9 de agosto de 2026

Demissão de maestro expõe denúncias de perseguição política, precarização e crise de gestão no Theatro Municipal de São Paulo

Saída de Daniel Cornejo da Orquestra Sinfônica Infantojuvenil reacende denúncias de censura, assédio, fraude e irregularidades administrativas
Maestro Daniel Cornejo, regente da Orquestra Sinfônica Infantojuvenil (OSIJ) da Escola Municipal de Música de São Paulo (EMM), com seus alunos. Foto: Divulgação

Maestro Daniel Cornejo foi demitido por e-mail da Orquestra Sinfônica Infantojuvenil, gerando denúncias de perseguição política.
Denúncia ao MPT acusa Theatro Municipal de censurar funcionários com cláusula que proíbe reuniões para debater pautas internas.
Gestão enfrenta inquérito do MP e suspensão de edital pelo TCM por irregularidades na escolha da nova Organização Social.

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Texto atualizado às 15h09 de 21/07/2026 para acréscimo de posicionamento da Fundação Theatro Municipal.

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A demissão do maestro chileno Daniel Cornejo, regente da Orquestra Sinfônica Infantojuvenil (OSIJ) da Escola Municipal de Música (EMM) foi recebida com surpresa pela comunidade e expôs um histórico de perseguição política, fraude trabalhista e gestão abusiva pelos administradores do Theatro Municipal de São Paulo.

Cornejo soube de sua demissão por e-mail, sem aviso prévio ou qualquer fundamentação técnica, ignorando décadas de construção artística de um maestro que formou gerações de músicos, evidenciando uma gestão que parece confundir autoridade com autoritarismo, tendo à frente o diretor-geral da Fundação Theatro Municipal de São Paulo, Abraão Mafra de Oliveira Lopes. 

Os indícios de perseguição política ganham força diante do histórico do maestro como liderança interna. Em 2019, quando a Secretaria Municipal de Cultura propôs um edital com cortes que sugeriam extinguir a Orquestra Infantojuvenil, acabar com o curso tradicional de Cravo e restringir a idade de ingresso de crianças na EMM, Cornejo uniu-se à comunidade de pais e alunos para capitanear a resistência que barrou os retrocessos. A atual demissão por e-mail é vista como uma retaliação tardia a essa postura.

Os indícios de perseguição política e censura dos profissionais ganharam um novo capítulo jurídico com a formalização de uma denúncia ao Ministério Público do Trabalho (MPT) pela vereadora Luna Zarattini (PT), em 9 de abril de 2026, afirmando que a Fundação Theatro Municipal violou frontalmente a liberdade de expressão e manifestação de seus professores, assistentes e oficineiros ao reinserir ilegalmente nos contratos de 2026 a cláusula 6.11 – que proíbe expressamente os contratados de promoverem quaisquer encontros ou reuniões (presenciais ou virtuais) para debater pautas administrativas, pedagógicas ou institucionais da escola, sob pena de punição.

A imposição dessa cláusula “mordaça” — identificada em diversos extratos de contratos publicados no Diário Oficial em 2026, abrangendo profissionais da Escola de Dança (EDASP) e da Escola de Música (EMSP) — corrobora a tese de perseguição política a Daniel Cornejo, demonstrando um plano deliberado de censurar lideranças e punir judicialmente qualquer trabalhador que ouse se articular coletivamente.

A conduta da gestão de Abraão Mafra configura descumprimento deliberado de acordo firmado com o próprio MPT em 2024, que havia determinado a reformulação da regra por ferir os artigos 5º, 7º e 8º da Constituição Federal. 

Enquanto a gestão censura o debate interno e cancela eventos como a FLIPEI (Festa Literária Pirata das Editoras Independentes) por suposto “cunho político”, a administração não hesita em aparelhar o espaço público para homenagens de viés partidário, como as realizadas para a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro em março de 2024.

O Padrão de Abuso: Os Casos Kika Souza e Fabiana Silva

O caso de Cornejo não é um ponto fora da curva, mas parte de um modus operandi de assédio institucional e coação. Um dos registros mais graves envolve o desligamento de Kika Cristiano de Souza. Com quase 20 anos de casa, a ex-assistente de direção da Escola de Dança foi submetida a uma emboscada administrativa em março. 

Convocada para uma reunião surpresa no último dia 11 de março, ela viu-se cercada por um colegiado composto exclusivamente por homens — entre diretores e advogados — e foi coagida com falsas acusações de “desvios” de figurinos ocorridos um ano antes para assinar uma demissão “amigável”. 

Sem apresentar provas, o diretor ameaçou Kika com um processo administrativo que “destruiria sua carreira” e atingiria seus bens, tentando forçá-la a assinar essa demissão. Kika recusou-se a ceder à armação, desafiando a abertura do processo (que nunca ocorreu).

Após a reunião, ela foi impedida de falar com sua equipe e seus pertences foram retirados sob um ambiente de ameaça. A violência institucional fez com que Kika adoecesse gravemente duas semanas após o episódio. Como retaliação final, a Fundação ordenou que o nome de Kika fosse “apagado” da história da escola.

A pedagoga e artista visual Fabiana Aparecida da Silva também enfrentou uma “caça às bruxas” após denunciar o monitoramento ilegal de conversas de funcionários pela cúpula da gestão. 

Depois de atuar por quase 6 anos como monitora e auxiliar de disciplina na Escola de Dança de São Paulo (EDASP), Fabiana foi demitida em junho último em decorrência do que afirma ser uma “caça às bruxas” promovida pelo diretor de formação Leonardo Camargo, indicado de Abraão, após a profissional denunciar na Ouvidoria que a namorada do diretor monitorava ilegalmente e de forma coercitiva as conversas dos funcionários. 

Camargo passou a fazer reuniões secretas com outras monitoras para colher informações contra Fabiana e, ao ser questionado por ela, demitiu-a de forma intempestiva e sumária.

O relato feito por Fabiana à Ouvidoria também expôs falhas de infraestrutura severas na Praça das Artes, como elevadores quebrados e a exposição de funcionários a agressões verbais em eventos desorganizados (como a “Taça das Favelas” em 2025), operando sob uma constante cultura do medo e risco à integridade física de alunos protegidos pelo ECA.

A Fraude Trabalhista Estrutural no Complexo Cultural

A demissão do maestro também expõe o “precariado de luxo” do Theatro Municipal: assim como Daniel, a grande maioria dos profissionais da instituição atua há mais de 10 ou até 30 anos sob contratos irregulares de prestação de serviços como pessoa física.

Profissionais de excelência são mantidos sob contratos de Pessoa Jurídica (PJ) ou prestação de serviço que mascaram um vínculo empregatício óbvio, caracterizado pela subordinação, pessoalidade e habitualidade. 

Assim, a instituição acaba privando os profissionais de garantias básicas previstas na legislação brasileira. Essa política de precarização vulnerabiliza o corpo técnico e configura fraude trabalhista à qual a atual administração dá continuidade.

Esta fraude trabalhista funciona como uma ferramenta de controle: sem direitos, sem garantias e sem fundo de garantia, os trabalhadores ficam à mercê de decisões despóticas, podendo ser descartados por e-mail após 30 anos de serviço público sem qualquer amparo legal.

O Futuro da Formação Musical em São Paulo

Além das denúncias de abuso contra trabalhadores, outros órgãos de controle externo estão fechando o cerco em torno da gestão de Abraão Mafra. 

Em fevereiro deste ano, o Tribunal de Contas do Município (TCM) barrou e determinou a suspensão imediata do edital de chamamento público elaborado pela Fundação para escolher a nova Organização Social (OS) gestora do local, apontando falhas como falta de justificativa para os valores do contrato, critérios pouco objetivos e risco iminente de favorecimento. 

Devido aos sucessivos atrasos e problemas no certame, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) também instaurou um inquérito civil para apurar possíveis irregularidades na conduta da diretoria da Fundação.

Enquanto isso, a Fundação Theatro Municipal de São Paulo afirma que “as atividades da Orquestra Sinfônica Infantojuvenil, bem como da Escola Municipal de Música, estão mantidas e seguem regularmente (…) Portanto, não procede qualquer informação que trate da interrupção dessas atividades, que não estão vinculadas à vigência de contrato de profissional específico (…) Por fim, a Fundação mantém o diálogo com famílias e estudantes e reafirma seu compromisso com a formação musical de excelência.

O Legado de uma Vida Dedicada à Música e à Educação

Chileno de nascimento e brasileiro de alma, Daniel Cornejo consolidou uma trajetória que é patrimônio da educação musical paulista. Com uma carreira que supera os 30 anos como clarinetista e 20 anos na regência orquestral, o músico é visto como um mestre do ensino coletivo

Com passagens pelo Projeto Guri e EMESP Tom Jobim, Cornejo introduziu o ensino coletivo na Universidade Livre de Música (ULM) em 2001 através do Projeto Primeiro Sopro. 

Desde 2010, ele esteve à frente da Direção Artística da Orquestra Filarmônica Infantojuvenil de São Paulo (OFIJ), onde estruturou um ambiente de excelência para jovens de 10 a 18 anos, transformando a prática orquestral em uma ferramenta de disciplina, sensibilidade e cidadania.

Sucessor legítimo da fundadora do projeto, a violoncelista Gretchen Müller, Cornejo dedicou anos de trabalho de excelência técnica e musical para consolidar a OSIJ (criada em 2002), transformando-a em um pilar imprescindível para a formação de jovens instrumentistas que hoje atuam no Brasil e no exterior. 

Em resposta à demissão do maestro, a comunidade estudantil se levantou contra o desmonte pedagógico, um abaixo-assinado na plataforma Change.org já mobilizou 2.049 assinaturas, unindo pais, alunos e figuras de proa da academia. 

“Sob a condução do Maestro Daniel Cornejo, esse projeto consolidou-se através de um repertório didático e de alto nível técnico, estruturado para desenvolver nos jovens a escuta mútua, a disciplina coletiva, o senso de responsabilidade e a sensibilidade artística por meio da prática orquestral”, afirma o Grêmio Estudantil Escola Municipal de Música de SP, responsável pelo abaixo-assinado

“Esse trabalho cuidadoso permitiu, ao longo dos anos, que dezenas de alunos tivessem suas primeiras oportunidades como jovens solistas, projetando nomes que hoje conquistam prêmios importantes no cenário musical brasileiro”, destaca a entidade. 

A Profa. Dra. Marisa Trench de Oliveira Fonterrada, ex-diretora da EMMSP e uma das maiores autoridades em educação musical do país, não poupou críticas à gestão da Fundação Theatro Municipal, classificando o ato como uma “enorme falta de respeito” e fruto de processos “dúbios e escusos” que priorizam o oportunismo político em detrimento do valor artístico.

“É muito difícil quando os critérios pedagógicos e artísticos de uma escola são substituídos por oportunismo, imposição política, ou por interesses alheios ao valor artístico-pedagógico”, destacou, em carta ao público.

ATUALIZAÇÃO: Em 21 de julho de 2026, a Fundação Theatro Municipal de São Paulo encaminhou o seguinte comunicado:

A Fundação Theatro Municipal de São Paulo esclarece que não houve demissão do Maestro Daniel Cornejo. O que ocorreu foi o encerramento do contrato de prestação de serviços de natureza artística, cuja vigência chegou ao fim. A decisão está inserida no âmbito da gestão e da organização das atividades artísticas e pedagógicas da instituição, que permanentemente avalia suas equipes, projetos e modelos de atuação, sempre tendo como prioridade a qualidade da formação oferecida aos seus alunos.

A Fundação reafirma seu compromisso permanente com a excelência do ensino, da formação artística e da difusão das artes. Mudanças e processos de renovação fazem parte da dinâmica natural de qualquer instituição de ensino e cultura e são, muitas vezes, necessários para seu aprimoramento e modernização. Essas transformações são conduzidas com responsabilidade e com o objetivo de fortalecer as escolas e ampliar as oportunidades oferecidas aos estudantes.

A Fundação Theatro Municipal é uma instituição plural, democrática, apartidária e aberta ao diálogo, comprometida com a educação, o ensino artístico e a formação de novas gerações de artistas. Não há, portanto, qualquer orientação institucional de perseguição, retaliação ou restrição à liberdade de manifestação de professores, alunos ou colaboradores.

As decisões administrativas e operacionais da Fundação são tomadas com base em critérios institucionais, pedagógicos, artísticos e de gestão, e não têm como fundamento retaliações a posicionamentos individuais, manifestações ou eventuais lideranças. A instituição respeita a liberdade de expressão e o direito à manifestação, sem prejuízo da observância das normas administrativas e contratuais que regem seu funcionamento.

No que se refere à modalidade de contratação dos profissionais de natureza artística, a Fundação esclarece que os vínculos são estabelecidos de acordo com a legislação aplicável e com as modalidades legalmente previstas para a contratação de serviços dessa natureza. Não há, portanto, qualquer fundamento para afirmar a existência de ilegalidade na modalidadecontratual adotada, cuja regularidade está submetida aos mecanismos de controle e fiscalização competentes.

Também não procede qualquer afirmação de que estaria em curso um processo de desmonte das escolas. Ao contrário, os últimos anos foram marcados por importantes avanços e investimentos na formação artística, com iniciativas concretas voltadas à melhoria das condições oferecidas aos estudantes e à ampliação do acesso à educação artística.

Entre essas ações, destacam-se a concessão de uniformes aos alunos, a aquisição, manutenção e reforma de instrumentos musicais, a ampliação e diversificação dos espaços e palcos destinados às apresentações dos estudantes e o estabelecimento de parcerias e intercâmbios internacionais, que contribuem para a ampliação das experiências formativas e para a inserção dos alunos em diferentes contextos artísticos e culturais.

Destaca-se, ainda, a criação do programa FTM Expandida, que atualmente atende mais de 600 alunos em diferentes regiões da periferia da cidade de São Paulo, ampliando o alcance territorial das ações de formação artística da Fundação. O programa oferece atividades de flauta doce, violino, violoncelo, violão, dança contemporânea, balé e danças brasileiras, com atuação nos CEUs Três Pontões, no Jardim Pantanal, na região do extremo leste; CEU Parelheiros, no extremo sul; e CEU Jardim Paulistano, na zona norte.

Como parte desse processo de expansão, está prevista para agosto deste ano a inauguração de uma nova unidade no CEU Uirapuru, na região do extremo oeste da cidade, com a oferta de cursos de piano, flauta doce, dança contemporânea e balé. Trata-se de uma política concreta de democratização do acesso à formação artística, levando o ensino de música e dança a territórios historicamente menos atendidos por esse tipo de iniciativa.

Quanto à não continuidade do contrato com a Sra. Cristiana de Souza, a decisão decorreu de uma avaliação relacionada ao aprimoramento da gestão e à reorganização das atividades da escola, processo natural e necessário em qualquer organização que busca permanentemente aperfeiçoar seus procedimentos, equipes e resultados. A Fundação entende que decisões dessa natureza fazem parte da responsabilidade de gestão e não devem ser interpretadas como atos de perseguição ou retaliação.

Em relação aos demais episódios mencionados, a Fundação opta por não comentar manifestações de caráter especulativo ou afirmações que não estejam acompanhadas de elementos objetivos que permitam sua adequada apuração. A instituição permanece, contudo, à disposição para prestar os esclarecimentos necessários sobre fatos concretos e devidamente fundamentados.

No caso específico da Sra. Fabiana, a Fundação esclarece que a comunicação acerca da não renovação de seu contrato ocorreu em razão de decisão administrativa relacionada a um episódio de conduta ético-profissional inadequada, testemunhada por diversas pessoas. A medida adotada decorreu de circunstâncias objetivas relacionadas à preservação da ordem administrativa e do adequado funcionamento institucional.

A tentativa de associar decisões administrativas dessa natureza a supostas relações pessoais entre dirigentes e profissionais, sem qualquer elemento concreto que sustente tal alegação, não contribui para o debate público qualificado e acaba por desviar a discussão dos fatos efetivamente ocorridos. A Fundação reitera que seus dirigentes atuam com profissionalismo, responsabilidade e observância dos princípios que orientam a administração pública e a gestão institucional.

A Fundação compreende que decisões relacionadas ao encerramento ou à não renovação de vínculos profissionais podem naturalmente gerar insatisfação ou divergências. Isso, contudo, não autoriza a atribuição leviana de acusações ou a divulgação de afirmações sem fundamento factual.

A instituição reafirma seu compromisso com a transparência, o diálogo e o respeito à comunidade artística e educacional, mantendo abertos os canais institucionais para o esclarecimento de dúvidas e para o recebimento de manifestações. Ao mesmo tempo, reserva-se o direito de adotar as medidas cabíveis diante de afirmações falsas ou acusações desprovidas de fundamento, sempre nos termos da legislação aplicável.

Por fim, a Fundação Theatro Municipal de São Paulo reafirma que sua prioridade é e continuará sendo a formação de excelência, a democratização do acesso à cultura e a construção de uma instituição cada vez mais moderna e alinhada às necessidades de seus alunos e da sociedade paulistana.

Tatiane Correia

Jornalista, MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo. Repórter do GGN desde 2019.

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2 Comentários
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  1. Odonir Oliveira

    19 de julho de 2026 11:43 am

    Trabalhei como AA- Assistente Artístico no final da década de 1990 no Departamento de Teatros, na SMC. Mantive relação direta com as 3 escolas EMIA- Escola Municipal de Iniciação Artística, EMB- Escola Municipal de Bailado e EMM- Escola Municipal de Música. Pude conhecer bem de perto toda a coreografia e as partituras que envolviam a história e a geografia desses grupos artísticos e do Theatro Municpal. Aprendi muito.

  2. Selma Aguiar

    20 de julho de 2026 10:15 am

    É lamentável ouvir mais um caso onde pessoas desqualificadas para uma avaliação educacional artística, sem ideais nobres e nada humanista esteja em altos cargos aplicando decisões tão destruidoras

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