HISTÓRIA E POESIA
Entre o fio e o labirinto
por Célio Turino
História, memória e a responsabilidade de narrar o tempo
Antes das datas, quando a história ainda não era história, apenas vida, alguém realizou um gesto e estampou na pedra. O tempo ainda não havia aprendido a chamar-se tempo e uma mão pousou sobre a rocha, e outra mão, invisível para nós, soprou o pó das cores. Noutro lugar a pedra recusou deixar morrer um beijo e duas bocas descobriram que a eternidade podia ocultar-se na breve inclinação de um rosto. Uma nova mão insistiu no mesmo milagre, como se as pessoas de tempos e lugares diferentes, ignorando-se umas às outras, obedecessem ao mesmo sonho que atravessa as eras. As pedras recordam o que a humanidade esquece e desde então a ausência possui a forma de uma palma aberta. As mãos, cujos contornos se perpetuaram há 70.000 anos, estão incrustradas na ilha de Sulawesi, atual Indonésia, alguém encostou a mão no paredão de pedra e inventou o avesso do esquecimento. Na Serra da Capivara, interior do Piauí, um beijo ficou preso na aspereza da rocha, que permanece como ficam os musgos, os ninhos e as águas que aprendem devagar o ofício de passar; depois vieram uma anta, um veado, uma dança, um parto. Tudo isso foi estudado por décadas pela arqueóloga Niède Guidon, uma vida dedicada a descobrir as origens e mudar o entorno no presente. E como mudou! Dessas inscrições nasceram oficinas de cerâmica, jovens aprenderam a ser guia e preservar a vida. A experiência é mais antiga que a palavra, primeiro o corpo aprende para só depois a boca inventar um jeito de contar. Dos estudos de Niède nasceu a teoria de que os caminhos humanos são muitos (já se sabia, mas cá, na América, não se assumia, porque tudo tem que vir do Norte, jamais do Sul). Alguns vieram do gelo, atravessando o estreito de Bering feito ponte entre continentes, outros, da África, quando uma grande seca, há mais de cem mil anos, tomou conta do mundo e encolheu o Atlântico, vieram navegando ilhas, hoje encobertas. Na Patagônia, no sul do mundo, os habitantes primeiros grafaram suas mãos de outra maneira, cheias de tinta, carimbaram a cova (Cueva de las manos – Argentina, datadas de 9.000 anos).
São registros, mensagens. Em algum lugar uma criança escutou a primeira narrativa ao redor do fogo. Naquele lugar, não se sabe qual, velhos transmitiram um nome para uma planta, revelaram segredos sobre caminhos, um canto, deram um conselho, fizeram pessoas rirem e tocarem música soprando ossos furados. Nada disso nasceu como História. Uma mulher gravou o parto e alguém dançou diante do fogo, uma menina ouviu e guardou uma história que nunca conheceremos completamente. Mas essa história contém todas as histórias do mundo. Se a experiência vem antes da narrativa, é a partir da narrativa, do fio passado como mensagem, que novas experiências acontecem. Esses sinais são como um fio tênue que perpetuam as mensagens antes que desapareçam.
Não é assim nas cidades modernas, que mudam de lugar sem moverem uma pedra? De repente encontramo-nos perdidos até mesmo no lugar em que nascemos. Sucede algo parecido com os rios, que permanecem os mesmos apenas porque aceitamos chamá-los pelo nome de origem, embora nenhuma de suas águas seja a de ontem. Nem seus cursos e margens são os de sempre, eles são resultado de caminhos abertos pela força das águas, que depois se diluem. Os rios se dissolvem da mesma forma que a vida dissolve continuamente o presente até lança-lo para um território onde já não pode ser tocado. Chamamos esse território de passado. Ou melhor, chamamos de passado aquilo que já não podemos experimentar diretamente.
Do passado nasce a primeira ilusão, imaginamo-lo como um grande depósito de acontecimentos intactos, esperando pacientemente que o historiador os visite como quem percorre corredores silenciosos de um arquivo infinito e componha narrativas ordenadas. Narrativa é a sombra de um instante vivido que partem de memórias em um labirinto que o tempo percorre à procura de si mesmo. Nalgum lugar um velho ensinou as propriedades curativas de uma planta, noutro indicou um caminho invisível, numa caverna um osso perfurado aprendeu a ser música antes que existisse a palavra música. Nada disso era História. Um caçador desenhou o animal antes que o animal desaparecesse na memória. Mas se os homens saiam para caçar, então foi a mulher que ficou a desenhar, e não o caçador? Nova indagação.
E as lembranças foram abandonando suas formas como folhas que já não reconhecem a árvore. Por isso os antigos confiaram às pedras aquilo que não podiam confiar ao nome. Sabiam, sem precisar dizê-lo, que desapareceriam, mas o gesto gravado continuaria sonhando na superfície silenciosa de uma rocha. Diferente da rocha, a história é um tecido vivo de experiências compartilhadas que vai puxando um fio infinito até compreender a ancestralidade, que não está atrás de nós e sim irrompe o presente em espiral. Nessa forma espiralada substitui tanto a linha reta quanto o círculo, e retorna ao início sempre transformada. Como um bom poema, não se fecha em uma conclusão, mas regressa ao “primeiro gesto” quando esse gesto já é outro, pois foi enriquecido por todos os fios que encontrou no percurso. Ancestralidade que liberta é aquela que “volta e vai”. O que escrevi até aqui poderia ser expresso em verso:
A história
tem a estranha vocação
de devolver
o que parecia perdido.
Uma mão reaparece na pedra,
uma canção reaparece no vento
e uma criança faz hoje
a mesma pergunta
que outra fez
há milhares de anos
diante do fogo.
Não é repetição,
é permanência,
ancestralidade.
É o futuro lembrando
aquilo que ainda não esqueceu.
Por isso voltamos às pedras….
Essas reflexões estarão presentes e serão aprofundadas no curso que estarei ministrando no Centro de Pesquisa e Formação do SESC-SP, a partir do dia 16 de julho, em 4 aulas, num total de 16 horas/aula. Convido a quem possa ou queira participar, serão 4 dias para falarmos sobre História e Poesia, e de como esse reencontro se faz tão necessário nos tempos em que vivemos. Abaixo, o link para inscrição.
https://www.sescsp.org.br/programacao/entre-o-fio-e-o-labirinto-historia-poesia-verdade-e-imaginacao
Célio Turino – historiador, escritor, filósofo e poeta. Após 40 anos no serviço público, quando idealizou e implantou diversos programas, como Recreio nas Férias, Xadrez e Damas em Tampinhas, Cultura Viva e Pontos de Cultura, entre outros, agora se dedica a escrever e partilhar o que aprendeu com o povo. Seus livros mais recentes são: SEMENTEIRA (editora Autonomia Literária) e FIOS DA HISTÓRIA – poemas (editora Cloé)
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