21 de maio de 2026

O país das pesquisas incessantes, por Luís Nassif

Pesquisas tolas podem jorrar diariamente. “O que você acha do Trump atacar o Pix? Você é contra ou a favor da taxação de 50%?"
Reprodução

É o país da abundância de pesquisas de opinião inúteis, ou meramente irrelevantes, mais empenhadas  em retratar o nível de desinformação da população, do que prospectar tendências. Qual a lógica de perguntar para os pesquisados  o que acham da decisão de Donald Trump de aumentar as tarifas? Qual o nível de informação, qual o conjunto de variáveis assimiladas por um cidadão comum? Qual a relevância da opinião atual sobre as eleições de fins de 2026, totalmente moldada nos inputs do momento?

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A parte nobre das pesquisas não é o jorrar infinitamente, mas as análises capazes de captar as tendências de médio e longo prazo. E análises aprofundadas exigem séries longas de pesquisa, com questionários bem elaborados. Enquanto pesquisas tolas podem jorrar diariamente. “O que você acha do Trump atacar o Pix? Você é contra ou a favor da taxação de 50%?”

Mas o ponto central, é que as pesquisas, especialmente as eleitorais, têm um objetivo político claro, de manipulação da opinião pública, de direcionar o eleitorado, ou aproximando-o de quem está na frente, ou abandonando quem está atrás.

Por exemplo, o período de preparação do impeachment foi abastecido com manchetes do tipo:

Queda de popularidade e “crise de governabilidade”

Folha de S.Paulo

  • “Governo Dilma tem pior avaliação desde o fim da ditadura”

(Datafolha, 6 de julho de 2015)

→ Mostrava apenas 10% de aprovação. Usada como indicador de colapso político.

O Globo

  • “Aprovação de Dilma despenca e vai a 9%, diz pesquisa”

(7 de julho de 2015)

→ Destacava que o governo “atinge o menor nível de popularidade da história”.

Veja

  • “Dilma derrete”

(Capa de 15 de julho de 2015)

→ Com base em pesquisas de avaliação negativa.

Polarização e ambiente para ruptura institucional

Época

  • “A presidente está encurralada?”

(9 de março de 2015)

→ A capa destacava rejeição popular e citações a impeachment.

Estadão

  • “Rejeição a Dilma alimenta pressão pelo impeachment”

(12 de agosto de 2015)

→ Vinculava diretamente impopularidade a movimentos políticos pelo afastamento.

Simulações eleitorais antecipadas

Veja

  • “Lula perde para Aécio e Marina em 2018, mostra Datafolha”

(Abril de 2015)

→ A antecipação de 2018 servia para mostrar a perda de capital político do PT.

Folha de S.Paulo

  • “Rejeição a Lula cresce e Dilma leva petismo ao fundo do poço”

(Novembro de 2015)

Pesquisas como bússola para o Congresso

Valor Econômico

  • “Avaliação negativa de Dilma influencia votações no Congresso”

(Agosto de 2015)

→ Aponta como parlamentares se sentiam “autorizados” pelas pesquisas a votar contra o governo.

As pesquisas, de fato, refletiam uma queda real de popularidade. Mas eram exploradas editorialmente para alimentar a versão de uma crise terminal.

Movimentos como o Vem Pra Rua e o MBL usavam os dados das pesquisas como combustível em campanhas nas redes sociais.

O jornalismo declaratório — destacando “X% querem impeachment” — reforçou a ideia de que o processo era um “clamor popular”.

Não se trata de fenômeno recente. Nos Estados Unidos, a invenção do telégrafo sem fio provocou o aparecimento da primeira agência de notícias, a Associated Press. Em parceria com o The New York Times foi forjada uma imensa fraude em um dos estados federados, que permitiu a vitória de um dos candidatos.

Por aqui, o caso Proconsult – articulado pela Globo em 1982 – visava desarmar a fiscalização dos partidos de oposição, abrindo espaço para fraudes em cédulas eleitorais.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

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9 Comentários
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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    4 de agosto de 2025 8:29 am

    Pois é, Nassif.
    Tem tanta pesquisa sendo realizada, entretanto, não lembro de ter sido pesquisado por essas empresas. A único pesquisador que recebi em casa nos últimos anos foi do IBGE. E por mais que essa pesquisa oficial seja relevante (e deve orientar políticas públicas), as empresas de comunicação parecem mais interessadas em outros assuntos (desestabilizar o governo e deslegitimar pesquisas públicas e mesmo decisões do STF).

  2. Célio Knipel Moreira

    4 de agosto de 2025 10:32 am

    Mas a pesquisa mais idiota de todas é repetida e não deveria (a meu ver) poder ter seu resultado divulgado presentemente. É a pesquisa que avalia a disposição do eleitorado votar em quem está impedido de ser candidato até 2030.

  3. Paulo Dantas

    4 de agosto de 2025 12:50 pm

    “Nos Estado … ndidatos” Interessante , poderia ter maiores detalhes, procureino Google e não achei

  4. Anônimo

    4 de agosto de 2025 12:52 pm

    Você é contra pesquisas ?

    Sim() Não()
    ______________________________

  5. José de Almeida Bispo

    4 de agosto de 2025 1:07 pm

    Só dá ladrão!
    “G-zuis da goiabêra!”
    DE FATO, isso é a sociedade humana. Persistratus iniciou seu golpe na combalida oligogracia ateniense justo por uma mentira deslavada: a deusa Atena, interpretada por uma mulher, à caráter, o levou a ser rei por alguns dias. A mentira sempre foi o prato do dia na política.
    É difícil. Raro. Mas até honestidade existe na política. E a política, por sua vez, é o único modo de não nos matarmos uns aos outros indefinidamente.

  6. José Carvalho

    4 de agosto de 2025 4:22 pm

    A informação é uma arma poderosa, e quando o uso de narrativas moldadas pela subjetividade substitui a objetividade da precisa informação, , você distorce o conceito de realidade. Ao oferecer os dados de uma pesquisa, teoricamente se está permitindo uma interpretação acerca dessa pauta abrangida por ela. Alguém vai receber a informação e em alguma medida estará influenciado por aquilo que recebeu. Qualquer órgão que oferece pesquisa, considerando o valor da informação, recebe a contrapartida da credibilidade. A confusão provocada por esses tipos de pesquisas que querem apenas produzir números, que eventualmente sejam utilizados com a manipulação de opiniões, acabam promovendo um caos ao normalizar o absurdo. Sobretudo nas avaliações políticas, alguns tópicos se sobrepõem e acabam por justificar situações muito questionáveis.

  7. JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO

    5 de agosto de 2025 8:33 am

    As pesquisorreias estão jorrando soltas, feito hemorragia em veia furada. Não demora muito, surgirão pesquisas sobre qual o tipo de papel higiênico usado pelos cadidatos a candidato a presidência do país e outras pataquadas mais.

  8. Anônimo

    5 de agosto de 2025 10:08 am

    Qual seria a pesquisa merecedora de um prêmio equivalente ao ignobel?

  9. Jicxjo

    8 de agosto de 2025 6:30 am

    A porca mídia brasileira é cúmplice da criação da legião de traidores retratados nessas pesquisas sobre o tarifaço e a prisão de Bolsonaro. Natural que queira passar pano para entreguistas como ela própria. A prisão do capetão e sua turma é um imperativo nacional, que não pode se sujeitar a conveniências políticas medidas por pesquisas eleitoreiras. Ah, mas se isso acontecer vão dar um hard coup com apoio americano! Que tentem dar! Rasguem a Constituição e a fantasia de patriotas e nos transformem em colônia dos EUA então, babem ovo para o Estado Genocida de Israel. Mas nenhuma dominação dura para sempre. Talvez o Brasil precise mesmo de algo assim, ser escravizado e controlado por uma potência estrangeira com auxílio de lacaios locais, farsantes idolatrados por imbecis, para o despertar dessa parte da população, que segue no sono da ignorância e no transe semiótico lulofóbico fabricado nas duas últimas décadas.

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