7 de julho de 2026

Meu Brasil estrangeiro: futebol, colonialidade e biopoder, por Túlio Muniz

O futebol extrapola nacionalismos. Vai além dos interesses geopolíticos e financistas, olhando a vida de pessoas e singularidades.
Abertura Copa - México - Reprodução

Reflexões sobre o biopoder e colonialidade no futebol brasileiro surgem após derrotas em Copas de 2006 e 2026.
Desigualdades e influências políticas marcam o Mundial 2026, com interferências de Trump e discriminação a técnicos e árbitros.
Jogadores brasileiros, como Ronaldo e Neymar, refletem acomodação e mercado, distanciando-se de discursos nacionais e sociais.

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Meu Brasil estrangeiro: futebol, colonialidade e biopoder

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por Túlio Muniz

As reflexões a seguir surgiram tempos atrás, em 2006, a partir da assistência à palestra “Biopoder e niilismo: variações sobre a ‘vida besta’”, de Peter Pál Pelbart[i].  A fala de Peter se deu dias antes de jogo da Copa de 2006, no qual a França derrotou (e eliminou) o Brasil por 1 x 0, e reforçou algumas hipóteses as quais mantive, mas nunca publiquei. Diante do fracasso brasileiro na Copa de 2026, agora parece ser apropriado fazê-lo, não só pela longevidade da inspiração, mas sobretudo pela igualmente longeva decadência do futebol brasileiro.

Peter nos propõe pensar formas de resistências individuais contra o biopoder impregnado no discurso e práticas das ciências, da mídia, do capitalismo, do Estado, das religiões, diante do qual, como ele próprio afirmou na ocasião, “se deve agir como o lutador de sumô, que usa a força do oponente para derrubá-lo, ainda que no momento do abraço não se saiba exatamente quem é ele e quem sou eu”.

Durante a palestra, em plena copa da Alemanha, véspera de Brasil x França, eu não conseguia parar de pensar nos atletas (nos brasileiros em particular) de um campeonato que reúne dos melhores aos mais mal remunerados do mundo. Angola chegou a não ter chuteiras para seus treinos iniciais em 2006, e em 2026 Cabo Verde levou a campo uma seleção cujo técnico, Bubista, ganha U$ 10 mil mensais, enquanto o técnico do Brasil, Ancelotti, embolsa U$ 1 milhão.

Antes de prosseguir, convém evidenciar que biopoder aqui é entendido como o anunciado por Michel Foucault : um poder “cuja função mais elevada já não é mais matar, mas investir sobre a vida, de cima a baixo. Este biopoder foi elemento indispensável ao desenvolvimento do capitalismo, que só pode ser garantido às custas de inserção controlada dos corpos no aparelho de produção e por meio de um ajustamento dos fenômenos de população aos processos econômicos” (Foucault, 1984, págs 131-132). Pois foi o que fez o governo dos Estados Unidos (um dos anfitriões do Mundial de 2026, junto com México e Canadá) barrando ingresso em seu território de cidadãos de países considerados hostis (um árbitro somali, membros de comissões técnicas do Irã), promovendo revistas policiais discriminatórias a delegações diversas  (Iraque, Irã e mesmo da Argentina).

Tudo com anuência e submissão da Federação Internacional de Futebol (FIFA), agente de permanência de colonialidade de poder (conceito criado pelo sociólogo peruano Aníbal Quijano) que, bem resume e define verbete na Wikipedia,  “descreve como as estruturas de dominação, hierarquias raciais e exploração econômica, estabelecidas durante a colonização europeia, continuam a organizar a sociedade atual mesmo após o fim do colonialismo formal” (ver https://pt.wikipedia.org/wiki/Colonialidade_do_poder).

Exemplo maior da colonialidade do poder foi a anulação do cartão vermelho e suspensão de um dos principais jogadores norte-americanos por interferência direta de Trump.

Não considerar o futebol também enquanto questão histórica e social é denegar o próprio Brasil, mas, sobretudo, deixar que só o capitalismo, a mídia, o biopoder o pensem e controle tão somente com suas lógicas perversas. O futebol extrapola os nacionalismos. Nele, para além dos interesses geopolíticos e financistas, o que está em jogo é  a vida de milhões de pessoas e singularidades.

Encarar a participação brasileira em 2026 tendo por parâmetro a de 2006 é constatar que se algo mudou de lá para cá, foi para que tudo continue como está (parafraseando Lampedusa). Segue prevalecendo a acomodação decorrente da “gorda saúde” dos jogadores, no que Ronaldo Nazário foi exemplar, em todos os sentidos, e Neymar manteve tal tendência. Atletas que, por mais do que serem agenciados pelo biopoder, servem também de seus agenciadores.

Boa parte dessa acomodação pode ser atribuída aos contratos milionários com patrocinadores. Muitos promíscuos, como o comercial da cerveja onde o técnico Ancelotti (como outrora fez Carlos Alberto Parreira, técnico de 2006) aparece ao lado de Ronaldo, que na ocasião, em nenhum dos jogos perdeu,  a condição de titular apesar do seu discutível estado físico. São cumplicidades que estão além do copo.

Nas últimas duas décadas e meia, os jogadores brasileiros mais estrelados agem com total desprezo para com o outro (o adversário), ancorados num mito obsoleto da superioridade do futebol canarinho.  Desconsideram a alteridade sem a qual o encontro, o acontecimento, é impossível, pois sem o outro não há jogo, e sem jogo não há vida. Os brasileiros entram em campo como se a vitória lhes fosse imanente, esquecendo a lição de Garrincha: para vencer sem jogar é preciso, antes, combinar com os russos.

Em dado momento de sua palestra, Peter Pal Pelbart cita Lapoujade que remete a Beckett para “ilustrar” a impotência dos corpos que não agüentam mais e que sucumbem diante das adversidades da contemporaneidade. Também recorro a Lapoujade para o que aqui me interessa propor: a impotência do corpo do atleta, em particular do jogador de futebol brasileiro.

Ele parece ter escrito o texto após ver o Brasil X França de 2006, e não quatro anos antes (Lapoujade escreveu em 2002, e segue sendo atualíssimo):

 “Mesmo nas situações cada vez mais elementares, que exigem cada vez menos esforço, o corpo não agüenta mais. Tudo se passa como se ele não pudesse mais agir, não pudesse mais responder ao ato da forma, como se o agente não tivesse mais controle sobre ele. Os corpos não se formam mais, mas cedem progressivamente a toda sorte de deformações. Eles não conseguem mais ficar em pé nem ser atléticos. Eles serpenteiam, se arrastam. Eles gritam, gemem, se agitam em todas as direções, mas não são mais agidos por atos ou formas. É como se tocássemos a própria definição do corpo: o corpo é aquele que não agüenta mais, aquele que não se ergue mais”2.

Porém, este mesmo corpo impotente é também um corpo imprevisível, e não se submete docilmente às modelizações do biopoder. Vejamos o exemplo de Ronaldo, que às vésperas da Copa teve problemas com bolhas nos pés, causadas pelas novas chuteiras fornecidas pela sua patrocinadora pessoal, a Nike. Por alguns dias deixou de existir o Ronaldo automatizado pela mídia e pelo capital e tivemos acesso ao Ronaldo real, e não o Ronaldo “Fenômeno”.

Mais uma vez, o menino da bolha (ironia de alguns jornais em alusão a um melodrama americano dos anos 70-80), o Ronaldo modelo de virilidade tóxica, teve que se admitir humano e provar, em campo, que poderia se superar, sem artifícios. E trocou as “modernas” chuteiras azuis pelas antigas, amarelas. As bolhas sumiram, mas nem por isso o futebol do jogador ressurgiu. Nem o dele nem o de selecionados brasileiros que lhes sucederam.

Como de nada adiantou, em 2026, o exemplo disso foi a insistência na permanência por Neymar, já decadência há anos, mas mantido no elenco por seu potencial de mercado.

Em 2006 as atenções se dirigiram para Ronaldo, cujo corpo já se rebelara contra sim mesmo na copa da França em 1998. O Ronaldo que fazia (e faz) propaganda de cerveja mas que também engorda, o Ronaldo autômato cuja boca se abre para repetir palavras que lhe eram sopradas ao ouvido (“Se eu sou gordo Lula é bêbado”). O Ronaldo i-Real que, momentos depois da derrota para França, em 01 de julho de 2006, se esvaiu num não-discurso, afirmando, contra todas as evidências, que “Em nenhum momento faltou atitude, todos lutaram. Estamos todos tristes, sabemos que fizemos o máximo”, ou que “Esta é uma geração vencedora”, “Estamos orgulhosos do sacrifico que a gente(sic) fez”.  

Palavras desprovidas de sentido e comoção, assim como a ninguém comoveu o pranto de Neymar na eliminação de 2026, lágrimas provocadas mais pela perda de publicidade futura do que pelo melancólico ocaso (se não fim) de uma carreira desprovida de grandes sucessos no futebol mundial.

O paralelo Ronaldo-Neymar demonstra que se mantém o autocontentamento com o que pareceu ser seus únicos compromissos nas Copas: chegar ao recorde de gols marcados em campeonatos mundiais, não sem pensar nos futuros contratos que a marca lhe proporcionaria. Para Ronaldo, a Copa acabou no jogo anterior ao da eliminação, contra Gana, quando ele atingiu sua meta (15 gols em Mundiais). Para Neymar, o espectro do que a crônica esportiva chama de “ex-jogador em atividade” se manteve até o fim da trajetória da seleção, até que ele fez um gol de pênalti, já nos estertores do jogo contra a Noruega, e igualou um recorde de Pelé (marcou gols em quatro Copas seguidas), saiu desdenhando do adversário (que triunfou) e só.

Jogadores como Ronaldo, Neymar e tantos outros não se espelham mais em nenhuns discursos de união nacional, o que sustentam somente mediante patrocínio. O Brasil, para eles, não motiva qualquer investimento reterritorializante, é mera representação, motivo de denegação, um não-lugar onde passaram, na maioria das vezes, sofrimento e carência na infância e adolescência. É algo do que se vingar e esquecer, uma má consciência de si mesmos (Nietzsche). Seu próprio país se lhes apresenta como uma terra estrangeira ou, no máximo, como alternativa para as férias ou para gozar fim de carreira.  Em seus casos, ser brasileiro é travestir-se de uma identidade de conveniência.

A composição e o comportamento de seleções multiétnicas (como a francesa, a belga, a inglesa) refletem a sociedade donde vem seus atletas, mas de maneira oposta à dos brasileiros.  A atitude ativa do futebol francês, com seus Makelele, Zidane, Mbappe, Kanté, Dembelé, é a extensão do levante das barricadas de fogo que o Mundo assiste desde a Revolução Francesa e ao longo dos séculos, como nos muitos levantes populares contra o crescente poder da extrema direita global. A predominância da ascendência africana e árabe na seleção francesa é um verdadeiro desgosto para a extrema direita.  O povo francês segue sendo intensidade e vontade de potência, dentro e fora do campo.

No Brasil, ao contrário, a atitude (ou ‘falta de’) do selecionado nacional é compartilhado e ecoado por uma “classe média” cada vez mais pobre, financeira e culturalmente, dependente e drogada de subjetividade, para falar como Suely Rolnik. Não são poucos os jogadores e ex-jogadores que, ascendendo socialmente, se alinham a uma classe média acomodada em seus lugares próprios, sem se rebelar contra um cotidiano no mais das vezes medíocre, amparada no consumismo a face mais contemporânea e perversa do niilismo alicerçado nos seus/nossos cartões de crédito mantidos a juros exorbitantes.

Uma classe média que age e é agida pelo biopoder, que “quer comer o incomível” (Artaud) e se comporta tal qual o time que lhes impuseram para torcer, que engole o refrigerante e a cerveja que lhes dão para beber, o carro com o qual deve se locomover, os políticos de direita e extrema direita a votar. Efeitos ainda mais grave se notam em classes sociais mais pobres, que se afundam em dívidas via apostas eletrônicas (as bets) incentivadas por jogadores e ex-jogadores por elas patrocinadas, elevando os efeitos deletérios de subjetividades capitalistas que impulsionam o desejo rumo a um abismo sem fim.

Ainda assim, o futebol capaz de gerar afetos e sociabilidades, sobretudo no Brasil, onde a Copa sempre coincide com as festas juninas (exceto a do Catar, adiada para Dezembro de 2022 por conta da pandemia da Covid 19), e no Nordeste brasileiro adentram pelo mês de Julho. E com ou sem a presença brasileira no torneio, as ruas se mantêm coloridas de bandeirolas e adereços onde o verde e amarelo predomina, embaladas pelo vento que adia a esperança de uma vitória simbólica.

Para muitos, a eliminação da seleção brasileira foi algo positivo, evitando um vexame ainda maior nas fases seguintes e alertando a nossos técnicos e jogadores que esquemas como os de Ancelotti são anacrônicos e que a falta de brilho, vontade e força dos jogadores, é inadmissível no consciente coletivo. Uma mostra de resistência e vitalidade de uma parcela significativa de brasileiros que não perderam a sensibilidade e o senso de realidade, e as decepções recentes levam ao reconhecimento da superioridade do futebol de outros países, em particular a Argentina, até recentemente tida não só como adversária, mas inimiga no imaginário popular.

Pois se futebol é espaço de reificação de sofrimento (desde 1950 até 2026), é também possibilidade de devir. Isso desde que haja, por parte do jogador, vontade de recriar a si mesmo, e também por parte do torcedor, que pode aplaudir ao espetáculo do adversário (“amar ao inimigo”) em vez de se perder em autocomiserações e egocentrismos, reconhecendo o outro como algo melhor, positivo, interagindo com ele e superando a si mesmo.

É preciso discutir e entender as frustrações geradas pelos fracassos futebolísticos, a reação massiva que leva os corpos dos torcedores a voltarem contra si próprios, se autodestruindo ao embriagarem-se motivados pelo sofrimento, pela frustração, ou violando o corpo e o espaço do outro, como fazem as torcidas organizadas rivais e até os torcedores de um mesmo time. 

Para encerrar, gostaria de ilustrar com duas personagens. Uma vem das cenas iniciais do filme alemão ‘Corra, Lola, corra’ (1998). Em meio à multidão anônima e polifônica, surge um segurança de banco com uma bola de futebol na mão. Ele afirma que a vida é um jogo com tempo determinado e que são múltiplas as possibilidades de conclusão, como será o filme que vem a seguir à sua fala.

Outra personagem ao qual recorro é um catador de lixo de uma charge do cartunista paulistano Angeli, de 2003. Torcedor do Flamengo, time que tem a maior torcida do Brasil, o catador lamenta a iminência do rebaixamento no campeonato em curso e se indaga, em meio a montes de lixo: “Se o Flamengo cair para segunda divisão, o que será da minha vida?”.

O catador de Angeli, apesar de sua condição social degradante, sabe melhor do que ninguém as linhas de fuga que o futebol propicia a quem vive num cotidiano caótico e sem muitas perspectivas. Pois para o trabalhador, a vida é um jogo onde é “cada um por si e Deus contra todos” (Titãs), e o futebol é o palco de sua tragédia.

Túlio Muniz . Professor no Centro de Ciências Sociais Aplicadas e Humanas (CCSAH) da Universidade Federal Rural do Semi Árido (UFERSA). Graduação e Mestrado em História (UFC) e Doutorado na Área de Sociologia (Univ. Coimbra). Jornalista Profissional.  


1 Palestra realizada em Fortaleza (30-06-2006) dentro do ciclo “Pensamento Contemporâneo, fazendo rizoma”, Prefeitura de Fortaleza/Funcet e Laboratório de Pesquisa da Subjetividade (Leps), curadoria prof. Dr. Daniel Lins.

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