Ora (direis), filosofar com as plantas!
Mancuso pela primeira vez no Brasil
por Antonio Hélio Junqueira
O biólogo, professor e escritor italiano Stefano Mancuso – criador da neurobiologia vegetal – faz parte da novíssima frente de cientistas, pensadores e artistas contemporâneos, cujo foco e missão é conduzir as plantas à ocupação do lugar a elas historicamente negado. Lugar, esse, que, além de eticamente devido, é múltiplo, multifacetado e holístico incluindo não apenas a ciência, mas todas as esferas do pensamento e da existência humana.
Mais do que uma “virada vegetal” está em andamento a construção de um novo pensamento de superação da tradição humanocêntrica que secularmente cristalizou o rebaixamento das plantas às formas inferiores de vida, ou como diz Mancuso “o zero, o sem valor”. Claro, não se trata aqui apenas das plantas, mas também de todos os outros seres não humanos que habitam o planeta e sobre os quais tem predominado a cegueira, com especial destaque para os fungos.
Metafisicamente, no âmbito da tradição filosófica ocidental, os vegetais sempre foram confinados à condição de vidas no limite da existência, posto que portadores, na visão aristotélica, de uma “alma incompleta”, ou, conforme o pensamento heideggeriano, “pobres de mundo”. Negando as possibilidades de sua relativa autonomia existencial, a vida das plantas foi (e continua sendo) condicionada às suas funcionalidades e utilidades, em uma atitude antiética flagrante.
A pretensa precariedade da vida vegetal tenta sustentar-se nas ideias de que nela há ausência de pensamento, sentimento e mobilidade, preconceitos que se mostram a cada dia mais falsos. A ruptura com esta ordem de coisas nasce do entendimento de que as plantas são, sim, dotadas de inteligência, que contrariamente ao homem e outros animais, não se encontra centralizada no cérebro ou qualquer outra estrutura ou órgão especializados. Pelo contrário, está distribuída por todo o seu corpo. É o que lhes permite agir com sensibilidade, comunicarem-se entre si e com os animais, memorizarem dados e informações e até mesmo manipularem outras espécies.
Acumulam-se evidências de que inúmeras ações vegetais – entre as quais se incluem época de florescimento e adaptações às mudanças ambientais – são formas de memória, intrinsicamente ligadas ao funcionamento da inteligência. Mancuso sugere, inclusive, que as plantas possuem um modelo mais robusto e moderno de inteligência do que os animais, haja vista que baseada em uma “composição modular, cooperativa, distribuída, descentralizada, sem centros de comando e capaz de resistir a repetidos eventos catastróficos sem perder a sua funcionalidade, se adaptando rapidamente a enormes mudanças ambientais” (Mancuso, “A revolução das plantas”, 2019, p. 13).
Tal ordem de coisas deveria e deve ser inspiradora para pensar formas inovadoras, criativas e não engessadas de organizações, ferramentas, sistemas, modelos de pensamento e gestão em todas as áreas da vida contemporânea. Tudo sob a influência de estruturas distribuídas, não hierárquicas e não burocráticas, lógicas e resilientes como as prevalecentes no mundo vegetal. Afinal, as plantas são cosmogônicas, são criadoras de mundos.
O mundo tal como estamos compartilhando encontra-se envolto em dilemas e desafios cruciais para a sobrevivência de todos os seres. A contribuição do pensamento vegetal para o encontro e descoberta de soluções pode (e deve) contaminar a imaginação humana, iluminando novas formas de pensar a existência cotidiana, o urbanismo (Mancuso, Fitópolis, 2026), o design fitocêntrico, a robótica (plantoides), as viagens espaciais, a estética e o bem-viver, onde as plantas não sejam mais vistas como mero objetos, mas como seres coexistentes, com quais estamos em relação.
Na encruzilhada pós-pandêmica e crítica do neoliberalismo contemporâneo, urge superar a hierarquização das formas de vida em busca de novas formas de produção do comum coexistencial e interespecífico, onde, segundo Emanuele Coccia (2020), “o mundo não é um lugar; é um estado de imersão de cada coisa em todas as outras coisas.”
Superando o pensamento raso e desinformado de um certo “fitofobismo” oportunista, equivocado em contrapor as plantas nativas às exóticas adaptadas, Mancuso defende um pensamento não sectário, cosmopolita e anticolonialista sobre o tema, entendendo as diásporas e migrações vegetais como potências de resistência e resiliência, especialmente no contexto das mudanças climáticas globais que estamos vivenciando.
No Brasil, Stefano Mancuso é publicado pela Ubu Editora, que oferta o seguinte catálogo do autor: “Fitópolis” (2026): imagina e discute uma transformação radical nas cidades inspirada no mundo vegetal; “Nação das Plantas” (2024): sugere que o mundo vegetal seja reconhecido como uma comunidade compartilhada e dita diretrizes para uma “constituição” verde; “A incrível viagem das plantas” (2021): desmistifica a ideia de que as plantas são imóveis e passivas, explorando suas surpreendentes estratégias de sobrevivência; “A planta do mundo” (2021): reúne narrativas históricas, curiosidades e investigações envolvendo o reino vegetal. “Revolução das plantas” (2019): vencedor do Prêmio Galileo de Divulgação Científica, aborda o potencial das plantas para solucionar problemas globais.
Entre os dias 2 e 10 de junho, Stefano Mancuso cumprirá a seguinte agenda no País:
São Paulo
- Sesc (São José dos Campos): Palestra “Do quintal à Floresta: a inteligência das plantas”, no dia 02/06.
- A Feira do Livro (Praça Charles Miller): Participação na programação ao ar livre no dia 04/06, com o debate “A Fitópolis de Stefano Mancuso”.
- Instituto Italiano de Cultura (Av. Higienópolis, 436): Conferência “A ecologia do cântico das criaturas e a inteligência das plantas”, no dia 10/06, às 19h.
Rio de Janeiro
- Centro de Ciências e Culturas Sesc RJ (Centro): Palestra magna na inauguração do novo espaço cultural na região da Candelária. 9 de junho.15h.
Minas Gerais (Inhotim)
- Seminário Internacional Transmutar (Brumadinho): Palestra de abertura no dia 06/06, às 10h30, na 3ª edição do seminário dedicado à arte, natureza e educação.
Seja muito bem-vindo, Mancuso!
Outras sugestões de leitura:
COCCIA, E. Metamorfoses. Tradução de Madeleine Deschamps e Victoria Mouawad. Rio de Janeiro: Dantes Editora, 2020.
NASCIMENTO, E. O pensamento vegetal: a literatura e as plantas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2021.
Antonio Hélio Junqueira – Doutor em Ciências da Comunicação (ECA/USP), com pós-doutorado e mestrado em Comunicação e Práticas de Consumo (ESPM/SP) e Pós-doutorado em Gestão da Informação (UFPR). Pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP. Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP). Sócio proprietário da Junqueira e Peetz Consultoria Tendências e Inteligência de Mercado.
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