6 de julho de 2026

Fundo de Riqueza Soberana: Noruega vs Brasil, por Fernando N. da Costa

Fundo da Noruega investe globalmente, acumula ativos financeiros, reduz dependência fiscal do petróleo e preserva riqueza intergeracional.
Reprodução

Exploração petrolífera na Margem Equatorial pode criar fundo soberano no Brasil, mas depende de decisões institucionais e fiscais.
Brasil tem vantagens como Petrobras e reservas potenciais, mas enfrenta desafios populacionais e estruturais maiores que Noruega.
Dilema entre desenvolvimento e transição ecológica exige estratégia estatal para renda petroleira financiar futuro sustentável.

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Fundo de Riqueza Soberana: Noruega versus Brasil

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por Fernando Nogueira da Costa

Em tese, a exploração de petróleo na chamada “Margem Equatorial” — especialmente na região próxima à foz do Amazonas — poderia contribuir para a constituição de um Fundo de Riqueza Soberana brasileiro semelhante ao da Noruega, o maior do mundo. Mas isso dependeria de escolhas institucionais, fiscais e geopolíticas muito específicas. Não é um resultado automático da descoberta de petróleo.

A questão envolve, simultaneamente, transição demográfica, estrutura do sistema previdenciário, regime fiscal, política energética, gestão cambial, estratégia de desenvolvimento e limites ecológicos.

O caso norueguês é citado porque o país conseguiu transformar renda petroleira temporária em patrimônio financeiro permanente. O Fundo de Riqueza Soberana da Noruega investe globalmente, acumula ativos financeiros, reduz dependência fiscal do petróleo e preserva riqueza intergeracional.

Ele surgiu porque o Estado capturou grande parte da renda petrolífera, houve forte capacidade institucional, a população era pequena, o país já era relativamente igualitário e industrializado e o consumo da renda do petróleo foi parcialmente contido.

O Brasil possui pré-condições parciais, mas também dificuldades estruturais. Possui algumas vantagens. A primeira é uma grande empresa estatal, embora com expressivas participações acionárias de minoritários brasileiros e estrangeiros, capacitada para essa missão socioeconômica.

A Petrobras é uma das maiores empresas integradas de energia do mundo. Isso é crucial porque a exploração do petróleo exigirá captura tecnológica, conteúdo nacional, engenharia, arrecadação e capacidade de coordenação estatal.

As reservas são potencialmente gigantes. A Margem Equatorial pode conter petróleo offshore de alta produtividade semelhante ao encontrado na Guiana. Desde a histórica descoberta de quase 11 bilhões de barris de petróleo em 2015, a Guiana transformou-se na economia com maior crescimento no mundo. Se confirmadas grandes reservas, a exploração brasileira será muito expressiva.

O Brasil ainda possui uma população economicamente ativa relativamente grande, embora com baixo nível de escolaridade, antes do envelhecimento atingir o patamar europeu ou japonês. Isso daria tempo para acumulação financeira.

Mas existem obstáculos muito maiores diante do caso norueguês. O primeiro se refere à escala populacional. A Noruega possui cerca de 5,5 milhões de habitantes. O Brasil possui mais de 215 milhões.

Então, a renda petroleira per capita seria muito menor e o impacto previdenciário relativo seria diluído. Mesmo grandes reservas talvez não fossem suficientes para “resolver” estruturalmente a Previdência.

Outro problema é a estrutura desigual e financeirizada. A renda petrolífera poderá financiar o desenvolvimento nacional ou alimentar rentismo, apreciação cambial e reprimarização. Isso é a clássica “maldição dos recursos naturais” ou “doença holandesa”. Sem política industrial e coordenação estatal, o petróleo arrisca a fortalecer a desindustrialização.

Há pressões fiscais imediatas. O Estado brasileiro tende a usar receitas extraordinárias para cobrir déficits correntes, estabilizar dívida pública e atender pressões políticas de curto prazo. Já a Noruega poupou parcela relevante da renda.

A questão previdenciária é mais complexa diante da “falta de dinheiro”. O envelhecimento populacional realmente pressiona o regime de repartição.

A solução do problema depende também de produtividade do trabalho, formalização, crescimento salarial, estrutura tributária, automação, participação da renda do capital e taxa de emprego. A previdência não depende apenas de demografia, mas da capacidade produtiva e distributiva da sociedade. Um país mais produtivo consegue sustentar mais idosos mesmo com menor proporção de jovens.

A ideia de usar renda petroleira para previdência é economicamente racional. Faz sentido transformar recurso natural esgotável em ativo financeiro permanente. Isso seria uma troca: riqueza subterrânea finita por patrimônio financeiro intergeracional. É exatamente a lógica dos fundos de riqueza soberanos.

Mas surge uma contradição histórica importante: o conflito entre o desenvolvimento nacional e a transição ecológica. A exploração da Margem Equatorial ocorre justamente quando o mundo tenta reduzir combustíveis fósseis, cresce a pressão climática e os investidores internacionais reavaliam ativos petrolíferos.

Então, o Brasil enfrenta um dilema entre não explorar e talvez perder oportunidade histórica de acumulação, continuar dependente financeiramente e limitar capacidade fiscal futura. Explorar significaria ampliar emissões, aumentar risco ambiental e enfrentar críticas ecológicas e geopolíticas.

O debate ecológico aqui é profundamente desigual. Os países centrais enriqueceram durante 150 anos, queimando carvão e petróleo. Já países periféricos recebem pressão para limitar exploração antes de alcançarem o mesmo nível de desenvolvimento. Por isso, muitos autores do Sul Global argumentam a transição energética precisa considerar justiça histórica e assimetria internacional.

Um arranjo estratégico plausível para o Brasil seria exploração limitada e planejada com forte captura estatal da renda petrolífera, fundo soberano constitucionalizado, investimento em previdência, ciência, transição energética, industrialização verde e infraestrutura. Logo, usaria petróleo para financiar a saída gradual do próprio petróleo. Essa talvez seja a única estratégia historicamente coerente para países periféricos ricos em recursos naturais.

O problema decisivo é institucional e político. O maior obstáculo brasileiro não é geológico nem tecnológico, porque é a captura privada da renda, fragmentação política, curto-prazismo fiscal, financeirização e ausência de planejamento de longo prazo.

A experiência internacional mostra: recursos naturais podem gerar desenvolvimento ou aprofundar dependência e desigualdade. O resultado depende menos do recurso em si e mais da capacidade estatal, da coalizão política e do projeto nacional adotado.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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