do RED – Rede Estação Democracia
Os Astronautas da República
por Castigat Ridens
Uma festa de luxo em Nova York serve de ponto de partida para uma reflexão sobre a embriaguez do poder, a promiscuidade entre elites econômicas e políticas e a perigosa ilusão de que dinheiro, prestígio e cargos públicos colocam seus donos acima das consequências.
A verdadeira fantasia da Festa do Astronauta não era o capacete. Era a convicção de que riqueza, influência e poder político bastam para colocar seus donos em órbita, longe da prudência e das consequências.
Há um momento curioso na vida de quase todo poderoso.
É quando ele deixa de acreditar que ocupa uma posição privilegiada e passa a acreditar que pertence a outra espécie.
Não acontece de repente.
É um processo.
Primeiro desaparecem as filas.
Depois desaparecem as contas.
Em seguida desaparecem os “nãos”.
Um belo dia desaparece também o senso dos limites.
Nesse instante nasce um astronauta.
Não daqueles que atravessam a atmosfera.
Dos outros.
Os que passam a imaginar que a Terra continua girando apenas para o restante da humanidade.
Há muitas maneiras de subir.
Uns acumulam fortunas.
Outros acumulam votos.
Alguns recebem cargos.
Outros distribuem favores.
Todos correm o mesmo risco.
Confundir o poder que exercem com um poder que lhes pertence.
Em Nova York resolveram dar um nome extraordinariamente honesto para esse fenômeno.
Chamaram de Festa do Astronauta.
Talvez tenha sido, involuntariamente, a metáfora mais sincera já produzida pela elite brasileira.
Pela primeira vez, alguém resolveu dar ao baile exatamente o nome da doença.
A extensa apuração da jornalista Daniela Lima sobre o evento promovido por Daniel Vorcaro durante a Brazil Week, em Nova York, revela um ambiente exclusivo onde homens e mulheres obedeciam a regras diferentes. Segundo a reportagem, mulheres tinham restrições ao uso de celulares e ao acesso a determinados espaços, enquanto os homens circulavam livremente. A ambientação remetia ao universo espacial: figurinos temáticos, capacetes de astronauta e uma encenação que as fontes descreveram como fetichista e misógina.
É um quadro suficientemente eloquente por si só.
Não precisa de exageros.
Nem de imaginação.
Muito menos de moralismo.
Porque o verdadeiro escândalo nunca esteve no sexo.
Sexo pertence à intimidade, desde que praticado entre adultos, de forma livre, consensual e dentro da lei.
O escândalo está em outro lugar.
Na arquitetura do poder.
O salão da República
É aqui que a história deixa de ser sobre costumes.
E passa a ser sobre instituições.
Numa democracia, empresários conversam com governos.
Governos conversam com empresários.
Isso é inevitável.
E, muitas vezes, desejável.
O problema começa quando essa relação deixa de acontecer sob a luz da transparência e passa a florescer em ambientes reservados, onde riqueza, influência e poder político dividem o mesmo champanhe.
Não se trata de presumir ilegalidades.
Muito menos de transformar rumores em acusações.
A questão é anterior.
É republicana.
Dinheiro compra acesso.
O voto confere autoridade.
O cargo concede poder de decisão.
Cada uma dessas forças tem sua legitimidade própria.
O problema nasce quando elas deixam de apenas dialogar e passam a compartilhar relações de intimidade protegidas pela opacidade.
A preocupação não é a promiscuidade sexual.
A preocupação é a promiscuidade entre interesses econômicos e decisões políticas.
Quando quem financia, quem regula, quem decide e quem influencia passa a conviver longe do escrutínio público, a confiança nas instituições começa a pagar a conta.
Talvez nada de ilícito aconteça.
É perfeitamente possível.
Mas a democracia não depende apenas da ausência de crimes.
Ela depende da confiança de que o interesse público continua ocupando o centro das decisões.
Essa confiança é um patrimônio institucional.
E, uma vez perdida, leva anos para ser reconstruída.
A democracia confere poderes aos cargos.
Não às pessoas.
Um ministro não leva seus poderes para casa.
Um parlamentar não os coloca no bolso do paletó.
Um governador não os embarca no jatinho.
Um magistrado não leva a jurisdição para o jantar.
Todos exercem competências em nome das instituições.
Quando o prestígio do cargo passa a ser tratado como patrimônio pessoal, a prudência costuma pedir licença e sair pela porta dos fundos.
A embriaguez
Existe uma bebida mais forte do que qualquer uísque servido numa cobertura da Quinta Avenida.
Chama-se poder.
Ela embriaga sem precisar de gelo.
Produz euforia sem abrir a garrafa.
E provoca um efeito colateral pouco estudado.
Altera a percepção da realidade.
Quase cento e quarenta anos antes da Festa do Astronauta, Lord Acton escreveu uma das frases mais conhecidas da teoria política: “O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente.”
Talvez hoje fosse preciso acrescentar apenas uma observação.
Antes de corromper, o poder anestesia.
Convence seu portador de que deixou de ser observado.
De que as regras foram escritas para os outros.
Quando percebe que nunca saiu de cena, normalmente já é tarde.
Qualquer profissional de inteligência, diplomacia ou segurança institucional reconheceria imediatamente o problema.
Ambientes exclusivos, álcool, relações assimétricas de poder, controle seletivo sobre celulares e circulação de pessoas influentes constituem um cenário clássico de vulnerabilidade.
Não porque alguém esteja necessariamente cometendo um crime.
Mas porque pessoas investidas de responsabilidades públicas deveriam evitar situações capazes de comprometer a confiança que a sociedade deposita nelas.
Bilionários não estão acima da República.
Políticos não estão acima da democracia.
Magistrados não estão acima da Constituição.
Nenhuma fortuna compra imunidade.
Nenhum mandato suspende a responsabilidade.
Nenhuma toga absolve a imprudência.
A velha aristocracia
A História muda os figurinos.
Não muda o roteiro.
Versalhes teve seus bailes.
Silvio Berlusconi teve seus “bunga bunga”.
Jeffrey Epstein construiu outro tipo de salão, muito mais sombrio.
O Brasil também coleciona episódios em que salões privados acabaram abrindo as portas dos tribunais.
Os contextos são diferentes.
As responsabilidades jurídicas também.
Mas todos ilustram uma mesma tentação: acreditar que portas fechadas conseguem manter o poder imune ao escrutínio público.
Durante muito tempo acreditou-se que a República acabaria com a aristocracia.
Acabou apenas mudando sua composição.
Os títulos de nobreza deram lugar aos cargos.
Os brasões foram substituídos por logotipos.
Os palácios cederam espaço às coberturas de luxo.
Os bailes continuam acontecendo.
Vivemos um tempo em que parte expressiva da política disputa o monopólio da virtude.
Discursa-se muito sobre família.
Sobre costumes.
Sobre moral.
O problema começa quando esses valores aparecem apenas como armas contra os adversários e desaparecem diante das conveniências dos aliados.
A coerência continua sendo um artigo de luxo.
Muito mais raro do que qualquer garrafa servida naquela festa.
A reentrada
Talvez a Festa do Astronauta desapareça das manchetes em poucos dias.
Outra ocupará seu lugar.
Sempre ocupa.
O que permanecerá é a mais antiga das ilusões do poder.
A de que riqueza compra silêncio.
Influência compra esquecimento.
Prestígio compra imunidade.
Não compra.
Compra tempo.
Às vezes muito tempo.
Conforme alertou Lord Acton, o poder absoluto corrompe absolutamente.
Talvez a experiência das democracias contemporâneas permita acrescentar outra advertência.
A degradação institucional raramente começa dentro dos gabinetes.
Ela costuma começar muito antes.
Nos salões.
Nos camarotes.
Nos jantares reservados.
Nas festas onde o dinheiro deixa de pedir audiência ao poder e passa a brindar com ele.
É nesse instante que a República começa a perder altitude.
Não porque um crime tenha necessariamente acontecido.
Mas porque a fronteira entre o interesse público e o interesse privado se torna nebulosa demais para inspirar confiança.
E uma democracia vive, antes de tudo, dessa confiança.
Sem ela, toda órbita termina.
Toda reentrada acontece.
E nenhum capacete é capaz de amortecer o impacto do retorno ao chão.
‘Castigat Ridens’ é um pseudônimo criado a partir da expressão latina ‘Castigat ridendo mores’, que significa ‘corrige os costumes rindo’ ou ‘critica a sociedade pelo riso’, muito usada no contexto da comédia como instrumento de crítica social.”
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