do RED – Rede Estação Democracia
O eleitor invisível
por Benedito Tadeu César
As duas últimas pesquisas para a Presidência alimentaram interpretações sobre o ritmo da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. Mas uma questão metodológica passou quase despercebida: por que a indecisão praticamente desaparece quando os entrevistados recebem uma lista de candidatos?
Para onde realmente vão os indecisos entre a pesquisa estimulada e o voto na urna?
As duas mais recentes pesquisas nacionais de intenção de voto para o primeiro turno da eleição presidencial de 2026 produziram interpretações distintas. Parte dos analistas concluiu que a disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro teria entrado em uma fase de estabilização. A RED adotou uma leitura mais cautelosa. Sem ignorar os resultados, observou que tanto a AtlasIntel quanto a Nexus continuavam registrando crescimento de Lula, ainda que em ritmos diferentes, e ponderou que ainda é cedo para transformar oscilações recentes em tendências consolidadas. A campanha eleitoral sequer começou e a experiência brasileira mostra que mudanças importantes nas preferências do eleitorado costumam ocorrer justamente durante esse período.
Há, entretanto, uma questão que recebeu bem menos atenção do que a disputa entre os candidatos.
Ela diz respeito ao comportamento dos eleitores indecisos.
Na pesquisa espontânea da Nexus, em que o entrevistado responde livremente em quem pretende votar, 20% afirmam que ainda não sabem em quem votar ou preferem não responder. Quando os mesmos entrevistados recebem uma lista de candidatos, na pergunta estimulada utilizada para as análises eleitorais, esse percentual cai para 3%.
A AtlasIntel divulga apenas cenários estimulados. Neles, os indecisos representam apenas 0,1% dos entrevistados.
A diferença é suficientemente expressiva para justificar uma reflexão.
Uma mudança provocada pela pergunta
| Pesquisa | Branco/Nulo/Nenhum | NS/NR |
| Nexus – espontânea | 6% | 20% |
| Nexus – estimulada | 5% | 3% |
| AtlasIntel – estimulada | 1,1% | 0,1% |
Não se trata de afirmar que uma das pesquisas esteja correta e a outra errada.
As duas perguntas medem situações diferentes.
Na pesquisa espontânea, o entrevistado precisa lembrar sozinho o nome do candidato de sua preferência. Na estimulada, ele escolhe entre alternativas previamente apresentadas.
É justamente a pesquisa estimulada que fundamenta praticamente todas as análises publicadas pela imprensa, pelos partidos e pelos cientistas políticos, porque reproduz, ainda que imperfeitamente, a lógica da escolha que será feita diante da urna eletrônica.
Mas isso não elimina uma dúvida metodológica.
Os eleitores que se declaravam indecisos na pergunta espontânea realmente definiram seu voto alguns minutos depois ou parte deles apenas escolheu, entre os nomes apresentados, aquele que naquele momento lhe parecia mais aceitável?
A pesquisa, por si só, não responde a essa pergunta.
Um desafio conhecido pelos pesquisadores
A metodologia das pesquisas de opinião estuda há décadas os efeitos produzidos tanto pelo desenho das perguntas quanto pela composição das amostras.
Toda pesquisa enfrenta algum grau de viés de não resposta, conceito clássico da metodologia de surveys que descreve a menor probabilidade de determinados segmentos da população participarem dos levantamentos. Nas pesquisas realizadas pela internet soma-se ainda o chamado viés de auto-seleção, decorrente da decisão voluntária de responder ao questionário.
Os institutos conhecem esses problemas e empregam procedimentos estatísticos para reduzir seus efeitos.
A AtlasIntel utiliza recrutamento digital aleatório seguido de ponderação da amostra. A Nexus realiza entrevistas telefônicas e amplia sua investigação medindo o interesse dos entrevistados pelas eleições, a disposição declarada de comparecer às urnas e indicadores de polarização política.
Esses avanços metodológicos merecem reconhecimento.
Eles mostram que os institutos procuram compreender dimensões cada vez mais complexas do comportamento eleitoral.
Mas a própria sofisticação das pesquisas torna ainda mais relevante discutir seus limites.
A pergunta que permanece aberta
O objetivo deste artigo não é contestar a qualidade das pesquisas nem sugerir que seus resultados estejam equivocados.
A questão é outra.
Se determinados segmentos do eleitorado — especialmente aqueles historicamente mais propensos à abstenção, aos votos brancos e aos votos nulos — tiverem menor probabilidade de integrar as amostras, em que medida isso poderá influenciar as estimativas de intenção de voto atribuídas aos candidatos?
Da mesma forma, em que medida a apresentação de uma lista de candidatos transforma parte da indecisão em uma escolha ainda provisória, suficiente para responder ao pesquisador, mas não necessariamente consolidada como decisão eleitoral?
Essas perguntas não encontram resposta nos relatórios divulgados pelos institutos.
Também não invalidam seus resultados.
Mas apontam para um campo de investigação que merece maior atenção tanto da comunidade acadêmica quanto dos próprios pesquisadores de opinião.
Mais perguntas, menos certezas
As pesquisas eleitorais continuam sendo instrumentos indispensáveis para compreender a dinâmica política.
Sem elas, o debate público ficaria restrito às impressões pessoais, às preferências partidárias e às especulações.
Sua credibilidade, porém, depende não apenas da qualidade das estimativas que produzem, mas também da disposição permanente de aperfeiçoar seus métodos e discutir abertamente seus limites.
No caso das eleições de 2026, talvez a pergunta mais interessante não seja apenas quem lidera a corrida presidencial.
Talvez seja outra.
Quando a indecisão praticamente desaparece nas pesquisas estimuladas, estamos diante de um eleitorado que realmente definiu seu voto ou de um fenômeno metodológico que ainda precisa ser melhor compreendido?
Responder a essa questão interessa aos institutos de pesquisa, aos cientistas políticos e, sobretudo, aos próprios eleitores.
Leitura recomendada
Os conceitos de viés de não resposta, viés de auto-seleção e ponderação estatística utilizados neste artigo integram a literatura clássica sobre metodologia de pesquisas de opinião e comportamento eleitoral, sintetizada em obras como Survey Methodology, de Robert M. Groves e colaboradores, e The American Voter, considerado um dos marcos dos estudos sobre comportamento eleitoral.
Nota editorial: Este artigo foi elaborado com o auxílio de inteligência artificial para pesquisa, organização das informações e apoio à redação. A versão final foi integralmente revisada, analisada e editada pelo autor antes da publicação.
Benedito Tadeu César é mestre em antropologia social e doutor em ciências sociais, ambos pela UNICAMP, cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi docente da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), jornalista e diretor dos jornais Posição (ES) e Sul 21 (RS). Especialista em democracia, partidos políticos e análise eleitoral, poder e soberania, integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED – Rede Estação Democracia.
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