8 de julho de 2026

Dez motivos para proibir as bets, por Luis Felipe Miguel

Os números no Brasil não mentem: estamos presenciando um cataclismo social, sob o olhar cúmplice das autoridades dos três poderes.
Paul Cézanne - Os jogadores de cartas

Apostas online causam vício e destroem vidas no Brasil, com aumento de jogadores na Copa 2026.
Bets não geram empregos, facilitam lavagem de dinheiro e têm forte ligação com políticos corruptos.
Bloquear sites e transações é possível; proibição reduziria o problema de milhões para milhares.

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Dez motivos para proibir as bets

O “legado” da Copa 2026 para o Brasil é uma legião de novos viciados em apostas.

por Luis Felipe Miguel

Entre as medidas podem ser tomadas em favor do povo brasileiro, a proibição das apostas online é a mais óbvia e a mais simples de ser formulada e executada.

1) Não existe jogo responsável

O jogo vicia – da mesma maneira que uma droga qualquer, ele mexe na química do cérebro, gera compulsão. A estratégia das bets é ampliar o número de viciados. Por isso, tantos chamarizes para alcançar novos jogadores, com a perspectiva de que alguns deles ficarão enredados. Dão bônus para primeiras apostas, criam clubes de fidelidade (!). Depois colocam aquele aviso hipócrita, “jogue com responsabilidade”. Mas o vício não é um efeito colateral, é o objetivo das bets.

O viciado em jogo em geral não vaga pelas ruas como um zumbi, feito um viciado em crack. Mas o vício no jogo destrói vidas do mesmo jeito. A compulsão interfere na vida familiar e afetiva, nas amizades, no trabalho, na educação. Os gastos com apostas erodem o orçamento familiar, fazem com que despesas básicas sejam deixadas de lado. Os números no Brasil não mentem: estamos presenciando um cataclismo social, sob o olhar cúmplice das autoridades dos três poderes.

2) As bets são piores que outros jogos de azar

Existem duas teorias principais sobre loterias. Uma diz que é uma forma de imposto que o governo cobra sobre a estupidez das pessoas. Outra, que vende um serviço. Eu pago 6 reais e ganho o direito de passar uma semana sonhando que sou milionário.

O ponto é esse: o prêmio que eu posso ganhar na megasena não depende do quanto gastei apostando. Posso ganhar o prêmio principal acumulado com uma aposta simples. Se é para sonhar com ficar rico, bastam esses 6 reais.

Já as bets remuneram os eventuais ganhadores como uma proporção do valor gasto. Para ganhar muito dinheiro, é necessário também arriscar muito dinheiro.

É o mesmo sistema dos cassinos. Só que para ir a um cassino existe um custo, é necessário o deslocamento. Quando a pessoa passa muito tempo em volta do pano verde os outros logo percebem e ela mesma precisa reconhecer está com um problema. Já as bets estão na palma da mão, em todos os lugares, em todos os momentos. Bastam alguns cliques discretos e, até que o desastre aconteça, parece que tudo está bem.

3) As bets são uma armadilha para os desesperados

As bets viciam, levando ao comportamento compulsivo de apostadores que precisam daquela descarga de adrenalina, com frequência cada vez maior. Mas atraem também uma camada de desesperados, gente que precisa se iludir acreditando que existe uma maneira mágica de fazer dinheiro.

A mágica funciona – mas só para donos das bets e influenciadores picaretas, é claro. O apostador apenas piora a sua situação e é levado a mergulhar mais fundo no desespero. Endividados em desespero veem as apostas como única esperança e se endividam ainda mais apostando: um círculo vicioso infernal.

4) Não é paternalismo, é solidariedade

O argumento liberal padrão para defender as bets é que apostar ou não apostar é uma decisão livre. Proibir seria uma forma de paternalismo, nociva ao valor da autonomia dos indivíduos. É o argumento esgrimido contra qualquer intervenção pública contrária a formas de exploração das pessoas. Por isso, não se pode proibir propaganda de cigarro, impedir a venda de refrigerante nas cantinas de escola, nada disso.

Existem três falhas neste argumento, qualquer uma delas suficiente para invalidá-lo. A primeira é que parece que cada um desses comportamentos – jogar, fumar, se envenenar com refrigerantes – surge “naturalmente”, logo as restrições seriam uma maneira de impedir a efetivação de inclinações inatas. Assim, os estímulos produzidos pelo mercado, em particular pela publicidade, são naturalizados, e a proteção contra eles é estigmatizada como autoritária.

A segunda é a ideia de que as escolhas das pessoas podem ser entendidas de forma independente das circunstâncias que elas vivem. É o tipo do raciocínio que justifica, para liberais mais extremados, o comércio de órgãos. Afinal, se o rim é meu e eu quero vendê-lo, por que alguém haverá de me impedir? As circunstâncias que me fazem querer vender um rim não importam. Mas o desespero que leva pessoas arriscarem nas bets até o que não têm ou os mecanismos do vício que geram a compulsão por apostar fragilizam profundamente estas pessoas diante dos estímulos apresentados pelas empresas. Raciocinar como se isso não fosse um fator determinante é negar a realidade.

GreatWritersFranzKafka: "A tiger - in Africa?" - Monty Python's ...
Uma cena premonitória do clássico O sentido da vida, de Monty Python (1983).

A terceira falha tem um caráter mais geral. A noção de autonomia e de responsabilização individuais adotadas por versões extremadas do liberalismo afasta de nosso horizonte qualquer forma de solidariedade. Se o sujeito está viciado, se perdeu tudo que tinha, é problema dele: a sociedade não pode e não deve agir para socorrê-lo ou para prevenir este desfecho. É um mundo horrível, um mundo que os dominantes se esforçam para construir, mas contra o qual nossa humanidade resiste.

5) Bets não geram empregos e não impulsionam a economia

Quando se defendia a liberação dos cassinos no Brasil, o grande argumento era a geração de empregos. De fato, cassinos exigem um investimento inicial no espaço físico e depois, de forma permanente, precisam de crupiês, garçons, leões de chácara, faxineiros. E também, em paralelo, o pessoal da hotelaria, do entretenimento, sem contar o ramo oculto, mas expressivo, de profissionais de sexo e de drug dealers, tudo aquilo que a gente vê nos filmes sobre Las Vegas. Não acho que seja um bom argumento, mas é um argumento.

Nada disso ocorre com as bets. É uma atividade econômica predatória, que não produz nada, que não entrega nada a seus clientes e que praticamente não gera postos de trabalho. Ninguém ganha com elas, a não ser seus proprietários e seus garotos-propaganda, um punhado de influenciadores pilantras, sejam jogadores de futebol ou não, dispostos a lucrar com a desgraça alheia.

6) Apostas são um veículo para a lavagem de dinheiro

Fernandin OIG, que opera o jogo do tigrinho no Brasil, é talvez o rosto mais conhecido das bets por aqui. Seu nome aparece com frequência no noticiário, ao lado de vultos da República como o senador Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil no governo Bolsonaro, e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Mota. É amigão também de Kássio Nunes Marques, ministro do STF.

Ciro Nogueira, da CPI das Bets, vai a Mônaco em jato de empresário  investigado no jogo do tigrinho
Está mais que provado: um jatinho é a melhor forma de fazer amigos e influenciar pessoas.

Deve ser difícil para os jornais definir em que editoria enquadrar essas notícias. Na economia, porque são os interesses empresariais que estão em jogo, ou na política, porque os contatos servem para mexer em projetos em tramitação no Congresso, ou no colunismo social, porque em geral envolvem passeios em praias paradisíacas (pela natureza, mas também fiscalmente paradisíacas) e festas de arromba. Ou talvez, pela natureza dos negócios, o lugar certo seja o noticiário policial.

Dois anos atrás, isto é, quando o boom das bets ainda engatinhava no Brasil, as transações de Fernandin OIG suspeitas de lavagem de dinheiro já somavam mais de 100 milhões de reais.

Pela falta de transparência, dificuldade de controle e pretensa aleatoriedade dos resultados, apostas são um dos melhores meios de lavar dinheiro. Não é à toa que Las Vegas foi um projeto da Máfia. A proximidade das bets com o crime organizado e com a elite política corrupta não é um acaso.

7) As bets afetam a sociabilidade

As empresas de apostas online poluem a esfera pública, com sua publicidade onipresente. Como regra, aliás, quanto mais publicidade, pior é o produto. Uma velha boutade diz que manteiga não faz propaganda, porque todo mundo sabe que é bom, enquanto a margarina…

O impacto da internet e, em particular, das mídias sociais nos padrões de sociabilidade humana é, como todos constatamos, desastroso. A promessa da conexão online se traduziu na realidade de uma desconexão crescente entre as pessoas, reduzindo as trocas interpessoais a reações predeterminados pelas plataformas, estimulando a emulação permanente, a competição, o individualismo.

As apostas acrescentam uma nova camada neste cenário. A esperança de um ganho financeiro ilusório invade cada momento da vida. Os dados mostram que as bets capturaram mais de um terço dos brasileiros durante os jogos da Copa, triplicando o número de clientes. Ou seja, até a alegria de assistir ao futebol e torcer por uma equipe é capturada e desvirtuada.

8) As bets alienam

O sujeito desesperado que “investe” numa aposta como última alternativa para ganhar o dinheiro de que precisa não é burro: é desesperado.

A melhor chance de mudar sua vida é por meio da transformação da sociedade, mas o processo é lento e, sobretudo, desestimulado por todas as estruturas de dominação vigentes. O discurso meritocrático diz que ele pode chegar lá com esforço, engenhosidade e sacrifício, mas o mundo mostra todos os dias que não é assim. Então sobra a sorte.

Pior: as bets são capazes de unir acaso e “meritocracia”. A maior parte do dinheiro do público escoa por meio de jogos tipo caça-níquel, como o Tigrinho. As apostas esportivas. que nem por isso são insignificantes (e que muitas vezes servem de porta de entrada para o vício) mobilizam a ideia, obviamente falsa, de que o apostador seria recompensado por sua expertise.

O material publicitário do site Metrópoles é claro: aposte “de forma inteligente e estratégica”. Os infames incentivos aos apostadores na Cazé TV apontam na mesma direção.

Inteligente?

Mas, na verdade, agir de forma inteligente e estratégica não é encontrar uma “odd” pretensamente favorável, é lutar pelo fim do capitalismo.

Em campanhas dirigidas sobretudo ao público evangélico, as empresas usam o verbo “profetizar”, dando um caráter de eleição divina ao sucesso improvável na aposta. Afinal, a teologia da prosperidade neopentecostal opera uma curiosa tradução do discurso meritocrático, em que o metro é a fé, o fervor religioso. Deus dá mais a quem mais acredita – e demonstra acreditar dando tudo o que tem. Vale para o dízimo, vale para as bets.

9) A conta não fecha

Temer liberou, Bolsonaro incentivou, Lula regularizou. O grande argumento a favor da legalização das apostas no Brasil é arrecadação de impostos.

Segundo cálculos, o governo federal recebeu algo como 4,5 bilhões de reais de impostos das bets no primeiro quadrimestre de 2016. Com a Copa, esses valores certamente aumentam muito.

Mas será que vale a pena? Será que a destruição das famílias, a evasão escolar, o desvio do dinheiro que seria usado para o consumo e assim alimentaria as atividades produtivas, a deterioração da saúde mental, os suicídios, tudo isso é compensado por esses impostos arrecadados?

Mesmo no cálculo econômico mais rasteiro, a conta não fecha. Segundo estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde, a cada real arrecadado em tributos, as apostas online causam a perda de cinco ou seis reais em atendimento de saúde e perda de produtividade.

Cazuza dizia que “transformam o país inteiro num puteiro/pois assim se ganha mais dinheiro”. Estão transformando-o em um grande cassino. Era fácil vaticinar e agora é mais fácil ainda comprovar a partir da experiência: este é o caminho para o desastre.

10) Proibir as bets é possível

O último argumento que sempre aparece na discussão é que é “impossível” impedir as apostas online. É melhor legalizá-las e arrecadar os tais impostos do que deixá-las na clandestinidade.

Na verdade, não é assim. É possível bloquear o acesso aos sites de apostas – como se bloqueou, por exemplo, o Twitter. É possível bloquear as transações financeiras com as empresas. É possível responsabilizar as big techs e, com isso, eliminar a publicidade das bets.

Capacidade técnica existe. É necessária apenas à vontade política.

É claro que ainda seria possível buscar meios para apostar, burlando os controles, usando VPNs, coisas assim. Mas seria uma minoria bastante pequena que se daria a este trabalho. O investimento multimilionário das bets em publicidade mostra que é preciso incentivo e disponibilidade para que a maior parte dos apostadores seja fisgada.

Com a proibição, passaríamos de um problema que afeta dezenas de milhões de brasileiros para outro que se conta na casa das dezenas de milhares. Não é uma decisão difícil.

Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular). Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê).

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Luis Felipe Miguel

Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular).

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