólica: conectar a memória das lutas operárias do ABC à disputa política do presente. E, naquele domingo, a campanha de Lula começou menos como uma cerimônia formal e mais como uma grande demonstração de pertencimento político.

Em São Bernardo, o passado não ficou apenas nas fotografias. Caminhou pelas ruas, cantou, levantou bandeiras, carregou bonecos e, sobretudo, mostrou que a memória de uma trajetória política continua sendo mobilizadora para quem chegou ao Primeiro de Maio disposto a começar uma nova jornada.

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