do Outras Palavras
A surpreendente ascensão da esquerda nos EUA
por Daniel Kersffeld*
No mesmo momento em que a influência poderosa de Donald Trump impulsiona a ascensão da extrema-direita na América Latina, um fenômeno oposto se dá Estados Unidos. No interior do Partido Democrata, uma corrente que se coloca de forma clara à esquerda está vencendo um número inédito de eleições primárias, em cidades importantes. Seu triunfo enfraquece as correntes vistas como favoráveis às corporações ou à política imperial norte-americana. O fenômeno é considerado pelo próprio New York Times como um das principais tendências políticas atuais no país.
Durante décadas, dentro do Partido Democrata, várias tendências e grupos coexistiram, em meio a crescentes tensões. Vão de uma ala mais conservadora, ideologicamente próxima do Partido Republicano, a outra ala mais radicalizada, integrada por correntes que, embora integrem o partido, também se organizam de forma autônoma. A mais destacada são os Socialistas Democráticos (DSA, ou Democratic Socialistas of America).
No centro entre as duas correntes há uma facção centrista, composta, entre outros, pelas famílias Clinton (Bill e Hillary) e Obama (Barack e Michelle), juntamente com governadores e figuras parlamentares politicamente influentes, ocupa o centro do poder partidário e busca o equilíbrio entre as duas correntes. Sob Trump, tenta manter a estabilidade de uma organização de que busca atender às expectativas de seus eleitores e, ao mesmo tempo, sustentar o diálogo e uma perigosa proximidade com o governo republicano.
Embora tenha surgido em 1982, o movimento Socialista Democrático ganhou crescente visibilidade especialmente após as eleições de 2016, quando o histórico Bernie Sanders, senador independente de Vermont, buscou a indicação presidencial democrata. Embora tenha sido derrotado nas primárias por Hillary Clinton, seu desafio à elite do partido e seu confronto com as propostas retrógradas de Donald Trump deram um impulso decisivo ao movimento político de esquerda, Isso permitiu que Ilhan Omar, de origem somali, se tornasse a primeira mulher muçulmana a entrar para o Legislativo dos EUA.
Dois anos depois, o Congresso seria abalado por um pequeno grupo de líderes, entre os quais se destacaram Rashida Tlaid, nascida em Detroit em uma família de imigrantes palestinos, e especialmente Alexandra Ocasio-Cortez, uma nova-iorquina de ascendência porto-riquenha. Aos 30 anos, tornou-se a mulher mais jovem já eleita para a Câmara dos Representantes. Juntamente com Ayana Presley, essas legisladoras formaram The Squad [“O Esquadrão”], um sub bloco de esquerda relativamente autônomo dentro do partido. Em eleições subsequentes, ele cresceria para nove membros, constantemente em conflito tanto com os republicanos quanto com líderes de seu próprio partido.
Iniciado em janeiro de 2025, o segundo mandato de Trump parecia enterrar qualquer chance de expressão política de esquerda. No entanto, a vitória eleitoral de Zohran Mamdani como prefeito de Nova York, em novembro tornou-se um marco político para a esquerda. Com uma plataforma baseada no controle de aluguéis, saúde universal, tarifas de transporte público mais baixas e proteção para trabalhadores migrantes contra assédio policial e deportações, Mamdani derrotou com folga seu rival, o ex-prefeito Andrew Cuomo. Este, que despontou como candidato do establishment, foi apoiado não apenas pela liderança democrata, mas também pelo próprio Trump.
A ascensão da esquerda, sem precedentes na história norte-americana, expressa-se agora no triunfo dos socialistas nas primárias democratas que estão sendo realizadas em vários distritos, para preparar as listas eleitorais que irão competir contra os republicanos, em disputas por diversos cargos legislativos, em novembro próximo.
Estas vitórias estão se tornando cada vez mais numerosos. Uma das mais retumbantes foi a de Darializa Ávila Chevalier. Estudantes de doutorado, candidatou-se ao posto de deputada pelo 13º distrito de Nova York. Em 23 de junho, derrotou Adriano Espaillat, um congressista veterano que gastou milhões de dólares a mais do que ela.
O ascenso não se dá apenas nas pré-disputas institucionais. Considerado um fenômeno urbano, com base em Nova York e forte presença em cidades como Los Angeles e Washington, o movimento de esquerda experimentou um rápido crescimento nacional: de menos de 6 mil membros em 2015, saltou para 100 mil adeptos em todo o país em fevereiro de 2026. Mais de 250 de seus ativistas ocupam cargos públicos eletivos em 40 estados. Embora tenha se originado na costa Leste, agora está plenamente desenvolvido em estados como Califórnia, Texas e Missouri.
O eleitorado de esquerda, oriundo das classes trabalhadora e média, representa não apenas o colapso do “sonho americano”, mas também uma geração que, na última década, sofreu as medidas de “austeridade” regressivas das políticas de Trump sem colher benefícios relevantes durante a presidência democrata de Joe Biden. Duramente atingidos pelos efeitos da pandemia, seus membros expressam solidariedade internacional com os palestinos e o Sul Global, aspiram a melhores empregos, salários mais altos e, claro, uma melhor qualidade de vida.
Após a conquista de Nova York, um dos principais objetivos da DSA é vencer na capital do país. Janeese Lewis George foi indicada para ser a próxima prefeita de Washington. Assim como Mamdani em Nova York, ela baseará sua campanha em iniciativas básicas que expressem distribuição de renda e beneficiem diretamente os eleitores. Sua vitória é considerada praticamente certa, já que não se espera que o Partido Republicano apresente um candidato capaz de vitória.
Sob a rígida disciplina dos democratas, os líderes da DSA não buscam, pelo menos por enquanto, formar um novo partido político, mas lutar contra uma liderança fossilizada que parece não estar à altura dos desafios atuais. A crescente influência já é evidente na disputa que começa a surgir pelas primárias presidenciais do próximo ano. Com exceção de Ocasio-Cortez, a figura de proa do espaço crítico, nenhum dos pré-candidatos democratas sente-se à vontade com a ascensão dos socialistas. É que, longe de romperem com a esquerda, eles provavelmente buscarão negociar e sugerir nomes e iniciativas específicas para a eleição presidencial de 2028.
Quem atualmente se deleita com os conflitos internos da oposição e, indiretamente pensa poder se se aproveitar do crescimento da esquerda é precisamente Donald Trump. Enfraquecido, o presidente já não se apresenta como o candidato do anti-establishment. Parace disposto a polarizar as eleições de novembro, propondo uma disputa entre o “partido da ordem” e aqueles outros que, segundo ele, só promovem a destruição dos valores fundamentais que constituíram os Estados Unidos.
Com as comemorações do 4 de julho e do 250º aniversário da independência transformadas em um ritual de autogratulação por um governo que carece de respostas eficazes para a situação econômica e enfrenta críticas crescentes ao seu desempenho internacional, as acusações contra a esquerda assumem um tom especial e prenunciam a próxima campanha eleitoral.
O governo acusa a esquerda de ser “comunista”; de promover o caos e a anarquia, em grande parte devido às suas origens estrangeiras; de incentivar o aborto e a igualdade de gênero; e, numa revivificação do “Medo Vermelho” de um século atrás, de incitar a queima de igrejas. Além disso, como afirmou Trump, os socialistas querem “retomar a mutilação genital feminina”, enquanto, como declarou Mike Johnson, presidente da Câmara dos Representantes, eles “realizaram um casamento satânico”, “querem abolir a fronteira e a polícia” e “buscam descriminalizar a prostituição transgênero”.
Embora o tenha feito com fins eleitorais, e não sem alarde ou exagero, em 29 de junho, Trump expressou seu maior temor, que também é o da elite americana, ao afirmar que a ascensão da esquerda socialista constitui “a maior ameaça à nossa nação, talvez desde a nossa fundação. Isso inclui a Primeira Guerra Mundial, a Segunda Guerra Mundial, o 11 de setembro e o ataque a Pearl Harbor”.
Como afirmam os líderes da DSA, os Estados Unidos enfrentam hoje um projeto nacional em crise. Resta saber até que ponto a esquerda poderá contribuir para a mudança desejada, agora sobre novas bases, com novos atores e, sobretudo, a partir de novos horizontes políticos.
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