Nesses tempos em que o Inspetor Clouseau, integrante da força tarefa da Polícia Federal no caso Master, tenta lançar a Lava Jato 2, é importante relembrar um pouco mais os princípios do efeito-manada e das formas de manipulação da opinião pública por interesses externos, a submissão da imprensa e do Estado ao chamado clamor das ruas. É importante para entender o que poderá ser feito no período eleitoral, a partir dos estudos sobre as chamadas “primaveras árabes”, as explosões populares estimuladas pelas redes sociais.
Há dois movimentos que precisam ser separados.
O primeiro é endógeno: por que a imprensa e o Estado se curvam ao clamor público, uma dinâmica sociológica com lógica própria. O segundo é instrumental: como esse mesmo mecanismo de mobilização passou a ser objeto de statecraft, isto é, de gestão deliberada por aparatos de Estado.
O texto abaixo foi levantado com o auxílio de Inteligência Artificial.
I. A física da capitulação
Por que a imprensa se curva
Não se trata propriamente de covardia, mas da estrutura de incentivos. A indignação gera engajamento, que sustenta o veículo e o jornalista. Repercutir a indignação é racional; verificar o assunto é custoso. E há o chamado risco reputacional invertido: quando se gera o chamado pânico moral, a dúvida metódica, em vez de instrumento do jornalismo, vira passivo: quem duvida de uma denúncia, passa a ser acusado de conivente com a corrupção.
Por que o Estado se curva
O clamor das ruas é sinal eleitoral antecipado. O Estado terceiriza sua agenda para a multidão a fim de se desonerar da responsabilidade. E o aparato de segurança aprende a explorar o clamor: cada pânico é janela para expandir poderes, orçamentos e exceções. O clamor não constrange o Estado; muitas vezes o autoriza. Forma-se o ciclo: a imprensa amplifica, o Estado reage, a reação valida o enquadramento da imprensa, e a espiral se aperta.
II. Sobre a instrumentalização do desconforto
Gene Sharp (1928–2018) foi um cientista político americano, considerado o principal teórico moderno da luta não-violenta como estratégia política — uma espécie de “estrategista militar” da resistência civil, tratando a não-violência não como princípio moral, mas como técnica de poder.
Esse princípio estimulou o Otpor sérvio, que derrubou Milošević em 2000 e se profissionalizou no CANVAS, exportando manuais de resistência; as “revoluções coloridas” da Geórgia e da Ucrânia, com NED, Freedom House e a Open Society financiando observadores, mídia e oposição.
Conto em detalhes esse movimento no meu livro “A conspiração Lava Jato”.
Esses movimentos se prevalecem de um clima prévio de desconforto. Até véspera da primavera árabe no Egito, os Estados Unidos apoiavam Hosni Mubarak.
No Brasil, os movimentos de rua de 2013 foram estimulados, inicialmente, por bilionários do Partido Democrata, sem participação direta do Departamento de Estado, que entra em cena com a Operação Lava Jato e seus quintas-colunas. O que se observou foi a capacidade das redes sociais e seus algoritmos de instrumentalizar o desconforto.
III. A grade de três colunas
| descartar | ||
| Caso | Desconforto Interno | Instrumentalização |
| Sérvia (2000)precedente | Guerras dos Bálcãs, hiperinflação, fraude eleitoral de Milošević | Otpor; financiamento de NED e do governo dos EUA; treinamento que depois vira o CANVAS |
| Geórgia (2003) / Ucrânia (2004)precedente | Eleições fraudadas, corrupção pós-soviética, captura oligárquica | NED, Freedom House e Open Society financiando observadores, mídia e oposição; manuais do CANVAS |
| Tunísia (2010-11) | Autoimolação de Bouazizi; desemprego juvenil; alta dos alimentos em 2010-11; cleptocracia de Ben Ali | Praticamente nenhum — a faísca tunisiana surpreendeu Washington e a própria região |
| Egito (2011) | Tortura policial, Lei de Emergência, fraude eleitoral, pão e inflação, 30 anos de Mubarak | Agenda de “internet freedom” do Departamento de Estado; Alliance of Youth Movements (Movements.org); contatos com a oposição revelados pelo WikiLeaks; alguns do 6 de Abril em eventos nos EUA |
| Líbia (2011) | Repressão de Gaddafi, fratura regional (Cirenaica × Tripolitânia), desigualdade | Intervenção militar da OTAN (zona de exclusão aérea), posterior; reconhecimento do conselho de transição |
| Síria (2011) | Seca e êxodo rural, repressão de Daraa, autoritarismo do clã Assad | Apoio externo a facções da oposição, posterior e fragmentado, sem direção unificada |
IV. Concluindo
A síntese honesta é dupla. Primeiro: o mecanismo de manada — a mobilização que se auto alimenta — é real e é, sim, alvo de ação de Estado. Operações de informação, astroturfing (prática de criar uma aparência artificial de apoio popular espontâneo a uma causa, produto, candidato ou campanha), gestão de narrativa e financiamento de “sociedade civil” são instrumentos de Estado, e os EUA construíram capacidade considerável neles.
LEIA TAMBÉM:
Deixe um comentário