O Grupo Casas Bahia protocolou um pedido de recuperação judicial no Foro Central Cível de São Paulo com o objetivo de reorganizar suas finanças, renegociar R$ 17,3 bilhões em dívidas e assegurar a continuidade do negócio. A medida engloba a holding e outras nove subsidiárias do grupo, como a Indústria de Móveis Bartira, a Cnova e a ASAP Log.
A decisão de recorrer à tutela judicial ocorre após a tentativa frustrada de captar recursos com investidores internacionais, agravada pelo encadeamento de juros altos, escassez de crédito e retração do consumo doméstico. A empresa comunicou que pretende manter o funcionamento regular das lojas físicas e do comércio eletrônico durante todo o trâmite, sem interrupções para os clientes.
Prejuízo bilionário e ajustes operacionais
O ajuizamento da ação coincidiu com a divulgação dos resultados financeiros relativos ao segundo trimestre de 2026. A varejista reportou um prejuízo líquido contábil de R$ 10,1 bilhões, cifra amplamente superior ao saldo negativo de R$ 555 milhões registrado em igual período do ano anterior.
Do montante total da perda, R$ 9,1 bilhões referem-se a efeitos contábeis não recorrentes e sem impacto direto e imediato no caixa, incluindo uma baixa de R$ 5,7 bilhões em impostos diferidos. Excluídos os lançamentos extraordinários, o prejuízo líquido ajustado somou R$ 978 milhões. A receita líquida trimestral teve alta de 1,6%, atingindo R$ 6,98 bilhões, impulsionada pelo crescimento de 15,3% nas vendas online diretas. Em contrapartida, as despesas com vendas subiram 17%, totalizando R$ 1,8 bilhão.
Encruzilhada financeira e frustração de aportes
A petição enviada ao Tribunal de Justiça de São Paulo representa o desdobramento de uma crise que vinha sendo gerida em etapas. Em 2024, a companhia firmou uma pactuação de recuperação extrajudicial para readequar R$ 4,1 bilhões em débitos bancários. A persistência da conjuntura de taxas de juros elevadas e o estrangulamento do capital de giro, porém, anularam o alívio pretendido.
Como parte de seu plano de reestruturação focado em rentabilidade, a rede encerrou as atividades de 298 unidades com desempenho abaixo do esperado, além de promover cortes de pessoal e renegociação de contratos. Entre o final de 2025 e os primeiros seis meses de 2026, executivos da Casas Bahia negociaram aportes de capital com investidores no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa, mas as conversas foram encerradas sem sucesso após a desistência do investidor âncora do processo.
“Nesse cenário de liquidez restrita, o ajuizamento do pedido de recuperação judicial mostra-se necessário e configura mais um passo na direção da reestruturação financeira da companhia, buscando preservar a continuidade das atividades empresariais, proteger a geração de valor futuro e viabilizar uma solução ordenada para o equacionamento de suas obrigações“, declarou o grupo em fato relevante encaminhado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Reorganização Societária
Por ter sido efetuado em caráter de urgência pela diretoria e pelo acionista controlador, o ajuizamento passará por ratificação dos acionistas em Assembleia Geral Extraordinária a ser convocada em breve. A lista de empresas integradas no processo reúne:
- ASAP Log – Logística e Soluções Ltda.
- ASAP Log Ltda.
- CNT Soluções em Negócios Digitais e Logística Ltda.
- Cntlog Express Logística e Transporte Ltda.
- Globex Administração e Serviços Ltda.
- Cnova Comércio Eletrônico S.A.
- Integra Soluções para Varejo Digital Ltda.
- Casas Bahia Tecnologia Ltda.
- Indústria de Móveis Bartira Ltda.
A reformulação nas finanças desdobrou-se também na estrutura de governança. O executivo Fábio Spina deixou a Vice-Presidência Jurídica e Tributária, assumindo a função de consultor do processo de recuperação. Para o posto, foi nomeada Sírley Lima. Paralelamente, os conselheiros Jackson Schneider e Rogério Calderón renunciaram a seus assentos no Conselho de Administração; Schneider, no entanto, continuará à frente da coordenação dos comitês independentes de Auditoria, Riscos e Compliance do grupo.
Deixe um comentário