12 de junho de 2026

O jornalismo de irrelevância, da notícia de dez linhas, por Luís Nassif

O jornalismo virou isso: notas de menos de dez linhas, fontes em off, com declarações que podem ter sido feitas ou não

“Ministros do STF estão ‘apavorados’ com Lei Magnitsky, diz político com acesso direto”, segundo nota na coluna de Lauro Jardim. O texto, para título com tal impacto, tem apenas 46 palavras:

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“Um político influente, com décadas de Parlamento nas costas e acesso direto a vários ministros do Supremo relata que os magistrados estão apavorados com a possibilidade de serem atingidos pela Lei Magnitsky: “Imagine só isso acontecer no estágio de vida deles. Ninguém quer uma coisa dessas”.”

Trata-se de uma ameaça feita por uma fonte em off que pode existir ou não, pode ter acesso ou não aos ministros, pode ter imaginado ou não a reação. Ou seja, com valor jornalístico zero.

Nos últimos tempos, o jornalismo virou isso, notas de menos de dez linhas, com fontes em off, com declarações que podem ter sido feitas ou não, que podem exprimir uma percepção individual apenas.

É o mesmo teor da nota: “Gilmar Mendes reconhece excessos em decisões, mas mantém blindagem a Moraes

“A semana passada em especial foi (mais uma) de intensa romaria de políticos, advogados e empresários no gabinete de Gilmar Mendes. A propósito, em alguns desses encontros, Gilmar reconhece certos excessos em decisões de Alexandre de Moraes. Mas deixa claro que não deixará de apoiá-lo”.

Ou este símbolo maior da mesmice: “’Estamos de novo nas mãos do Arthur (Lira)’” encimando o substancioso texto:

“De um petista graúdo, depois de Arthur Lira ter negociado a rendição dos bolsonaristas amotinados por 30 horas no Congresso na semana passada: “Estamos de novo nas mãos do Arthur. Vai ser difícil o Hugo (Motta) restabelecer sua autoridade””.

É a praga do jornalismo de impressão, de caça likes, abrindo mão de princípios jornalísticos consagrados. 

É da mesma natureza de uma colega de Jardim, que, dia sim, dia não, pespegava notas informando sobre o “mal estar” dos militares com toda sorte de notícias. 

É a face mais primária do jornalismo declaratório. Levanta qualquer tema, por mais banal que seja, consulta um oficial, existente ou não, ou alguma fonte, que diz ter fontes junto aos militares, e pergunta o que achou do caso. A manchete invariável era: “Episódio tal causou mal-estar entre os militares”. Mas ajudava a preencher a cota de notas diária e engordar as estatísticas de like. E ajudando a viciar o leitor nos truques mais primários das redes sociais.

Portanto, não trate essas notas como jornalismo. Mas apenas como impressões colhidas pelo colunista em conversas informais, que podem ter existido ou não, com fontes reais ou imaginárias, para cumprir com a cota de notas diárias.

Leia também:

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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8 Comentários
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  1. WRamos

    11 de agosto de 2025 11:37 am

    Se fossem jornalistas de fato, não estariam relatando medo dos ministros. Estariam os questionando sobre por que não se livram logo de ativos sujeitos a jurisdição estrangeira. Sem esta atitude, os ministros estarão sempre diante de um conflito de interesses, já que juraram defender a constituição e o país mas tem negócios incompatíves com esta função.

  2. Flavio Emieni

    11 de agosto de 2025 11:41 am

    “Portanto, não trate essas notas como jornalismo. Mas apenas como impressões colhidas pelo colunista em conversas informais, que podem ter existido ou não, com fontes reais ou imaginárias, para cumprir com a cota de notas diárias”.

    Em suma: Futrica.

    1. ed.

      12 de agosto de 2025 1:01 am

      Sim, temos uma categoria de futricalistas e jornaliqueiros, como Monica Bergamota, Raquel Lindinha, Vera Magalogica, Jazigos de Souza, Elio Gaspita, Gerson Camarota, esse Lauro aí, etc.
      O pior é que conseguem re-putação.

  3. fabricio coyote

    11 de agosto de 2025 2:32 pm

    não tem como concordar com fonte em off sendo um agente público. ou seja, esse off garante toda sorte de manipulação. a ponto da suposta jornalista daniela lima ter acesso a uma suposta fonte do stf que ridicularizava bananinha boçalnaro. isso tudo ao vivo, supostamente a suposta jornalista dialogava xom a suposta fonte em off do stf, com tudo isso infere-se: ou não havia fonte; ou a fonte ministro do stf não trabalha e tricota com supostos jorbalistas; ou a suposta fonte ministro do stf vive numa bolha inacreditável e dissociada da realidade. enquanto isso o golpe patrocinado pelos eeuu avança. país de covardes. e que falta faz Brizola…

  4. Luiz Fernando Juncal Gomes

    11 de agosto de 2025 3:34 pm

    O jornalista e a fonte

    O amigo João Franzin, da Agência Sindical, resumiu o jornalismo: “texto e fonte, não adianta um sem o outro”.
    Aqui agora já entra o Nassif, identificou a figura do jornalista sela, ou seja, aquele que é cavalgado pela fonte, como fartamente exemplificado no texto acima, em curtíssimo espaço de tempo.
    Cavalgado pela fonte. E com esporas.

  5. evandro

    11 de agosto de 2025 5:28 pm

    1) Estás notas (manchetes) são utilizadas em profusão no Facebook.
    2) Já passou da hora do GGN abordar o judiciário. Segue a última.

    “TST compra carro de R$ 346,5 mil para cada um dos 27 ministros
    “Tribunal da Justiça Social” também contratou uma sala VIP no aeroporto de Brasília para seus ministros, ao custo de R$ 1,5 milhão”

  6. Vander Resende

    11 de agosto de 2025 7:00 pm

    Há décadas não leio jornais impressos, mas nos anos 1990, quando lia F@lha e Estadão, todos os dias, já havia colunistas que faziam esse tipo de jornalismo. Um subgênero jornalística que poderiamos chamar de “notas políticas”.

    E conferindo aqui no App da ClaroBanca, as versões impressas, de hoje, 11/08/25, do Estado de S. Paulo, na pagina A2, “Coluna do Estadão”, e Estado de MG, p. 2, Coluna “Além do fato”, seguem o mesmo formato.
    O formato é quase o mesmo de que me lembro, e o conteúdo idem.
    Esse subgênero, “notas políticas” se caracterizava, e pelo que vejo agora, continua se caracterizando, como “fofocas políticas”.
    Há diferenças em relação ao que o Nassif está criticando?

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