28 de julho de 2026

Se Lula cair, o Brasil cai junto, por Reynaldo Aragon

Há momentos em que um país deixa de disputar apenas uma eleição e passa a disputar o direito de decidir o próprio futuro. É o caso do Brasil.
Lula por Marcelo Camargo - Agência Brasil

Lula reafirmou autonomia do Brasil em reunião com Xi Jinping, diante de pressões econômicas e geopolíticas globais.
Brasil ocupa posição estratégica no século XXI por recursos, tecnologia e influência em cadeias produtivas globais.
Disputa em 2026 vai definir continuidade da autonomia brasileira ou subordinação a interesses externos e perda de soberania.

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Se Lula cair, o Brasil cai junto

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As pressões contra o governo brasileiro já ultrapassaram a disputa partidária. Em meio à maior reorganização geopolítica do século XXI, a permanência de Lula tornou-se um fator decisivo para proteger a soberania nacional, a economia produtiva e a capacidade do Brasil de decidir seu próprio destino.

por Reynaldo Aragon

Tarifas, minerais críticos, Big Techs, BRICS, agro, indústria, guerra híbrida, eleições e a disputa entre Estados Unidos e China fazem parte de um mesmo tabuleiro. Este artigo demonstra, com base em fatos e no realismo político, por que a defesa da soberania brasileira ultrapassa governos, partidos e ideologias, e por que o futuro do país pode depender da eleição mais importante desde a redemocratização.

Quando a história bate à porta

Há momentos em que um país deixa de disputar apenas uma eleição e passa a disputar o direito de decidir o próprio futuro. O Brasil chegou a esse momento.

A ligação entre Luiz Inácio Lula da Silva e Xi Jinping, realizada nesta segunda-feira, 27 de julho, foi muito mais do que uma conversa entre dois chefes de Estado. Foi a manifestação pública de uma escolha estratégica construída ao longo de meses de crescente pressão econômica, diplomática e política sobre o Brasil. Em um mundo marcado por tarifas, sanções, disputas tecnológicas, guerra híbrida, operações de influência e competição por recursos estratégicos, Lula sinalizou que o país não abrirá mão de conduzir sua política externa segundo seus próprios interesses.

A conversa ocorreu poucos dias depois de uma nova escalada das tensões entre Brasília e Washington. Em vez de responder ao aumento da pressão internacional reduzindo sua margem de manobra, o governo brasileiro aprofundou o diálogo com a China, ampliou negociações comerciais, discutiu inteligência artificial, satélites, fertilizantes, minerais críticos e novas formas de cooperação tecnológica. O gesto ultrapassa em muito a relação bilateral entre os dois países. Ele afirma um princípio que atravessa toda a história das nações soberanas: nenhum país pode construir seu futuro permitindo que outro escolha seus parceiros, seus mercados ou os limites de sua política externa.

É justamente nesse ponto que grande parte do debate brasileiro perde o foco. O que está acontecendo não pode ser reduzido à polarização entre esquerda e direita, nem explicado apenas pelas disputas eleitorais de 2026. O centro da questão é outro. A ordem internacional atravessa sua maior reorganização desde o fim da Guerra Fria. O controle das cadeias produtivas, dos minerais críticos, da energia, dos alimentos, da inteligência artificial, das infraestruturas digitais e das grandes rotas comerciais tornou-se o principal eixo da disputa pelo poder global. E poucos países ocupam uma posição tão estratégica nesse tabuleiro quanto o Brasil.

É sob essa perspectiva que as decisões de Lula precisam ser compreendidas. Não como episódios isolados da política cotidiana, mas como respostas a uma disputa muito maior do que um governo, um partido ou uma eleição. Talvez, quando este período for analisado pelas próximas gerações, a ligação entre Lula e Xi Jinping deixe de ser lembrada apenas como mais um encontro diplomático. Talvez seja reconhecida como o momento em que o Brasil, diante de uma pressão crescente para redefinir seu lugar no mundo, decidiu reafirmar um princípio elementar da soberania: o direito de escolher, por si mesmo, o seu próprio destino.

O país que voltou ao centro do mundo

Durante muito tempo, acostumamo-nos a imaginar que os grandes conflitos internacionais aconteciam sempre longe daqui. Oriente Médio, Leste Europeu, Mar do Sul da China, Ártico. O Brasil parecia um espectador privilegiado de uma disputa travada entre as grandes potências. Essa percepção já não corresponde à realidade.

O século XXI deslocou o centro da competição internacional. O poder deixou de ser medido apenas pela capacidade militar e passou a depender, cada vez mais, do controle das cadeias produtivas, da energia, dos alimentos, da inteligência artificial, dos minerais críticos, das infraestruturas digitais, das rotas comerciais e das tecnologias capazes de sustentar a próxima revolução industrial. Poucos países reúnem tantas dessas condições quanto o Brasil.

O país concentra uma das maiores produções agrícolas do planeta, possui reservas estratégicas de petróleo, abriga parte significativa dos minerais indispensáveis à transição energética e à indústria de alta tecnologia, dispõe de uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, controla uma extensa faixa do Atlântico Sul e ocupa posição central nas cadeias globais de alimentos, energia e matérias-primas. Ao mesmo tempo, participa dos BRICS, integra o Mercosul, mantém relações diplomáticas com praticamente todos os grandes polos de poder e preserva capacidade de diálogo simultâneo com Oriente e Ocidente. Não se trata apenas de um grande mercado consumidor. Trata-se de um dos poucos países capazes de influenciar a reorganização econômica e geopolítica do século XXI.

É justamente por isso que a disputa em torno do Brasil não pode ser interpretada como um episódio isolado da política nacional. Quando uma potência busca preservar sua posição dominante em um sistema internacional que se transforma rapidamente, ela procura reduzir as incertezas em torno dos ativos considerados estratégicos. Nesse contexto, minerais críticos, infraestrutura energética, cadeias industriais, plataformas digitais, corredores logísticos, mercados consumidores e alianças internacionais deixam de ser temas separados. Passam a compor uma mesma arquitetura de poder.

É esse o erro mais frequente do debate brasileiro. Discutimos tarifas sem relacioná-las às cadeias produtivas. Falamos de minerais sem conectá-los à inteligência artificial. Tratamos as Big Techs como um problema exclusivamente regulatório, ignorando que elas também integram uma disputa por dados, tecnologia e influência política. Observamos a aproximação entre Brasil e China como se fosse apenas uma decisão diplomática, quando ela faz parte de uma transformação muito mais ampla da economia mundial. Separados, esses acontecimentos parecem desconexos. Juntos, revelam uma lógica difícil de ignorar.

Compreender essa lógica é o primeiro passo para entender por que o Brasil voltou ao centro da disputa internacional. O segundo é responder a uma pergunta ainda mais decisiva: por que, dentro desse novo tabuleiro, Luiz Inácio Lula da Silva passou a representar um obstáculo estratégico para interesses que ultrapassam, em muito, as fronteiras da política brasileira?

Por que Lula se tornou um obstáculo

Lula não se tornou um problema para determinados centros de poder porque fala em soberania. Tornou-se um problema porque começou a exercê-la.

Desde que retornou à Presidência, o Brasil recusou o papel de aliado automático de qualquer potência. Preservou relações com os Estados Unidos, aprofundou a parceria com a China, fortaleceu os BRICS, reativou a integração sul-americana e voltou a defender uma ordem internacional menos concentrada. Essa política não representa uma troca de dependência. Representa a tentativa de ampliar a margem de escolha do país em um mundo dividido por interesses cada vez mais agressivos.

Essa margem de escolha possui valor econômico concreto. Ela permite ao Brasil negociar mercados sem aceitar alinhamentos compulsórios, atrair investimentos de diferentes origens, proteger setores estratégicos, disputar tecnologia e impedir que recursos decisivos para o futuro sejam entregues apenas como matéria-prima barata. É nesse ponto que política externa, desenvolvimento e soberania deixam de ser conceitos abstratos. Um país que não controla as condições de exploração de seus minerais, o destino de seus dados, suas infraestruturas digitais e suas principais cadeias produtivas não controla plenamente a própria economia.

Lula também contrariou uma expectativa antiga: a de que o Brasil continuaria grande o suficiente para fornecer recursos, mas politicamente limitado demais para disputar poder. Ao defender a industrialização vinculada à transição energética, exigir transferência de tecnologia, propor comércio em moedas locais, apoiar a reforma das instituições multilaterais e reivindicar protagonismo para o Sul Global, o governo brasileiro deixou claro que não pretende aceitar uma inserção internacional baseada apenas na exportação de commodities e na importação de tecnologia.

É essa combinação que explica a intensidade das pressões. Tarifas, ameaças comerciais, campanhas de deslegitimação, ofensivas contra a regulação das plataformas e tentativas de condicionar a política externa brasileira pertencem a campos diferentes, mas convergem sobre o mesmo objetivo: reduzir a capacidade de decisão do Estado. Nenhum desses instrumentos precisa derrubar formalmente um governo para ser eficaz. Basta elevar o custo de suas escolhas, dividir sua base social, pressionar setores econômicos e transformar a defesa do interesse nacional em fonte permanente de instabilidade.

O principal obstáculo representado por Lula, portanto, não é ideológico. É estratégico. Sua presença impede que o Brasil seja facilmente incorporado à esfera de influência de um único bloco e preserva espaço para um projeto nacional autônomo. Isso não significa ausência de contradições, concessões ou limites. Significa apenas reconhecer o dado essencial do presente: entre as lideranças com capacidade real de governar o país, Lula é aquela que reúne legitimidade popular, experiência internacional e força política para resistir a pressões que ultrapassam qualquer mandato.

É por isso que o conflito em torno de seu governo não pode ser compreendido apenas pela lógica da oposição partidária. O que está em disputa não é somente quem ocupará o Palácio do Planalto. É quem terá poder para definir os parceiros do Brasil, orientar seus investimentos, controlar seus ativos estratégicos e estabelecer os limites de seu desenvolvimento.

O equívoco que pode custar uma geração

Talvez o maior erro da atual conjuntura brasileira seja imaginar que esta disputa produzirá vencedores internos. Não produzirá. Se a capacidade de decisão estratégica do Estado brasileiro for reduzida, perderão governos, empresários, trabalhadores, investidores e consumidores. Perderá o próprio país.

A prosperidade de qualquer economia depende de sua liberdade para decidir onde investir, com quem negociar, quais setores proteger, quais tecnologias desenvolver e quais cadeias produtivas pretende construir. Nenhum país alcançou desenvolvimento sustentado abrindo mão dessas escolhas. As grandes potências defendem diariamente seus interesses industriais, tecnológicos, financeiros e comerciais. Não há razão para que o Brasil seja o único a renunciar aos seus.

Essa constatação interessa tanto ao produtor rural quanto ao industrial, ao exportador, ao empreendedor, ao pesquisador e ao trabalhador. Mercados externos, crédito, investimentos, inovação e estabilidade institucional não florescem em economias cuja estratégia nacional é determinada por interesses alheios. Quanto menor a autonomia do Estado, menor também a capacidade de gerar riqueza de forma contínua.

É justamente por isso que a soberania pertence às nações que desejam preservar sua capacidade de construir o próprio futuro. Países que abdicam dessa condição podem continuar produzindo, exportando e crescendo por algum tempo, mas passam a fazê-lo dentro de limites definidos por outros. Com o tempo, deixam de disputar os setores de maior valor agregado, tornam-se dependentes de tecnologias desenvolvidas no exterior e veem diminuir sua influência sobre os rumos da economia mundial.

É sob essa perspectiva que a eleição de 2026 ultrapassa a alternância normal do poder. O que estará em julgamento não será apenas um governo, mas a continuidade de uma estratégia de inserção internacional baseada na autonomia decisória. É uma escolha entre preservar a capacidade de negociar a partir dos próprios interesses ou aceitar que as decisões fundamentais sobre desenvolvimento, tecnologia e integração econômica sejam condicionadas por pressões externas.

Essa é a questão que antecede todas as outras. Antes de discutir quem governará o Brasil, será preciso decidir se o país continuará governando a si mesmo.

A história não escolhe líderes perfeitos

Seria um erro transformar essa análise em um julgamento moral sobre Luiz Inácio Lula da Silva. Como toda liderança política de longa trajetória, seu governo acumula acertos, erros, concessões, limites e decisões passíveis de crítica. Nenhum processo histórico relevante foi conduzido por personagens livres de contradições. A história nunca ofereceu essa possibilidade.

A questão decisiva, portanto, não é saber se Lula governou sem falhas. É compreender qual papel ele ocupa neste momento específico da história brasileira. Em política, a relevância de uma liderança não é determinada apenas por suas virtudes ou defeitos, mas pela posição que ela passa a ocupar diante das circunstâncias. Há momentos em que indivíduos deixam de representar apenas seus partidos e passam a representar determinadas possibilidades históricas.

É exatamente isso que parece ocorrer hoje. A permanência de Lula no centro da política nacional deixou de interessar apenas aos seus eleitores ou aos seus adversários. Tornou-se um fator diretamente relacionado à capacidade de o Brasil preservar uma política externa independente, manter relações equilibradas com diferentes polos de poder e continuar ampliando sua margem de decisão em um cenário internacional cada vez mais conflituoso.

Isso não significa que outro governo, no futuro, não possa defender os mesmos objetivos. Significa apenas reconhecer a realidade concreta do presente. Entre as lideranças que disputam o poder, nenhuma reúne, neste momento, a mesma combinação de legitimidade política, experiência internacional, capacidade de negociação e reconhecimento externo para sustentar essa estratégia sem romper a estabilidade institucional do país.

É justamente por isso que reduzir a eleição de 2026 a uma simples disputa entre nomes, partidos ou preferências ideológicas significa ignorar a dimensão histórica do que está em jogo. Em determinados períodos, as sociedades não escolhem apenas governos. Escolhem quais possibilidades desejam preservar para o futuro.

Essa é a razão pela qual o debate ultrapassa a figura de Lula. O verdadeiro protagonista desta história nunca foi um homem. É o direito de uma nação decidir, com autonomia, os caminhos do seu próprio desenvolvimento.

Se Lula cair, o Brasil cai junto

A frase que dá título a este artigo não deve ser compreendida como um exercício de fidelidade partidária nem como uma afirmação sobre a indispensabilidade de qualquer indivíduo. A história sempre encontra novos líderes. O que ela não substitui com facilidade são as oportunidades perdidas.

O Brasil atravessa um daqueles momentos em que as escolhas políticas produzem consequências que ultrapassam um mandato presidencial. Em um mundo marcado pela disputa por tecnologia, recursos estratégicos, cadeias produtivas e influência geopolítica, preservar a capacidade de decidir tornou-se o principal patrimônio de qualquer nação. Sem ela, desenvolvimento deixa de ser projeto e passa a depender da vontade de terceiros.

É nesse contexto que a permanência de Lula adquire um significado que transcende sua trajetória pessoal. Independentemente das críticas que se possam fazer ao seu governo, é sob sua liderança que o Brasil voltou a ocupar um espaço relevante na reorganização da ordem internacional, ampliou sua margem de negociação, fortaleceu relações com diferentes polos de poder e reafirmou que não pretende abrir mão de sua autonomia estratégica. Não se trata de um julgamento sobre um homem. Trata-se de uma avaliação sobre o lugar que o país escolhe ocupar no século XXI.

Toda geração enfrenta um momento em que precisa decidir se administrará as circunstâncias ou se tentará influenciá-las. O Brasil chegou novamente a esse ponto. Permanecer como fornecedor periférico de recursos estratégicos, subordinado às decisões das grandes potências, ou consolidar-se como um ator capaz de negociar, produzir tecnologia, agregar valor e exercer influência compatível com sua dimensão territorial, econômica e política são caminhos profundamente distintos. A diferença entre eles começa na preservação da soberania.

Talvez seja por isso que o debate em torno de 2026 desperte reações tão intensas dentro e fora do país. O que está em disputa não é apenas a sucessão presidencial. É a continuidade, ou a interrupção, de uma estratégia que devolveu ao Brasil capacidade de escolha em um período de acelerada transformação da ordem mundial.

Se essa capacidade for preservada, outros governos poderão aperfeiçoá-la, ampliá-la ou até substituí-la por projetos mais eficazes. Mas, se ela for interrompida agora, reconstruí-la poderá exigir décadas. A história demonstra que países raramente perdem sua soberania de uma só vez. Eles a cedem lentamente, decisão após decisão, até perceberem que já não controlam os rumos do próprio desenvolvimento.

É por isso que, diante da conjuntura atual, a frase que dá título a este artigo deixa de ser uma declaração sobre Lula e passa a expressar uma advertência sobre o Brasil. Se Lula cair, poderá cair junto a estratégia que recolocou o país como protagonista de seu próprio destino. E oportunidades históricas, ao contrário das eleições, quase nunca oferecem uma segunda chance.

Artigo publicado originalmente em <código aberto>

Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. Editor do codigoaberto.net É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.

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