24 de julho de 2026

Para um encontro de amigos, por Urariano Mota

Os amigos de Hugo Cortez estaremos juntos para lembrar a sua querida presença entre nós.
Arquivo Pessoal

Amigos de Hugo Cortez se reunirão em 25 de julho para celebrar sua memória e presença entre eles.
Hugo Cortez, filiado ao PCdoB desde 1985, era conhecido pela generosidade e pelo convívio cultural em Recife.
O encontro será discreto para evitar interferências, destacando a importância da memória e da fraternidade.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Para um encontro de amigos*

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Urariano Mota

No sábado 25 de julho, os amigos de Hugo Cortez estaremos juntos para lembrar a sua querida presença entre nós. Como espero que estas linhas sejam lidas até depois desse sábado, corrijo: sempre estivemos com Hugo e continuamos juntos, agora na memória. A oportuna sugestão desse encontro veio de Luciano Siqueira, que foi vice-prefeito do Recife em dois mandatos. É uma pena deixar de informar aqui o local e a hora, porque os inimigos da democracia podem querer estragar a nossa fraternidade.

Os manuais de jornalismo mandam que a notícia informe os 5 Ws:

Who (quem), What (o quê), Where (onde, When (quando) e Why (por que).

Mas estas linhas não conseguem ser bem uma notícia. Tento explicar por quê. Perdoem por favor a autocitação, mas sinto que ela é necessária. Em 22 de março de 2024, esbocei esta homenagem:

“Se há um traço que define a pessoa de Hugo Cortez é a generosidade. É inesquecível para mim que num fim de ano, ele já doente e a falar com dificuldade, me deu de presente o volume da Poesia completa e Prosa de Joaquim Cardozo. Ele sabia que o bem seria precioso para mim, e que eu não estava tão bem de dinheiro para me dar tal preciosidade. Estou com o volume diante de mim, do qual não li tudo, e fastioso escolhi raros e belos poemas.

Hugo Cortez é filiado ao Partido Comunista do Brasil desde 1985. Mas eu o conheci na época de Ação Popular. Ele morava no Pina, em um prédio antigo e de paredes espessas, sem elevador. Eu morava perto, mas em Brasília Teimosa, que muitos diziam ser favela, mas que para mim era um lugar para estar ao lado do povo, naquele ideal de Ação Popular. Ali eu estava no entanto deslocado, porque era leitor de Proust, Joyce e Lukács, amante de música popular brasileira e de jazz. E só bebia cachaça com os pescadores, escondendo o que eu conhecia do mundo lá fora. Então, nos sábados à tarde, eu subia, talvez fugisse para o apartamento de Hugo, onde os pais dele nos suportavam a ouvir os discos de jazz na sala. Alto. Mas como era bom o alimento do espírito regado a doses de uísque ótimo, que seu Nelson, pai de Hugo, guardava para as visitas. Percebem? Eu era um imortal naquele sentido do Barão de Itararé, pois não tinha onde cair morto. Mas Hugo me recebia como um ilustre a me dar lições de músicos que eu não podia ouvir nem sabia da existência. E com uísque e queijos finos até as sombras da noite. Acontecimentos assim, generosidade de tal altura, nunca esquecemos”. 

Agora, penso que se conseguirmos um encontro ideal no sábado, depois poderemos caminhar  pelo Recife, o lugar mais materno que pátrio. Então poderemos percorrer, habitar mais uma vez o Pátio de São Pedro, revê-lo como o lugar de fundamentais encontros nas páginas de “Soledad no Recife” e “A mais longa duração da juventude”. Como escritor, não devo chorar. Mas posso dizer que o Recife, tanto quanto Roma, é uma cidade aberta.

Neste momento, sinto que a morte dá uma dimensão à pessoa que antes não tínhamos. Não é bem aquilo que o povo diz: “Quer virar santo? Morra!”. O povo tem muita razão, mas o que observo para a fraternidade não é um elogio seletivo e hipócrita. É coisa mais séria. A marca de uma pessoa em nossas vidas cresce com a sua ausência, com aviso e sem aviso, mas sempre repentina.

Eu sempre disse que não queria desfrutar o céu sozinho. Que eu sempre gostaria de levar comigo para o céu os amigos. O sentido era o da felicidade na terra. Mas agora, com o cerco implacável da idade, não desejo mais o céu para os amigos. O sentido mudou. Então eu quero um reencontro em vida, com vida, pela vida, vale dizer: também pela memória.

*Vermelho Para um encontro de amigos – Vermelho

Urariano Mota – Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Urariano Mota

Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados