Benedito Ruy Barbosa: ecos e representações da alma rural e profunda do Brasil
por Antonio Hélio Junqueira[1]
Benedito Ruy Barbosa (1931-7 de julho de 2026) tem sido consensualmente apontado como o autor nacional de teleficção seriada que mais se debruçou sobre o ambiente rural brasileiro. Em sua obra, temas como as questões da luta pela posse da terra e pela reforma agrária se destacam em meio à exibição das condições miseráveis – históricas e presentes – de grandes contingentes de trabalhadores rurais, incluindo os imigrantes. Nascido ele próprio no interior paulista, na cidade de Gália, conviveu em sua infância com a profunda realidade contrastante entre o rural e o urbano, com os problemas enfrentados pelos trabalhadores rurais, com os efeitos sentidos especialmente no campo, como consequência da depressão econômica da II Guerra Mundial, o que veio a contribuir fortemente para a formação do seu universo autoral.
Na abordagem do rural brasileiro, apesar de sua extensão e diversidade, a obra de Benedito Ruy Barbosa pode ser pensada como uma única grande narrativa, que se desdobra e se complementa em unidades, capítulos, partes.
Há unicidade na diferença. Há continuidade nas quebras. Há retomadas. Há renascimentos nas mortes. O rural brasileiro de Benedito Ruy Barbosa é um só e em sua unidade retrata profundas raízes, memórias, esperanças e mazelas presentes em todos e em cada um de nós.
Na obra barbosiana, o rural é lugar imaginário de sonho e conflito. O sonho pela posse da terra move vidas, sela destinos, gera ações sociais, mobiliza sindicatos, lideranças e militantes e, na ausência de sucesso de todas essas instâncias, leva ao pacto mágico com o demônio, sinalizando que quando o social não alcança, a saída individual ainda pode representar a última esperança, ou a mais total (des)esperança, posto que negadora da possibilidade do triunfo do bem sobre o mal.
Benedito Ruy Barbosa sempre contou a mesma história, mas buscou com toda sinceridade, profundidade e entrega, encontrar as cores, as tonalidades, as nuances, os ritmos de cada uma de suas partes. Por isso, seus personagens encantam e costumam gerar pronta simpatia junto às audiências, com suas gírias, bordões repetidos à exaustão, seus regionalismos, seus sotaques e seus estrangeirismos.
Tratando-se do rural brasileiro, Benedito estrutura suas narrativas a partir da figura central masculina patriarcal do grande proprietário coronel, senhor de terras, almas e destinos. Se, por um lado, tal figura principal incorpora os ranços e personifica o atraso, o conservadorismo e a tradição do apego à terra, em suas relações sociais muitas vezes injustas, por outro, sempre possui a sua própria abertura para a redenção e a mudança. São personagens ambíguas. Em realidade, são os personagens secundários que desempenham papel similar na trama que sucumbem ao castigo e punição. São os “outros” coronéis, os “outros” grandes proprietários que conflitam com o herói da trama que não encontram sua própria escapatória e indulgência, reafirmando as mazelas sócio-históricas do campo.
Benedito Ruy Barbosa não abre mão do desfile das personagens rurais que compõem o imaginário nacional do ambiente agrário: os simplórios matutos, os padres, as beatas, as prostitutas, os advogados interesseiros, os capangas e jagunços, os donos de botecos de beiras de estrada, as professorinhas rurais. Se, por um lado, a forte religiosidade do povo brasileiro do campo se impõe como pano de fundo e sublinha a estética narrativa, é na discursividade sobre a esperança na justiça social entre os homens que repousa sua força teleficcional. Neste campo, ainda que o papel da política e principalmente dos (maus) políticos e o alcance dos movimentos sociais e dos partidos radicais sejam esmaecidas, senão de todo apagadas, o apelo pela defesa da natureza e da comunhão pacífica e não-predatória entre a produção e o meio ambiente ganham progressiva centralidade. Nesse sentido, a obra barbosiana dá mostras de percorrer um caminho de engrandecimento discursivo constante e progressivo.
Na representação imaginária da própria terra na produção ficcional brasileira – elemento central da obra de Benedito Ruy Barbosa – vemos que, se por um lado, o desejo de sua posse é por excelência o motor da ação humana no campo e a raiz estruturante da luta de classes no contexto da modernização periférica, por outro, a simbolização dela enquanto sistema organomineral vivo e complexo e objeto da pulsão por uma integração ecológica e cultural, é precária e tardia. Porém, destacamos que na obra barbosiana a conquista dessa representação simbólica é gradual, perceptível e reconhecível, até atingir relevância e centralidade em Velho Chico (2016). Esse percurso simbólico coincide com os caminhos da própria evolução da ecologia como campo científico e discursivo na sociedade contemporânea.
De fato, na efervescência dos revolucionários anos da década de 1960, os focos da luta social sonhada pela intelectualidade e pelos artistas engajados era o da consolidação do imaginário da posse da terra não apenas como elemento estruturante da luta de classes no Brasil, mas também como ponto nevrálgico para a construção da ação revolucionária. Neste contexto, as produções culturais cepecistas e cinemanovistas concebem a terra como lócus de mediação simbólica das relações sociais, arena de conflitos violentamente sangrentos, depósito de sonhos, esperanças, sementes e corpos. Porém, narrativamente, a terra não pode revelar sua existência e sua vida próprias, pois que tal perspectiva apresentava-se, ainda, carente de simbolização. Tal conquista sígnica se consolidará lentamente a partir dos anos das décadas de 1960, 1970 e 1980, com o progressivo estabelecimento da ecologia e do ambientalismo no seio das preocupações sociais, em âmbito mundial, com reflexos importantes no Brasil.
De fato, conforme proposto por Terry Eagleton (1993)[2] na sua interpretação da estética em Marx, toda representação é fenômeno construído pela História, a partir do já vivido e decorre, portanto, da relação de classes em permanente disputa hegemônica pelos sentidos e significados sociais. Nesse sentido, todo o futuro, o porvir, o ainda não vivido não pode ser representado, pois carece de simbolização própria. Assim, a simbolização da natureza como ente vivo – e sujeito, portanto, à própria morte – na esfera do rural e do popular ficcional só pode surgir e se desenvolver seguindo as trilhas das construções discursivas forjadas nos embates sócio-históricos do ambientalismo mais vigoroso, no Brasil, apenas a partir dos anos das décadas de 1980 e 1990.
Se, em Renascer – teleficção do início dos anos 1990 –, Benedito Ruy Barbosa já pode articular a presença simbólica da terra como elemento de fertilidade generosa e objeto de amor e de desejo a lhe perfurarem as entranhas, para muito além da simples superfície da posse, em Velho Chico – obra produzida um quarto de século mais tarde – , o amor e respeito a esse ente natural ganharão espaços e contornos discursivos próprios tão densos, alongados, revestidos muitas vezes de poética e de didatismo algo pueris, que se tornarão capazes de provocar os mais diferentes níveis de consciência e de repercussão, identificáveis pela multiplicidade de discursos ideológicos postos em circulação pela audiência telespectadora em diferentes mídias sociais, especialmente as digitais.
Constata-se, aqui, o alinhamento discursivo do autor ao que Lucien Sfez (1996)[3] interpretou na sociedade contemporânea como a visão utópica da “Grande Saúde”. Para Sfez, trata-se da última ideologia da pós-modernidade e a utopia por excelência do século XXI, que, em seu bojo, consolida o que denominou de uma “eco-bio-religião” integradora, em toda a sua magnitude simbólica, do projeto de regeneração e de purificação da saúde integral tanto do Homem, quanto do Planeta.
Seguindo esta direção, para que as desejáveis e urgentes mudanças na construção de novos estilos de vida e modelos de consumo sejam possíveis há que se convocar as agências dos campos da comunicação e da educação e, neste sentido, a teleficção seriada brasileira tem um importante papel a cumprir.
Benedito fez mais do que a sua parte. Ele nos deu rumo, régua e compasso. Resta perguntar: e agora?
Tive a imensa honra de estudar sua obra e entrevistá-lo pessoalmente para a minha pesquisa de pós-doutorado (CNPq/ PPGCOM ESPM): “O rural na teleficção seriada brasileira: imaginação e representação do ambiente agrário na obra de Benedito Ruy Barbosa”, ocasião em que pude atestar ao vivo a força e a magnitude do seu discurso e legado e de sua presença, desde sempre, inestimável para a cultura brasileira.
[1] Doutor em Ciências da Comunicação (ECA/USP), com pós-doutorado e mestrado em Comunicação e Práticas de Consumo (ESPM/SP) e Pós-doutorado em Gestão da Informação (UFPR). Pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP. Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP). Sócio proprietário da Junqueira e Peetz Consultoria Tendências e Inteligência de Mercado.
[2] EAGLETON, Terry. A ideologia da estética; tradução de Mauro Sá Rego Costa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993.
[3] SFEZ, Lucien. A saúde perfeita: crítica de uma nova utopia. São Paulo: Loyola, 1996.
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