Trump prossegue com sua guerra contra o Irã e tenta reduzir sua influência regional
por Heba Ayyad
Pressões de grupos de interesse e cálculos políticos republicanos e regionais levaram Trump a recuar em relação aos entendimentos com o Irã. Paralelamente, Estados Unidos e Arábia Saudita tentam enfraquecer a influência de Teerã no Golfo e no Líbano, em meio ao aumento dos custos militares e econômicos
O afastamento de Donald Trump dos entendimentos com o Irã resulta da combinação entre as pressões exercidas por doadores e grupos de interesse, como a AIPAC e Miriam Adelson, além da estratégia e da orientação política do Partido Republicano.
Essa mudança de posição não foi motivada por um único grupo, mas pela convergência de diversos fatores fundamentais que moldaram essa postura. Entre os principais está uma posição extremamente rígida, que defende o fim do acordo nuclear, o uso da força contra Teerã e a eliminação de sua influência regional.
A AIPAC, organização lobista de Israel nos Estados Unidos pressionou o governo norte-americano por meio de seus aliados no Congresso e considerou que qualquer entendimento que não desmonte a rede de influência regional do Irã representa uma ameaça direta à segurança de Israel. A ideologia do Partido Republicano também teve papel importante na rejeição à possibilidade de os Estados Unidos parecerem ter cedido às exigências iranianas.
O Partido Republicano avaliou que acordos parciais proporcionariam benefícios financeiros ao Irã por meio da suspensão das sanções, sem enfrentar a questão regional, especialmente sem enfraquecer seus aliados. A AIPAC exige que qualquer acordo definitivo trate do programa nuclear iraniano, dos mísseis balísticos, dos drones e do apoio de Teerã a seus aliados na região.
As principais críticas ao governo Trump vieram de seus aliados regionais, devido à concentração exclusiva na questão nuclear e à negligência em relação ao programa de mísseis balísticos e à influência iraniana nas capitais árabes. Ao recuar e intensificar a pressão econômica, Trump pretendia cortar as fontes de financiamento dos aliados regionais do Irã, especialmente o Hezbollah, no Líbano, e as facções no Iraque. Na visão de Trump, retirar essas cartas de influência seria a única maneira de obrigar Teerã a firmar um “acordo abrangente” de acordo com suas condições.
Lei dos Poderes de Guerra
Trump enviou uma notificação formal ao Congresso na qual anunciou a retomada das operações militares contra o Irã, após acusar o país de violar o “Memorando de Entendimento de Islamabad”, assinado em junho, por meio de ataques a navios no Estreito de Ormuz.
De acordo com a Lei dos Poderes de Guerra, o presidente deve informar o Congresso no prazo de 48 horas após o início das ações militares. Além disso, as operações devem ser encerradas em até 60 dias caso não seja obtida uma autorização legislativa.
Esse prazo não representa uma autorização legal para o uso das Forças Armadas, mas estabelece um limite temporal para a continuidade das operações sem a aprovação do Congresso. Embora o Congresso tenha votado a favor de uma resolução que exige o fim das operações militares contra o Irã, a decisão não possui caráter juridicamente vinculante.
A aviação norte-americana continua realizando ataques contra cidades e regiões iranianas, como Bushehr, Ahvaz e Sirik. Em resposta, o Irã lança mísseis e drones contra bases militares dos Estados Unidos localizadas em países do Golfo.
O Irã ameaçou impedir a exportação de “uma única gota de petróleo” do Golfo caso sua infraestrutura fosse atacada. Em contrapartida, Trump ameaça destruir uma usina elétrica ou uma ponte iraniana para cada navio atingido no estreito.
Trump e o envolvimento dos países do Golfo na guerra contra o Irã
Os países do Golfo já haviam adotado medidas para restringir o uso de seus espaços aéreos e de suas bases militares pelas forças norte-americanas. Não existe consenso regional sobre a participação nessa guerra.
Trump, no entanto, tenta pressionar as capitais do Golfo e afirma que qualquer cooperação nuclear ou apoio à Arábia Saudita estaria condicionado à adesão aos “Acordos de Abraão” e ao enfrentamento de Teerã.
Os países do Golfo rejeitam a possibilidade de se tornarem palco de uma guerra, enquanto o Congresso norte-americano permanece dividido e incapaz de conter a ofensiva militar.
Trump pretende envolver os países do Golfo para reduzir o peso das consequências da guerra sobre seu próprio governo, em um momento em que a alta dos preços do petróleo representa um dilema estratégico. Ele tenta transferir explicitamente os custos financeiros e militares do conflito para os parceiros regionais, algo rejeitado pelas capitais do Golfo, que adotaram uma política de distanciamento e limitaram o uso de seus espaços aéreos para a realização de ataques.
O conflito ameaça algumas das principais rotas de energia do mundo, especialmente o Estreito de Ormuz e o Mar Vermelho. Isso provocou um aumento dos preços globais do petróleo e passou a ameaçar a economia ocidental, algo que Trump teme, pois contribui para o aumento da inflação nos Estados Unidos.
A continuidade dos ataques iranianos com mísseis e drones também colocou diretamente as tropas norte-americanas sob risco. Soldados dos Estados Unidos morreram em ataques iranianos contra uma base norte-americana na Jordânia, enquanto outras instalações e bases dos Estados Unidos na região foram alvo de ataques recorrentes.
Embora a campanha eleitoral de Trump tenha sido baseada na promessa de trazer os soldados de volta para casa e evitar o envolvimento em “guerras sem fim”, a morte de militares norte-americanos pode fazê-lo perder o apoio de uma parcela significativa de sua base eleitoral, historicamente contrária a conflitos no exterior.
Ao mesmo tempo, o Partido Democrata e o Congresso dividido poderão explorar essas perdas para argumentar que Trump envolveu o país em uma guerra “ilegal”, sem autorização formal, o que pode ameaçar seu futuro político.
Trump tentou retirar do Irã suas cartas de influência no Líbano com o apoio da Arábia Saudita?
A tentativa de Donald Trump de retirar do Irã suas cartas de influência regional no Líbano e no Iraque alcançou alguns avanços estratégicos, mas enfrentou dificuldades no terreno devido ao início de um confronto militar direto.
Trump obteve sucesso político ao apoiar o acordo-quadro trilateral entre Estados Unidos, Líbano e Israel. Ele considerou esse resultado uma grande vitória na tentativa de separar a frente libanesa da influência direta do Irã.
Também pressionou pela redução da influência militar direta iraniana, incentivando outros atores regionais a desempenhar um papel no controle das armas e no enfraquecimento do Hezbollah.
Entretanto, os esforços políticos não conseguiram neutralizar completamente a influência militar. As facções iraquianas continuaram realizando operações, o que demonstra que a capacidade militar iraniana permanece ativa no terreno.
Em vez de as cartas de influência do Irã diminuírem, a escalada se expandiu. O movimento Ansar Allah atacou navios petroleiros sauditas no Mar Vermelho, e soldados norte-americanos morreram na Jordânia.
Esses acontecimentos demonstram que a rede de influência regional iraniana ainda é capaz de causar danos aos interesses dos Estados Unidos, apesar da redução de sua influência política junto aos governos de Beirute e Bagdá.
O retorno do papel saudita no Líbano
A Arábia Saudita desempenhou um papel central na reconstrução de sua influência em Beirute e na redução da influência iraniana, aproveitando um momento político e econômico considerado favorável.
Isso ocorreu por meio do apoio à eleição do presidente Joseph Aoun e à nomeação de Nawaf Salam como primeiro-ministro. Riade também atuou em cooperação com Egito e Catar.
A Arábia Saudita liderou esforços para estabelecer uma barreira política e de segurança capaz de impedir Teerã de impor suas condições por meios militares, aproveitando o fato de o Irã estar concentrado nos ataques diretos dos Estados Unidos.
Em junho de 2026, a Arábia Saudita anunciou o fim da proibição às exportações libanesas para o reino, após aproximadamente cinco anos. Também foi discutida a retomada de uma ajuda de três bilhões de dólares destinada ao Exército libanês.
O apoio financeiro foi condicionado à capacidade das instituições legítimas do Estado de exercer sua soberania. A Arábia Saudita conseguiu afastar o Líbano do Irã por meio de uma estratégia de contenção inteligente, enquanto Teerã estava mergulhada em um confronto militar direto com Washington.
As ações sauditas e libanesas não ocorreram de forma isolada em relação ao contexto regional. A cooperação entre Riade e o governo Trump sobre a questão libanesa baseou-se em um interesse comum: enfraquecer a influência iraniana.
Entretanto, as motivações de cada lado eram diferentes. Trump pretendia obter ganhos para Israel e ampliar os Acordos de Abraão, enquanto a Arábia Saudita buscava recuperar sua influência no Líbano.
Heba Ayyad – Jornalista internacional. Escritora Palestina Brasileira
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