18 de julho de 2026

Demissão de maestro expõe denúncias de perseguição política, precarização e crise de gestão no Theatro Municipal de São Paulo

Saída de Daniel Cornejo da Orquestra Sinfônica Infantojuvenil reacende denúncias de censura, assédio, fraude e irregularidades administrativas
Maestro Daniel Cornejo, regente da Orquestra Sinfônica Infantojuvenil (OSIJ) da Escola Municipal de Música de São Paulo (EMM), com seus alunos. Foto: Divulgação

Maestro Daniel Cornejo foi demitido por e-mail da Orquestra Sinfônica Infantojuvenil, gerando denúncias de perseguição política.
Denúncia ao MPT acusa Theatro Municipal de censurar funcionários com cláusula que proíbe reuniões para debater pautas internas.
Gestão enfrenta inquérito do MP e suspensão de edital pelo TCM por irregularidades na escolha da nova Organização Social.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

A demissão do maestro chileno Daniel Cornejo, regente da Orquestra Sinfônica Infantojuvenil (OSIJ) da Escola Municipal de Música (EMM) foi recebida com surpresa pela comunidade e expôs um histórico de perseguição política, fraude trabalhista e gestão abusiva pelos administradores do Theatro Municipal de São Paulo.

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Cornejo soube de sua demissão por e-mail, sem aviso prévio ou qualquer fundamentação técnica, ignorando décadas de construção artística de um maestro que formou gerações de músicos, evidenciando uma gestão que parece confundir autoridade com autoritarismo, tendo à frente o diretor-geral da Fundação Theatro Municipal de São Paulo, Abraão Mafra de Oliveira Lopes. 

Os indícios de perseguição política ganham força diante do histórico do maestro como liderança interna. Em 2019, quando a Secretaria Municipal de Cultura propôs um edital com cortes que sugeriam extinguir a Orquestra Infantojuvenil, acabar com o curso tradicional de Cravo e restringir a idade de ingresso de crianças na EMM, Cornejo uniu-se à comunidade de pais e alunos para capitanear a resistência que barrou os retrocessos. A atual demissão por e-mail é vista como uma retaliação tardia a essa postura.

Os indícios de perseguição política e censura dos profissionais ganharam um novo capítulo jurídico com a formalização de uma denúncia ao Ministério Público do Trabalho (MPT) pela vereadora Luna Zarattini (PT), em 9 de abril de 2026, afirmando que a Fundação Theatro Municipal violou frontalmente a liberdade de expressão e manifestação de seus professores, assistentes e oficineiros ao reinserir ilegalmente nos contratos de 2026 a cláusula 6.11 – que proíbe expressamente os contratados de promoverem quaisquer encontros ou reuniões (presenciais ou virtuais) para debater pautas administrativas, pedagógicas ou institucionais da escola, sob pena de punição.

A imposição dessa cláusula “mordaça” — identificada em diversos extratos de contratos publicados no Diário Oficial em 2026, abrangendo profissionais da Escola de Dança (EDASP) e da Escola de Música (EMSP) — corrobora a tese de perseguição política a Daniel Cornejo, demonstrando um plano deliberado de censurar lideranças e punir judicialmente qualquer trabalhador que ouse se articular coletivamente.

A conduta da gestão de Abraão Mafra configura descumprimento deliberado de acordo firmado com o próprio MPT em 2024, que havia determinado a reformulação da regra por ferir os artigos 5º, 7º e 8º da Constituição Federal. 

Enquanto a gestão censura o debate interno e cancela eventos como a FLIPEI (Festa Literária Pirata das Editoras Independentes) por suposto “cunho político”, a administração não hesita em aparelhar o espaço público para homenagens de viés partidário, como as realizadas para a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro em março de 2024.

O Padrão de Abuso: Os Casos Kika Souza e Fabiana Silva

O caso de Cornejo não é um ponto fora da curva, mas parte de um modus operandi de assédio institucional e coação. Um dos registros mais graves envolve o desligamento de Kika Cristiano de Souza. Com quase 20 anos de casa, a ex-assistente de direção da Escola de Dança foi submetida a uma emboscada administrativa em março. 

Convocada para uma reunião surpresa no último dia 11 de março, ela viu-se cercada por um colegiado composto exclusivamente por homens — entre diretores e advogados — e foi coagida com falsas acusações de “desvios” de figurinos ocorridos um ano antes para assinar uma demissão “amigável”. 

Sem apresentar provas, o diretor ameaçou Kika com um processo administrativo que “destruiria sua carreira” e atingiria seus bens, tentando forçá-la a assinar essa demissão. Kika recusou-se a ceder à armação, desafiando a abertura do processo (que nunca ocorreu).

Após a reunião, ela foi impedida de falar com sua equipe e seus pertences foram retirados sob um ambiente de ameaça. A violência institucional fez com que Kika adoecesse gravemente duas semanas após o episódio. Como retaliação final, a Fundação ordenou que o nome de Kika fosse “apagado” da história da escola.

A pedagoga e artista visual Fabiana Aparecida da Silva também enfrentou uma “caça às bruxas” após denunciar o monitoramento ilegal de conversas de funcionários pela cúpula da gestão. 

Depois de atuar por quase 6 anos como monitora e auxiliar de disciplina na Escola de Dança de São Paulo (EDASP), Fabiana foi demitida em junho último em decorrência do que afirma ser uma “caça às bruxas” promovida pelo diretor de formação Leonardo Camargo, indicado de Abraão, após a profissional denunciar na Ouvidoria que a namorada do diretor monitorava ilegalmente e de forma coercitiva as conversas dos funcionários. 

Camargo passou a fazer reuniões secretas com outras monitoras para colher informações contra Fabiana e, ao ser questionado por ela, demitiu-a de forma intempestiva e sumária.

O relato feito por Fabiana à Ouvidoria também expôs falhas de infraestrutura severas na Praça das Artes, como elevadores quebrados e a exposição de funcionários a agressões verbais em eventos desorganizados (como a “Taça das Favelas” em 2025), operando sob uma constante cultura do medo e risco à integridade física de alunos protegidos pelo ECA.

A Fraude Trabalhista Estrutural no Complexo Cultural

A demissão do maestro também expõe o “precariado de luxo” do Theatro Municipal: assim como Daniel, a grande maioria dos profissionais da instituição atua há mais de 10 ou até 30 anos sob contratos irregulares de prestação de serviços como pessoa física.

Profissionais de excelência são mantidos sob contratos de Pessoa Jurídica (PJ) ou prestação de serviço que mascaram um vínculo empregatício óbvio, caracterizado pela subordinação, pessoalidade e habitualidade. 

Assim, a instituição acaba privando os profissionais de garantias básicas previstas na legislação brasileira. Essa política de precarização vulnerabiliza o corpo técnico e configura fraude trabalhista à qual a atual administração dá continuidade.

Esta fraude trabalhista funciona como uma ferramenta de controle: sem direitos, sem garantias e sem fundo de garantia, os trabalhadores ficam à mercê de decisões despóticas, podendo ser descartados por e-mail após 30 anos de serviço público sem qualquer amparo legal.

O Futuro da Formação Musical em São Paulo

Além das denúncias de abuso contra trabalhadores, outros órgãos de controle externo estão fechando o cerco em torno da gestão de Abraão Mafra. 

Em fevereiro deste ano, o Tribunal de Contas do Município (TCM) barrou e determinou a suspensão imediata do edital de chamamento público elaborado pela Fundação para escolher a nova Organização Social (OS) gestora do local, apontando falhas como falta de justificativa para os valores do contrato, critérios pouco objetivos e risco iminente de favorecimento. 

Devido aos sucessivos atrasos e problemas no certame, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) também instaurou um inquérito civil para apurar possíveis irregularidades na conduta da diretoria da Fundação.

Enquanto isso, a Fundação Theatro Municipal de São Paulo afirma que “as atividades da Orquestra Sinfônica Infantojuvenil, bem como da Escola Municipal de Música, estão mantidas e seguem regularmente (…) Portanto, não procede qualquer informação que trate da interrupção dessas atividades, que não estão vinculadas à vigência de contrato de profissional específico (…) Por fim, a Fundação mantém o diálogo com famílias e estudantes e reafirma seu compromisso com a formação musical de excelência.

O Legado de uma Vida Dedicada à Música e à Educação

Chileno de nascimento e brasileiro de alma, Daniel Cornejo consolidou uma trajetória que é patrimônio da educação musical paulista. Com uma carreira que supera os 30 anos como clarinetista e 20 anos na regência orquestral, o músico é visto como um mestre do ensino coletivo

Com passagens pelo Projeto Guri e EMESP Tom Jobim, Cornejo introduziu o ensino coletivo na Universidade Livre de Música (ULM) em 2001 através do Projeto Primeiro Sopro. 

Desde 2010, ele esteve à frente da Direção Artística da Orquestra Filarmônica Infantojuvenil de São Paulo (OFIJ), onde estruturou um ambiente de excelência para jovens de 10 a 18 anos, transformando a prática orquestral em uma ferramenta de disciplina, sensibilidade e cidadania.

Sucessor legítimo da fundadora do projeto, a violoncelista Gretchen Müller, Cornejo dedicou anos de trabalho de excelência técnica e musical para consolidar a OSIJ (criada em 2002), transformando-a em um pilar imprescindível para a formação de jovens instrumentistas que hoje atuam no Brasil e no exterior. 

Em resposta à demissão do maestro, a comunidade estudantil se levantou contra o desmonte pedagógico, um abaixo-assinado na plataforma Change.org já mobilizou 2.049 assinaturas, unindo pais, alunos e figuras de proa da academia. 

“Sob a condução do Maestro Daniel Cornejo, esse projeto consolidou-se através de um repertório didático e de alto nível técnico, estruturado para desenvolver nos jovens a escuta mútua, a disciplina coletiva, o senso de responsabilidade e a sensibilidade artística por meio da prática orquestral”, afirma o Grêmio Estudantil Escola Municipal de Música de SP, responsável pelo abaixo-assinado

“Esse trabalho cuidadoso permitiu, ao longo dos anos, que dezenas de alunos tivessem suas primeiras oportunidades como jovens solistas, projetando nomes que hoje conquistam prêmios importantes no cenário musical brasileiro”, destaca a entidade. 

A Profa. Dra. Marisa Trench de Oliveira Fonterrada, ex-diretora da EMMSP e uma das maiores autoridades em educação musical do país, não poupou críticas à gestão da Fundação Theatro Municipal, classificando o ato como uma “enorme falta de respeito” e fruto de processos “dúbios e escusos” que priorizam o oportunismo político em detrimento do valor artístico.

“É muito difícil quando os critérios pedagógicos e artísticos de uma escola são substituídos por oportunismo, imposição política, ou por interesses alheios ao valor artístico-pedagógico”, destacou, em carta ao público.

O Jornal GGN mantém espaço aberto para manifestações da Fundação Theatro Municipal de São Paulo e de todas as pessoas citadas nesta reportagem. Eventuais esclarecimentos ou posicionamentos oficiais serão publicados e incorporados ao texto.

Tatiane Correia

Jornalista, MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo. Repórter do GGN desde 2019.

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