A estratégia adotada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em relação ao Irã pode estar conduzindo Washington para mais um conflito militar prolongado no Oriente Médio, semelhante às chamadas Forever Wars (“guerras sem fim”) que marcaram as intervenções norte-americanas nas últimas décadas.
Essa é a principal conclusão de uma análise publicada pela CNN norte-americana, que avalia os efeitos políticos, militares e diplomáticos da crescente pressão exercida pela Casa Branca sobre Teerã.
A análise observa uma mudança significativa na postura do presidente: durante sua trajetória política, Trump frequentemente criticou as longas intervenções militares dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque, prometendo encerrar conflitos herdados de administrações anteriores e evitar novos envolvimentos militares.
Entretanto, seu segundo mandato apresenta uma realidade distinta. Em vez de reduzir a presença militar norte-americana, o presidente passou a utilizar sucessivas ameaças de ataques contra o Irã como parte permanente de sua estratégia de negociação, em comportamento que normaliza o uso de força militar como ferramenta cotidiana de política externa.
Ao mesmo tempo, a reportagem destaca as declarações de Trump sobre possíveis ataques à infraestrutura iraniana – o norte-americano mencionou publicamente a possibilidade de atingir pontes, usinas elétricas e outras instalações civis consideradas estratégicas.
Especialistas afirmam que ataques deliberados contra infraestrutura civil, quando não justificados por necessidade militar específica, podem configurar violações do Direito Internacional Humanitário e até crimes de guerra, em retórica que representa uma ruptura em relação ao discurso tradicional das administrações norte-americanas, que buscavam apresentar o uso da força como medida excepcional e compatível com as normas internacionais.
Pressão sobre Teerã não produziu os resultados esperados
A CNN argumenta que a campanha militar e econômica contra o Irã ainda não alcançou seus objetivos estratégicos. Embora o país tenha sofrido milhares de ataques desde fevereiro e enfrentado importantes perdas militares, o regime iraniano permaneceu funcionando e conseguiu reorganizar parte de sua estrutura política e militar.
Na avaliação da emissora, a sobrevivência do governo iraniano demonstra os limites do poder militar norte-americano quando não há uma estratégia política clara para o período posterior às operações militares.
Outro aspecto destacado é a fragilidade do memorando que sustentou o cessar-fogo entre as partes: os termos do acordo eram suficientemente vagos para permitir interpretações distintas sobre as obrigações do Irã, especialmente em relação ao seu programa nuclear.
O risco de uma nova “Forever War”
O conceito de Forever War ganhou notoriedade após a guerra do Afeganistão, conflito que se estendeu por duas décadas e evidenciou os limites da superioridade militar norte-americana diante de guerras prolongadas.
Para a CNN, Trump corre o risco de criar uma versão reduzida desse modelo de conflito: uma guerra de duração indefinida, sem objetivos claramente definidos, sustentada por sucessivas operações militares e por uma estratégia baseada na pressão constante sobre o adversário.
Ao manter uma campanha militar de objetivos variáveis e ameaças recorrentes sem resultados decisivos, Washington pode transmitir a adversários como Rússia e China sinais de limitações em sua capacidade de sustentação política e militar.
Ao mesmo tempo, a permanência do regime iraniano, apesar da intensa pressão militar, reforça a percepção de que a resistência prolongada continua sendo uma estratégia capaz de desgastar a maior potência militar do mundo.
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