14 de julho de 2026

A Esfera, o Cubo, a Favela, Gaza e a nova ordem arquitetônica mundial, por Fábio Ribeiro

A nova ordem arquitetônica mundial continuará sendo excludente ou todos serão favelizados em todos os lugares por uma guerra planetária?

A Esfera em Las Vegas é uma atração tecnológica imersiva, focada em entretenimento e lucro, sem função habitacional.
O Cubo na Arábia Saudita será um hotel de luxo com tecnologia, parte central de um bairro exclusivo para ricos.
Favelas brasileiras refletem exclusão social, com violência e insegurança, contrastando com projetos arquitetônicos elitistas.

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A Esfera, o Cubo, a Favela, Gaza e a nova ordem arquitetônica mundial

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por Fábio de Oliveira Ribeiro

Hoje vou mudar um pouco de assunto. Ao contrário de falar de tecnologia e de política, falarei da aplicação de ambas no universo da arquitetura. Mas primeiro é preciso definir os parâmetros fundamentais.

A Esfera https://www.youtube.com/watch?v=Um2Y01tdj7s

O Cubo https://www.youtube.com/watch?v=Z5eIa0zQH1E

A Favela https://www.instagram.com/reels/DGmVitYM8n3/

A Esfera é uma realização arquitetônica altamente tecnológica construída em Las Vegas, EUA. Ela foi concebida para ser uma atração imersiva e tem atraído atenção e turistas, mas a relação custo/benefício da obra é objeto de preocupação. Outras Esferas semelhantes estão sendo planejadas e algumas certamente serão construídas.

O Cubo é um projeto diferente que será implementado na Arábia Saudita. Ele combina atração turística, entretenimento e hotelaria. O modelo de negócio do Cubo é mais tradicional, mas tudo indica que tecnologia de ponta será incorporada à construção e ela foi planejada como o coração de um novo bairro para pessoas com grande capacidade econômica.

A Favela é um produto urbanístico e arquitetônico da exclusão social brasileira. Ela é constituída por diversas camadas de barracos de alvenaria e prédios erguidos, aumentados e reconstruídos ao longo de mais de um século sempre de acordo com a precária capacidade econômica dos habitantes de bairros pobres. No Rio de Janeiro as favelas estão “penduradas nos morros”. Elas pertencem e não pertencem à cidade porque as relações políticas e econômicas entre a urbe e a favela são e sempre serão problemáticas.

Esses são três fenômenos arquitetônicos bem distintos.

A Esfera de Las Vegas encarna a principal características de uma sociedade do espetáculo, em que uma obra arquitetônica pode atrair expectadores e diverti-los para dar lucro sem precisar ter qualquer função habitacional. O ambiente foi projetado para abrigar consumidores temporariamente. Nesse sentido a Esfera pode ser considerada um circo permanente. Aqueles que não puderem pagar o ingresso ficarão do lado de fora. Todavia, ao contrário do circo tradicional expectador não pagante pode consumir as imagens projetadas na tela externa da Esfera.

No Cubo da Arábia Saudita o entretenimento é apenas parte do negócio. A função predominante do hotel levantado no centro do novo bairro será tradicional. Todo o complexo foi concebido para abrigar moradores permanentes de alto padrão financeiro. Os turistas e homens de negócios que eventualmente se hospedarão no Cubo não serão apenas entretidos. Eles serão hospedados com luxo num ambiente que incorpora tecnologia de ponta e proporciona múltiplas alternativas de distração. Mas somente quem puder frequentar o bairro e o Cubo terá acesso àquilo que ele proporcionará.

O entretenimento na Favela não é planejado. Ele é caótico e quase sempre provoca incomodo e atrito entre os moradores e atrai a repressão violenta e racista da Polícia Militar. Os tiroteios são reais. As guerras entre facções criminosas e os espetáculos das operações policiais que produzem dezenas de mortes acrescentam traumas às vidas já traumatizadas dos habitantes da Favela. E mesmo assim, os habitantes de uma Favela tem um grande senso de comunidade e um certo orgulho de cuidar dos problemas locais. Isso porque eles sabem que não podem esperar muito das instituições públicas tradicionais.

Na Esfera a segurança é privada e intensa. Os consumidores são vigiados, quer porque os atritos entre eles podem repercutir de maneira negativa no negócio, quer porque os donos dele devem proteger os equipamentos tecnológicos caríssimos incorporados à construção. Dentro do Cubo a vigilância será provavelmente privada, mas no bairro que será levantado no entorno dele a polícia provavelmente ficará encarregada da segurança. Na Favela a insegurança é a regra e a Polícia Militar é encarada com muita suspeita em virtude do histórico de violência letal que os policiais utilizam sempre que realizam “expedições punitivas” numa comunidade pobre.

A Favela, o Cubo e a Esfera são as três dimensões de um mundo diverso. Eles estão separados econômica, geográfica e culturalmente. Mas a guerra tem um grande potencial para favelizar tanto os EUA quanto a Arábia Saudita. Se chegar ao Brasil, a guerra não afetará apenas os centros industriais e os bairros nobres. Ela pode também destruir a Favela como de fato destruiu Gaza, cidade que tinha uma grande concentração de prédios e de pessoas num espaço geográfico restrito e rebaixado por Israel à condição de gueto dos palestinos.

Gaza não era uma Favela, nem foi favelizada. Ela foi quase totalmente devastada para que o território seja incorporado à propriedade dos especuladores imobiliários de Israel, EUA e Europa. O projeto anunciado por Donald Trump para a Nova Gaza combina elementos arquitetônicos do Esfera de Las Vegas e do Cubo da Arábia Saudita. Mas a reconstrução não beneficiará a população local. Os palestinos serão provavelmente exterminados, dispersos ou confinados em Bantustões, Reservas ou Favelas no deserto de Israel (ou da Síria e do Egito).

A nova ordem arquitetônica mundial continuará sendo excludente ou todos serão favelizados em todos os lugares por uma guerra planetária? A resposta para essa questão é incerta. Mas no caso do Brasil é provável que os excluídos continuarão dentro da Favela, porque ela seguirá fazendo parte da nossa triste realidade urbana. Se for reeleito, o que poderá Lula fazer senão ministrar remédios habitacionais homeopáticos a um doente crônico com 526 anos de história de violência estrutural contra populações subalternizadas, exploradas e confinadas em bairros miseráveis de maneira brutal? A Favela faz parte do Brasil, ela não surgiu por acaso e já foi incorporada como um elemento essencial estrutural da paisagem política e da incivilidade urbana brasileira.

Mas é preciso desconfiar de Flávio Bolsonaro. Afinal, ele apoia Donald Trump e o presidente dos EUA designou o PCC e o CV como organizações terroristas. Isso significa que uma Favela carioca ou paulista poderá ser arrasada com bombas. Não porque isso resolverá o problema do terrorismo e do crime organizado internacional e sim porque a especulação imobiliária norte-americana e brasileira precisam liberar novos espaços geográficos urbanos para construir Esferas e/ou Cubos altamente tecnológicos e eventualmente rentáveis. No Brasil, empreendimentos semelhantes somente poderiam ser realizados dispersando de forma violenta os miseráveis para que eles construam favelas em lugares mais afastados?

Gaza foi apenas o começo. A exportação para o Brasil do modelo de reestruturação urbana militarizada pode ser o verdadeiro objetivo dos novos tiranos do setor da construção civil, do entretenimento e da indústria hoteleira mundial. Flávio Bolsonaro já se colocou a serviço de Donald Trump e pode ajudar o norte-americano a metralhar a Favela (um sonho que já foi eloquentemente enunciado por Jair Bolsonaro). Melhor não eleger esse cabra.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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