Notícias da Inglaterra
por Daniel Afonso da Silva
Sob o peso do declínio econômico e da instabilidade política, o isolamento britânico transforma o entusiasmo do Brexit em um doloroso arrependimento histórico
1.
Os ponteiros dos relógios de Londres e das capitais europeias jamais coincidiram na mesma hora. Confrontação e impaciência submergem o continente por séculos. O momentum westfaliano de 1648 consolidou a raison d’état, inaugurou uma nova ordem diplomática, lançou as bases do balance of power e fixou as rivalidades potenciais e permanentes entre os europeus. Doravante, França e Reino Unido passaram a, definitivamente, competir pela hegemonia na região.
A revolução industrial deu primazia ao Reino Unido. O terror napoleônico renovou as motivações e, por alguns instantes, alçou a França ao protagonismo. O Congresso de Viena ressignificou novamente a distribuição, devolveu parte substantiva das rédeas ao Reino Unido e a pax britannica, de braço com alianças com a Rússia e a Áustria, deu certa harmonia ao continente até 1914.
1914-1918 e 1939-1945, as guerras totais, forjaram imperativos para a criação de solidariedades consistentes para neutralizar-se um eventual terceiro conflito mundial – que, agora, com dispositivos nucleares em várias partes, poderia resultar no derradeiro conflito.
A construção europeia foi o antídoto encontrado ante esse Armagedon. Um antídoto amargo. Que começou a ser gestado ainda no chão de ruínas das batalhas, para impor-se logo um never more sem concessão aos europeus.
A fusão de cadeias produtivas de carvão e aço, que resultou na CECA, foi o primeiro passo desse processo. O Tratado de Paris de 1951, logo em seguida, lançou a criação da Comunidade Europeia unindo em aliança França, Alemanha, Itália, Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo. O Tratado de Roma de 1957 alimentou a fundação da Comunidade Econômica Europeia e do Mercado Comum Europeu. Nesses movimentos, a concretude da construção europeia dava passos largos e ingressava em caminho sem volta.
Considerando-se distinto dos demais, o Reino Unido manteve-se, voluntariamente, alijado do processo. A partir de 1955, os europeus continentais começaram a vivenciar os dividendos de sua união com prosperidade econômica ao passo que os súditos de Sua Majestade viam a sua economia em declínio, o que levou os ingleses a cogitar solicitar ingressar no bloco dos europeus.
O seu primeiro gesto aconteceu em 1961 com um pedido de adesão. O general Charles de Gaulle, presidente da França e expoente do bloco, denegou-o por considerar o Reino Unido insular, diverso em pretensões e incompatível com o cotidiano do continente.
Resilientes à rejeição, os ingleses voltaram a solicitar adesão em 1967. Mas, uma vez mais, e com mais arrojo, o general voltou a negar.
Precisou o general deixar do poder, em 1969, para a negociação avançar com o presidente Georges Pompidou, que permitiu a formalização e adesão do Reino Unido ao grupo em janeiro de 1973.
2.
Entrementes, divergências jamais cessaram de existir. Os herdeiros de Winston Churchill sempre acreditavam serem vencedores da Segunda Guerra Mundial diferentemente dos demais, gerando, assim, um mal na origem. Quase um pecado original que contaminou a percepção geral sobre a integração como antecipara o general francês.
O fim da Guerra Fria evidenciou diferenças ainda profundas entre todos. Os Tratados de Maastricht, a concreção da União Europeia e a criação da zona do euro agudizaram sobremodo o que já era demasiado divergente. A crise financeira de 2008 foi a gota d’água para os ingleses descontentes. A partir de então eles iniciaram manobras consistentes para a sua retração definitiva do bloco.
Submerso em pressões, o ex-primeiro-ministro David Cameron lançou a possibilidade de realização de um referendum para clarificação do dissídio. Ele próprio era favorável à permanência de seu país na arquitetura política de Bruxelas e Estrasburgo. De toda sorte, o referendum ocorreu em 23 de junho de 2016, deu vitória à saída e início ao Brexit. Uma saída confusa, dolorosa e incerta. Que deixaria cicatrizes profundas na alma europeia em geral e dos ingleses em particular.
Sobretudo porque, tão logo notificadas do resultado do referendum, as instituições europeias iniciaram o divórcio, avaliaram a complexidade do processo e deram prazo de dois anos para o destrato de mais de 600 acordos de todas as ordens.
Pelo ineditismo e pela gravidade daquilo, tudo acabou sendo retardado em dois anos, sendo consumada a separação apenas em 2020. Ou, sendo-se mais preciso, o processo de saída foi estendido por sucessivos adiamentos na análise do artigo 50 do Tratado da União Europeia, que levou o Reino Unido a sair formalmente do grupo dos europeus no 31 de janeiro de 2020 e consolidar a transição apenas no 31 de dezembro de 2020.
Mas, nesse entremeio, os ingleses começaram a dimensionar a gravidade de sua decisão. Conseguintemente caíram em reflexão e iniciaram a revisão profunda de suas posições.
Ponderaram que os 51,89% do referendum revelaram-se exangues. Perceberam que a complexidade do que estava em jogo – ao fim das contas, o interesse nacional inglês – era imensa. Notaram que a quantidade de manipulação orquestrada pela Cambridge Analytica fora considerável assim como as ilusões sem amparo na realidade propaladas pelos entusiastas eufóricos pelo dissídio.
Tudo isso resultou na reversão de expectativas e nas suas consequências bem palpáveis no cotidiano de todos.
3.
No campo político, nenhum primeiro-ministro conseguiu cumprir seu mandato. David Cameron demitiu-se em 13 de julho de 2016. Theresa May ocupou o número 10 Downing Street de 13 de julho de 2016 a 24 de julho de 2019. Boris Johnson, de 24 de julho de 2019 a 6 de setembro de 2022. Liz Truss, de 6 de setembro de 2022 a 25 de outubro de 2022. Rishi Sunak, de 25 de outubro de 2022 a 5 de julho de 2024. Keir Starmer, de 5 de julho de 2024 a 20 de julho de 2026. Afirmando-se, contudo, uma instabilidade política jamais vista no Governo de Sua Majestade.
No campo econômico, a City de Londres conseguiu manter o seu vigor, mas o PIB do país retraiu em pelo menos 8%. O nível de vida da população continuou em declínio. E o fantasma da imigração ilegal passou a desesperar mais que nunca à gente além-Mancha.
No plano geopolítico, os equilíbrios mundiais foram renovados, revigorados e multiplicados. A presidência de Donald J. Trump desalinhou aspectos fundamentais das relações transatlânticas e feriu solidariedades multisseculares entre Washington e as capitais europeias. O malaise euroasiático transferiu externalidades negativas inimagináveis para todo o planeta, com maior centralidade na Europa. Os desarranjos médio-orientais também irradiaram – e irradiam – dificuldades muito complexas a todas as partes.
A onipresença chinesa no mundo inteiro aumentou o espanto, o receio e o medo generalizado dos outrora ocidentais donos do mundo e agora, simplesmente, perdedores da globalização. Os desafios da Economia 4.0, das questões climáticas e da crise dos regimes liberais levaram – e levam – os ingleses a paralelismos insuperáveis. Especialmente, agora, privados dos dispositivos de segurança e solidariedade europeus para reagir a ameaças de todas as sortes cada vez mais frequentes. Fazendo, no conjunto, do Bregret – sentimento de rejeição e arrependimento ao Brexit – uma normalidade ubíqua sob os olhos do monarca Charles III.
Pesquisa recente do European Council on Foreign Relations revelou que 57% dos ingleses consideram o Brexit um equívoco e outros 52% desejam o retorno do Reino Unido ao arranjo europeu. Logo agora, dez anos depois. Tudo para confirmar que “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, mas persiste a essência daquela máxima do cardeal Richelieu, dos tempos da Paz de Vestefália, que aduzia que “O homem é imortal e sua salvação está no além, mas o Estado não tem imortalidade e sua salvação é agora ou nunca”. Restando aos ingleses meditar.
Daniel Afonso da Silva é professor de história na Universidade Federal da Grande Dourados. Autor de Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas (APGIQ). [https://link.amazon/B08IlSHI9]
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