5 de julho de 2026

O dia que Itamar Franco me processou, por Luís Nassif

Primeiro artigo sobre privatização da CSN: um quebra-cabeça que virou ameaça de processo por parte do presidente em questão.
Itamar Franco - Reprodução

O artigo relata críticas à privatização da CSN e a resistência do presidente Itamar Franco à inclusão das moedas sociais no processo.
Houve controvérsias sobre avaliação da Ultrafértil pela Price Waterhouse, com suspeitas de manipulação da taxa de desconto usada.
Após críticas, Itamar Franco anunciou processo contra o autor, mas retirou a ação após debate político e defesa de aliados no Congresso.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Meu primeiro artigo sobre a privatização da CSN saiu num domingo. Eu juntava as peças do quebra-cabeça e estranhava a postura do presidente Itamar Franco no episódio, especialmente o fato de não aceitar as chamadas moedas sociais na privatização.

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O texto foi remetido à Folha na sexta-feira. No sábado, comecei a pensar no artigo de segunda. Decidi apertar nos adjetivos e trombar de frente com o presidente.

Desde outubro a coluna vinha insistindo na inclusão das moedas sociais na privatização. Tratava-se de um mecanismo pensado por Paulo Rabello de Castro, que reconhecia direitos dos trabalhadores e criava a “moeda social” — com a qual os fundos de pensão poderiam participar do capital das empresas.

Por várias vezes o presidente do BNDES, Eduardo Modiano, postergou a questão. Quando aumentei as críticas, enviou Sérgio Besserman para tratar do tema em meu escritório. Mais tarde, como elas não cessavam, organizou um seminário no banco, com a presença de Paulo Rabello de Castro, para discutir o assunto.

Dias depois, Paulo Jerônimo, assessor do banco, ligou-me para dizer que Sérgio Zendron, principal homem da casa na área de privatização, havia demolido os argumentos de Paulo Rabello. Havia má-fé na manobra. Embora versado em economia, Rabello nunca fora especialista em mercado. Zendron discutira a questão dos fundos sob a ótica de mercado, e Rabello se enrolara.

— Vocês não estão querendo esclarecer nada — disse a Paulo Jerônimo. — Querem apenas encontrar álibis para não pôr a ideia em prática.

Com a mudança de governo, caiu Modiano e entrou Antônio Barros de Castro, disposto a mudar os critérios de privatização: pensava em subordiná-la a um planejamento industrial mais adequado e em incluir as moedas sociais. Chegou a me dizer isso num seminário em São Paulo. No início de fevereiro almoçamos na cidade, e ele contou que não tivera tempo de dar andamento ao caso porque passara janeiro inteiro defendendo-se das investidas do advogado-geral José de Castro Ferreira, operador de Itamar, que queria assumir o controle do programa.

O almoço foi no La Bourgogne. Barros de Castro levou seu assessor Augusto; comigo, foi minha irmã Inês. Na conversa, ele contou que José de Castro fizera gestões para liberar o Jornal do Brasil da necessidade de aportar garantias na concessão de um mega empréstimo.

José de Castro tentou ser esperto. Ligou a Barros de Castro informando que o Banco do Brasil concordara em abrandar as exigências de garantia; e fez o mesmo com o presidente do BB, Alceu Calliari, dizendo que o BNDES topara. Os dois se consultaram por telefone e desarmaram a esperteza. Pouco depois, José de Castro conseguiu a demissão de Barros de Castro, e a questão das moedas sociais voltou a segundo plano.

Ainda em janeiro, fui procurado por funcionários da Ultrafértil, com informações sobre a avaliação da companhia, preparada pela Price Waterhouse. A empresa estipulara uma taxa de desconto disparatada, que derrubava substancialmente o valor da companhia. O pessoal da Ultrafértil me apresentou o primeiro trabalho da Price, com um valor bem superior.

Fiz os primeiros artigos com bastante cuidado, apresentando os dados, mas sem avançar em conclusões. De imediato, Barros de Castro ordenou a Zendron que me esclarecesse os números. Zendron enviou dois técnicos do banco ao Dinheiro Vivo, com as explicações.

Não aparentavam segurança. Quando inquiri sobre a taxa de desconto, mostraram-me a carta remetida a um procurador que solicitara explicações. Quanto maior a taxa, menor o preço alcançado, já que ela incidia sobre o fluxo futuro de resultados da companhia. Na carta, explicava-se que à taxa de desconto se incorporara um risco Brasil, equivalente à diferença de taxas para a colocação de títulos brasileiros no exterior.

Não havia relação entre os dois riscos. O risco Brasil dizia respeito exclusivamente à capacidade do país de remeter divisas para fora. Um banco externo que concedesse crédito externo à Votorantim teria risco de crédito praticamente nulo; restaria, porém, o risco de, no vencimento, o Banco Central não dispor de dólares para remeter ao credor. Esse risco não existia na compra de uma companhia brasileira, operação que não envolvia crédito externo algum.

Quando observei isso, os dois técnicos do BNDES se entreolharam e pediram para ligar a Zendron. Ele havia saído para almoçar. Pouco depois retornou, informando que ordenara à Price que prestasse as explicações necessárias.

Logo ligou o Sr. Talland, consultor da Price que elaborara o trabalho. Não explicou nada pelo telefone; ficamos de marcar um encontro. Durante dez dias fugiu do compromisso, propondo horários impossíveis para mim. Certa vez, foi quase arrogante:

— O interesse é seu; logo, você deveria vir ao meu escritório quando eu pudesse.

— Você está enganado, Talland. O interesse é todo seu. Já tenho convicção muito forte de que há algo nessa avaliação, e estou apenas lhe dando uma chance de se explicar.

Combinamos almoçar no sábado seguinte, pois ele alegou ser necessária a presença da representante da empresa de avaliação. Naquela semana fui ao Rio trabalhar nas memórias do embaixador Walther Moreira Salles. Voltei no sábado para o almoço-reunião. Liguei para a casa dele à uma da tarde. Informou-me que, como eu não confirmara o almoço pela manhã, a especialista já viajara de volta ao Rio.

A manobra estava clara. Disse-lhe que agradecia a atenção, mas julgava não ser mais necessário o encontro. Ele agradeceu, parecendo aliviado.

Na segunda, saiu o artigo acusando frontalmente a Price de ter manipulado a avaliação.

Ao chegar à Agência, recebi o telefonema do assessor de imprensa da Price, dizendo que fora o golpe mais duro na reputação da companhia em toda a sua existência no Brasil. Achei exagerado: o artigo não tinha sido tão agressivo. Expliquei que dera todas as oportunidades a Talland para se explicar, em vão.

— A Price tem vários sócios e não pode ser prejudicada pela atuação de um. Você concordaria em receber outro sócio?

Disse que sim. Não houve mais retorno — provavelmente depois que conferiram a fragilidade dos argumentos de Talland.

A partir daí, passei a ver o programa com outros olhos. Fiz um artigo dizendo que Itamar tinha razão em suas resistências. Depois, recebi recado dele, dizendo-se tocado pelo texto. Roberto Medeiros, seu amigo pessoal, também conversou comigo: o artigo fora importante para conter as críticas que se faziam a Itamar por sua posição quanto ao programa.

Em seguida, nada mais aconteceu. José de Castro elaborou uma nova legislação que quase inviabilizava o programa, concentrando poder excessivo nas mãos do presidente. A regulamentação foi abrandada, e acabei ficando ao lado de Itamar, por julgar que apenas esse poder de arbítrio em suas mãos poderia romper a cortina de silêncio que o BNDES e as auditorias haviam montado depois que as denúncias vieram a público.

Nada se resolveu. Pouco antes da privatização da CSN, retomei as críticas, e José Roberto Mendonça de Barros — membro da Comissão de Desestatização e meu amigo pessoal — ligou marcando uma ida à Agência para explicar as mudanças no programa. Garantiu que as moedas sociais seriam incluídas, mas ponderou que, pela relevância política, não haveria como adiar o leilão da CSN nem implantar as novas regras em prazo tão curto.

Quando saíram os resultados da CSN, revelando que Procópio Lima Netto conquistara o controle dentro do mesmo esquema que levara à sua demissão, senti que não dava mais para postergar.

Engenheiro mineiro, nascido em Belo Horizonte, com doutorado em Planejamento Econômico pela Universidade de Stanford, Procópio assumira a presidência da CSN em abril de 1990, vindo do grupo Monteiro Aranha, nomeado por Collor com o objetivo declarado de conduzir a privatização da empresa.

À frente da companhia, executou o saneamento clássico de pré-privatização: enfrentou uma greve de sessenta dias logo de início, demitiu cerca de seis mil funcionários, enxugou custos e investiu em produtividade — e a CSN, deficitária crônica, gerou lucro em 1991. Também atuou para minar as fontes de resistência à privatização, influindo nas eleições do Sindicato dos Metalúrgicos do Sul Fluminense, em 1990, e do SENGE, em 1992 — o flanco da Força Sindical.

Com o impeachment de Collor, Lima Netto acabou demitido por Itamar Franco — segundo ele, quatro meses antes do leilão — e a privatização foi concluída “a contragosto” em 5 de abril de 1993. A CSN foi arrematada por um consórcio formado pelos grupos Vicunha e Bamerindus e pela estatal Vale do Rio Doce, que pagou cerca de US$ 1 bilhão com dinheiro emprestado pelo BNDES. Entre os principais compradores no pós-leilão figuravam a Força Sindical, o próprio Procópio, outros bancos (18,8%) e fundos de pensão (2,7%).

Soltei um artigo chamando Itamar de “pusilânime”. Saiu na segunda-feira. Ao meio-dia, peguei o avião para Brasília. Na manhã seguinte, o advogado-geral José de Castro Ferreira deveria depor na Comissão de Finanças da Câmara sobre denúncias que a repórter Regina Álvarez e eu havíamos formulado pela Folha, a respeito de pareceres da consultoria que beneficiavam empresas privadas.

Cheguei a Brasília às duas e meia e aluguei um telefone celular. Assim que liguei para minha secretária Zeide, em São Paulo, ela me informou que José de Castro telefonara logo após o meio-dia, do próprio gabinete do presidente da República.

Deixei para retornar ao chegar ao hotel. Liguei para o número indicado, que era o da secretária de Itamar. Ela disse que Castro aguardava em seu gabinete. Liguei algumas vezes, sem retorno. Enquanto esperava, fiz outras ligações; numa delas, fui informado de que Itamar decidira me processar. Procurei Francisco Baker, seu porta-voz, que disse nada saber. Voltei a ligar para José de Castro, sem retorno.

Aí soube que Itamar estava mesmo me processando. O anúncio provocou duas reações curiosas. Na manhã seguinte, eu teria um café da manhã com Yeda Crusius, então ministra do Planejamento de Itamar. Sua secretária me ligou desmarcando. Ao mesmo tempo, recebi uma ligação de Murílio Hingel, ministro da Educação, me dando apoio. O contraste entre ambos era notável. Hingel ligara na confiança, sem pedir off nem nada, sabendo que eu respeitaria sua posição e não daria publicidade ao gesto.

Continuei no hotel, fazendo outras ligações. No fim do dia, Zeide telefonou para avisar que a Folha já estava sabendo do processo. Liguei de novo para Baker, que informou ter em mãos a nota oficial, com a menção ao processo.

Rumei então para a redação da Folha, em busca de mais informações. A nota já estava lá. Preparei o artigo de resposta, cuidando de não dramatizar o incidente. Pouco antes, o diretor da sucursal, Gilberto Dimenstein, havia pedido a queda do presidente da Câmara, Inocêncio Oliveira, acusado de usar o DNOCS para perfurar poços em sua fazenda. O corregedor da Câmara declarou que apurariam a denúncia e que, não comprovada, processariam o jornalista. Gilberto ofereceu seu holocausto pelas criancinhas famintas do Brasil. A valentia positivamente não me agradou — sobretudo porque não havia risco nenhum na ameaça do corregedor.

No meu caso, havia um processo anunciado pelo próprio presidente. Traria dores de cabeça, sem dúvida. Não havia como calcular a reação de clientes e patrocinadores do Dinheiro Vivo. Provavelmente criaria dificuldades com todas as fontes do governo, além do poder de persuasão de que um presidente sempre dispõe junto ao Judiciário.

Mas, no fundo, não era bem assim. Nos artigos, eu tomara bastante cuidado para não atingir a honra do presidente. Fora duro, sim, cutucando-lhe a vaidade, chamando-o de despreparado e vaidoso. Mas a leitura de algumas sentenças em processos de crime de imprensa me permitia distinguir crimes contra a honra de meras suscetibilidades feridas.

Além disso, com seu estilo destrambelhado, Itamar positivamente não impunha receio. No fundo, o processo era bastante favorável a mim, pela repercussão inevitável.

Naquela mesma tarde, o velho Frias, proprietário da Folha, telefonou animado, cumprimentando-me com a ironia de sempre:

— Parabéns, você está subindo cada vez mais na profissão.

Aconselhou-me a ouvir o advogado Luiz Francisco sobre os próximos artigos, para não dar munição ao governo. O conselho foi dado com muito cuidado, para que eu não o interpretasse como censura ou receio. Na mesma noite, Otavinho ligou oferecendo todo o apoio do jornal, na parte jurídica e na jornalística.

A coluna não teve heroísmos. Reconheci o direito do presidente de me processar, como qualquer cidadão, mas também seu dever de prestar as explicações solicitadas.

À noite, na TV Band, Carlos Alberto Sardenberg combinou três perguntas a serem formuladas pela apresentadora Carla Vilhena (Marília Gabriela estava viajando). Perguntou se eu sofrera muitos processos.

— Apenas três. O de Saulo Ramos, ex-consultor-geral da República; o de Leopoldo Collor de Mello; e, agora, o do presidente. Não sei qual deles está em melhor companhia.

O atrevimento assustou os Saad. Mas as declarações saíram em tom calmo, na mesma tecla do artigo da Folha.

Naquela noite, fui jantar com Mônica Waldvogel, repórter da TVS, e seu marido, o ex-jornalista Carlos Marchi. Ela me contou alguns episódios palacianos relacionados ao artigo em que eu chamava o presidente de pusilânime.

Itamar reunira-se com cinco ministros e os dois líderes no Congresso, Pedro Simon e Roberto Freire, para decidir que atitude tomar diante do texto. Abriu um dicionário e foi repetindo os termos:

— Poltrão? Não sou. Espírito fraco? Também não. Indeciso, eu sou; mas covarde, não.

Naquele dia pedira a Pedro Simon que rebatesse as críticas no Senado. Simon fez uma defesa cuidadosa, com vários elogios à minha atuação, chamando-me de amigo e enfatizando que, embora “pusilânime” pudesse soar pejorativo no uso vulgar, o sentido que eu provavelmente quisera dar era o de indeciso — e indecisão, ponderou, é qualidade dos democratas.

Convencido, Itamar retirou o processo.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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