O Brasil reúne hoje o melhor conjunto de condições para dar um salto de desenvolvimento desde que a financeirização iniciada no Plano Real — e preservada por sucessivos governos — promoveu a desindustrialização e amarrou as possibilidades do país.
De um lado, há as oportunidades abertas pelo quadro econômico mundial e pela própria natureza: terras raras, energia verde, bioeconomia da Amazônia e fortalecimento das pequenas e microempresas. De outro, há uma sociedade que começa a reencontrar a autoestima e a perceber, dentro e fora do país, o valor do modo de ser brasileiro.
O problema é que o mesmo mecanismo que levou ao fracasso da Seleção Brasileira no Mundial atua sobre o país: a subordinação do talento, da produção e do projeto nacional a estruturas de poder capturadas por interesses particulares — no futebol, por agentes e cartolas; na política, pelo aparelhamento do Congresso; na economia, pela lógica rentista.
É uma espiral que volta sempre ao mesmo lugar: o imobilismo. Na ausência de um pacto entre as forças democráticas e produtivas, consolida-se um presidencialismo vulnerável, obrigado a comprar governabilidade a cada votação. As concessões sucessivas ao mercado e aos partidos interrompem qualquer tentativa de política desenvolvimentista — justamente aquelas que exigem planejamento, continuidade e tempo de maturação.
Para agravar o quadro, há uma imprensa cada vez mais descompromissada com conceitos essenciais como democracia, desenvolvimento e soberania nacional. Em vez de ajudar a formular uma agenda pública, atua como força de bloqueio, presa a interesses financeiros e a uma visão curta do país.
A única maneira de romper esse círculo de ferro do subdesenvolvimento é uma ação articulada do Executivo com as forças produtivas, científicas, tecnológicas e sociais. Sem um pacto nacional capaz de proteger o planejamento de longo prazo das chantagens de curto prazo, o país continuará devolvendo a bola ao goleiro justamente quando tem campo aberto para avançar.
A bandeira capaz de organizar esse novo ciclo é a soberania. O enorme trabalho pedagógico desempenhado por Donald Trump explicitou o esgotamento do globalismo e a fragilidade das instituições multilaterais. O confisco de reservas da Rússia e da Venezuela, o sequestro do presidente venezuelano e o confisco das receitas do petróleo escancaram os riscos de um país sem estratégia própria.
Essas ameaças surgem no mesmo momento em que se abrem possibilidades de pactos econômicos com outras partes do mundo — Europa, BRICS e o Sul Global — e em que a transição energética recoloca o Brasil no centro da disputa internacional. O país dispõe de recursos naturais, escala, capacidade científica e tradição diplomática. Falta transformar potencial em projeto.
Esse conjunto de possibilidades precisa de um maestro condutor e de uma partitura.
A partitura é um novo Plano de Metas: a montagem de grupos de trabalho capazes de identificar os principais atores, mapear as interseções entre eles e acionar os instrumentos de indução do Estado — incentivos fiscais, financiamentos do BNDES, compras públicas, regulação, encomendas tecnológicas e aportes de fundos de pensão.
A partir dessas indicações, vem o trabalho político de organizar alianças. Conhecendo os roteiros de cada plano, será possível atrair os atores econômicos contemplados — multinacionais, empresas nacionais, consórcios, agentes públicos, universidades e centros de pesquisa — em torno de objetivos claros, mensuráveis e de longo prazo.
Esse desafio caberá a Lula em um eventual quarto governo. Será a última oportunidade para salvar a geração das Diretas e da Constituinte da marca do fracasso: a de ter derrotado a ditadura, reconstruído a democracia, mas não ter sido capaz de entregar ao país um projeto nacional de desenvolvimento.
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