Quem tem medo do voto das mulheres?
por Gisele Agnelli
Durante décadas, o sufrágio universal representou um consenso relativamente estável nas democracias liberais. Disputavam-se preferências, programas de governo, lideranças e projetos nacionais. Não se discutia quem possuía o direito moral de participar da decisão coletiva.
Esse consenso começa a apresentar fissuras quando movimentos políticos deixam de interpretar derrotas eleitorais como consequência de suas próprias escolhas e passam a atribuí-las à suposta irracionalidade de determinados grupos sociais. É exatamente esse deslocamento que emerge hoje, simultaneamente, no Brasil e nos Estados Unidos.
A declaração de Paulo Figueiredo de que mulheres, em especial as solteiras, “não sabem votar”, foi tratada como mais um episódio da retórica agressiva da extrema direita. Talvez seja mais importante compreendê-la como um sintoma. Seu argumento estabelece uma hierarquia implícita entre cidadãos. Alguns votos seriam mais maduros, mais responsáveis e mais racionais do que outros. A igualdade política permanece formalmente preservada, mas perde sua legitimidade substantiva.
Esse movimento aparece justamente quando pesquisas de opinião mostram uma deterioração consistente do desempenho eleitoral do bolsonarismo entre mulheres, particularmente entre eleitoras independentes, urbanas, solteiras e com maior escolaridade. O conhecido gender gap, observado em praticamente todas as democracias ocidentais, tornou-se também uma realidade brasileira: homens aproximam-se mais do campo conservador; mulheres tornando-se mais progressistas e, no caso do Brasil, demonstrando crescente rejeição ao bolsonarismo.
Os populismos contemporâneos constroem sua legitimidade afirmando representar “o verdadeiro povo”. Mas toda definição de povo implica, inevitavelmente, definir quem permanece fora dele. Quando mulheres, jovens, minorias raciais ou grupos sexualmente diversos deixam de confirmar eleitoralmente essa identidade coletiva, deixam também de ser percebidos apenas como adversários políticos. Tornam-se corpos políticos suspeitos.
A literatura sobre populismo frequentemente analisa sua relação conflituosa com tribunais, imprensa ou universidades. Muito menos atenção tem sido dedicada ao conflito entre populismo e autonomia feminina. No entanto, talvez seja precisamente nesse terreno que se observa uma das transformações mais profundas da direita radical contemporânea.
A filósofa Judith Butler descreve esse processo como uma tentativa de restaurar uma ordem heteronormativa na qual apenas determinadas formas de feminilidade permanecem plenamente legítimas. A mulher ideal continua sendo esposa, mãe, religiosa e cuidadora. Sua entrada na esfera pública depende da preservação dessas identidades privadas. Não surpreende, portanto, que a crítica de Paulo Figueiredo recaia justamente sobre mulheres solteiras. Não se trata apenas de um estado civil. Trata-se da autonomia.
É nesse ponto que Michelle Bolsonaro ocupa uma posição particularmente interessante. Sua trajetória política demonstra que a extrema direita não rejeita a participação feminina em si. Ao contrário. Procura construir uma forma específica de protagonismo das mulheres. Michelle representa uma feminilidade conservadora politizada. A mulher participa da política não para questionar papéis tradicionais de gênero, mas para protegê-los. O espaço doméstico deixa de limitar sua atuação pública e passa a legitimá-la. Sua autoridade deriva precisamente da maternidade, da religiosidade e da missão moral.
Essa construção aproxima-se menos do feminismo liberal, emancipatório, trata-se de uma concepção autoritária de representação política, na qual a mulher fala em nome da família, da fé e da ordem moral. Talvez por isso o conflito recente entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro seja politicamente mais relevante do que aparenta.
Não está em disputa apenas uma candidatura. Está em disputa a sucessão simbólica de um movimento profundamente personalista.
Bolsonaro organizou sua liderança em torno do próprio carisma. Com sua retirada compulsória do centro da política, abriu-se uma disputa inevitável: quem herda a legitimidade do bolsonarismo? Michelle tentou responder deslocando o eixo discursivo do movimento. Em vez da oposição clássica entre bolsonarismo e esquerda, propôs uma nova fronteira moral: bolsonaristas verdadeiros contra bolsonaristas falsos, numa tentativa de reconstruir moralidade.
Sua atuação à frente do PL Mulher seguia exatamente essa lógica. O órgão deixava de funcionar apenas como um departamento feminino (frequentemente periférico nos partidos brasileiros) para transformar-se numa fonte paralela de legitimidade política (o partido dentro do partido), capaz inclusive de rivalizar com a estrutura formal do partido.
Os acontecimentos posteriores sugerem, entretanto, outro desfecho. A saída de Michelle do PL Mulher e, eventualmente de uma candidatura ao Senado, indica que, mesmo entre mulheres conservadoras, a estrutura patriarcal continua delimitando os limites aceitáveis do protagonismo feminino.
A ironia é evidente. Michelle procurou ampliar o discurso sobre violência política de gênero para incluir mulheres de direita. No momento decisivo, porém, encontrou resistência justamente dentro do campo político que pretendia reorganizar. O patriarcado mostrou-se mais forte que a sororidade conservadora.
Mas o fenômeno ultrapassa largamente a política brasileira. Nos Estados Unidos, o segundo governo Trump consolidou uma reação cultural semelhante. O SAVE Act pode impor obstáculos documentais ao voto que atingem especialmente mulheres que alteraram seu sobrenome após o casamento. O vice-presidente J. D. Vance transformou as “childless cat ladies” em metáfora de uma suposta decadência nacional. Setores do nacional-conservadorismo ligados ao pastor Doug Wilson questionaram a própria herança política da 19ª Emenda (responsável por garantir constitucionalmente o voto feminino) enquanto ressurgem propostas como o household voting, segundo as quais famílias deveriam votar como uma unidade política sob liderança masculina.
Esse paralelismo ajuda a compreender o papel desempenhado por personagens como Paulo Figueiredo, Eduardo Bolsonaro e Allan dos Santos. Nenhum deles exerce hoje liderança institucional relevante no Brasil. Sua função é outra. Atuam como intermediários (brokers) de uma ecologia política transnacional, traduzindo guerras culturais produzidas no universo MAGA para o contexto brasileiro e exportando conflitos brasileiros para audiências conservadoras nos Estados Unidos.
Não é por acaso que os ataques ao voto feminino aparecem hoje lado a lado com a desconfiança nas eleições, a contestação das instituições eleitorais e a mobilização contra direitos reprodutivos e de minorias. Todos esses elementos integram um mesmo repertório de reação às transformações sociais das últimas décadas. À medida que as mulheres conquistam maior autonomia econômica, educacional e política, deixam também de votar de maneira previsível. Em vez de reconhecer essa mudança como parte natural da dinâmica democrática, parte da extrema direita procura desqualificar sua escolha.
Talvez seja esse o aspecto mais revelador do momento político atual. O problema nunca foi apenas quem as mulheres escolhem para governar. O problema é que elas passaram a escolher por si mesmas. E, quando a autonomia feminina passa a ser percebida como uma ameaça política, o ataque deixa de ser dirigido apenas às mulheres. Passa a atingir um dos princípios mais elementares da democracia liberal: a igualdade política entre cidadãos.
A história do sufrágio feminino nunca foi apenas a história da conquista do direito ao voto. Foi a história da conquista da autonomia política das mulheres. É essa autonomia, mais do que o voto em si, que volta hoje a ser contestada.
Gisele Agnelli – Socióloga com especialização em ciências políticas, graduada pela PUC-SP, pós-graduada em Marketing e em Gestão da Informação, ambos pela ESPM. Fundadora do #VoteNelas. Atualmente reside nos EUA e faz parte do Movimento de Lideranças Femininas do Partido Democrata, Hoosier Women Forward.
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