29 de julho de 2026

A Prefeitura derruba o Samba do Cruz para mais uma concessão privada

O Samba do Cruz não é um negócio construído por uma incorporadora. É uma instituição criada por trabalhadores negros e mantida por gerações.

Polícia Militar ocupa o Samba do Cruz, patrimônio negro e cultural de São Paulo, para reintegração de posse no Campo de Marte.
Prefeitura concede por 35 anos área a consórcio único, ligado a grupos do Pacaembu, para parque que não incorpora o clube.
Comunidade de quase 70 anos é removida; questionamentos sobre licitação e exclusão do clube no projeto permanecem.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Enquanto a Polícia Militar ocupa um patrimônio vivo da cultura negra paulistana, o terreno é entregue a um consórcio que reúne agentes econômicos já presentes na concessão do Pacaembu

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Neste momento, contingentes da Polícia Militar ocupam o Samba do Cruz, extraordinário ponto de encontro do samba paulistano, do movimento negro e do futebol de várzea.

Não se trata apenas da retirada de uma associação de um terreno público. Está em curso o desmonte de um patrimônio vivo da cidade de São Paulo para abrir espaço a mais uma concessão privada da Prefeitura de Ricardo Nunes.

Ontem à noite estive em um evento no Samba do Cruz. Havia cerca de 1.500 pessoas, vindas de todos os cantos da cidade, a maioria negra. Famílias, músicos, jogadores de várzea, moradores da Zona Norte e frequentadores de várias gerações se reuniam em uma tradição que remonta a quase 70 anos.

Hoje, a resposta do poder público chega na forma de tropas policiais, reintegração de posse e ameaça de demolição.

A Prefeitura chama o local de “ocupação irregular”. Quem conhece sua história sabe que ali existe uma instituição profundamente enraizada na cultura popular de São Paulo.

Dos taxistas negros ao samba paulistano

O Samba do Cruz nasceu do Grêmio Esportivo Recreativo Cruz da Esperança, fundado em 12 de outubro de 1958 por um grupo de taxistas negros do bairro da Casa Verde, na Zona Norte.

Era o ano em que o Brasil conquistava sua primeira Copa do Mundo. Inspirados pela vitória da seleção, os fundadores decidiram criar um clube de futebol.

Em 1979, o Cruz da Esperança transferiu-se para o complexo do Campo de Marte, na Rua Marambaia, 802, com autorização do então IV Comando Aéreo Regional da Aeronáutica.

O clube passou a ocupar uma área onde já existiam outros times de futebol de várzea. O Cruz teria sido a segunda agremiação a instalar-se naquele trecho, depois do Grêmio Recreativo da Sade.

Ali se construiu, pouco a pouco, um território comunitário.

Primeiro vieram o bar e o salão de bailes, que recebia festas mensais em homenagem aos aniversariantes. Depois, o samba-rock. Finalmente, as rodas de samba que deram ao espaço o nome pelo qual se tornou conhecido em toda a cidade: Samba do Cruz.

O local consolidou-se como um dos grandes redutos da cultura negra da Zona Norte, em uma região frequentemente identificada como parte da “Pequena África Paulistana”.

Samba, identidade negra e futebol de várzea passaram a formar os três pilares do clube.

Um celeiro da várzea

O Cruz da Esperança também foi um importante celeiro do futebol popular de São Paulo.

Por seu campo de terra passaram jogadores como Serginho Chulapa e Basílio, o Pé de Anjo, autor de um dos gols mais importantes da história do Corinthians.

Nas paredes do clube estão fotografias em preto e branco, troféus e lembranças de gerações de jogadores. Há também uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, celebrada todos os anos com uma romaria no aniversário da agremiação.

As noites de samba não representam apenas diversão. Elas sustentam financeiramente o futebol, os uniformes, a participação em campeonatos e a manutenção da estrutura.

O Samba do Cruz não é um negócio construído por uma incorporadora. É uma instituição criada por trabalhadores negros e mantida por gerações de moradores.

É justamente por isso que sua destruição não pode ser reduzida a uma discussão cartorial sobre propriedade.

A concessão do Campo de Marte

Em janeiro de 2025, a Prefeitura de São Paulo assinou um contrato de concessão de 35 anos para implantação, administração e exploração do futuro Parque Municipal Campo de Marte.

A concessão prevê investimentos anunciados de aproximadamente R$ 202 milhões, incluindo áreas verdes, equipamentos de lazer e cinco novos campos de futebol. O contrato foi entregue à Concessionária Campo de Marte SPE S.A., constituída pelo Consórcio Cântaro SP. (Folha de S.Paulo)

O argumento oficial é sedutor: substituir uma suposta ocupação irregular por um parque moderno, ambientalmente sustentável e aberto ao público.

Mas a questão nunca foi escolher entre o Samba do Cruz e um parque.

A verdadeira pergunta é por que o projeto do parque não poderia incorporar o clube, suas rodas de samba, sua história e seus campos.

O planejamento urbano parece ter considerado árvores, edifícios, estacionamentos, restaurantes e, principalmente,  oportunidades comerciais. Só não conseguiu enxergar as pessoas que já davam vida ao lugar.

Em março de 2026, a Justiça chegou a conceder prazo de 60 dias para a desocupação. Posteriormente, esse prazo foi revogado, e a decisão de reintegração autorizou a demolição das construções e até o uso de força policial. (Folha de S.Paulo)

A demolição foi anunciada para 29 de julho de 2026. (Metrópoles)

O Judiciário pode ter decidido sobre a posse do terreno. Não decidiu, entretanto, sobre o valor cultural do que será destruído.

Quem está por trás da concessão

A Concessionária Campo de Marte não é uma entidade abstrata.

Ela foi formada por quatro participantes:

ParticipanteParticipação
Q2 Brás Leme Empreendimentos e Participações Ltda.50%
MALS Treinamento Gerencial S.A.20%
Progen S.A.15%
Savona Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia15%

A Progen S.A., embora detenha apenas 15% do consórcio, foi designada sua empresa líder.

Entre os administradores da concessionária aparecem Eduardo Machado Barella, Rafael Carneiro Bastos de Carvalho e Thiago Maggi Quartiero.

A ata da licitação confirma a participação de Q2 Brás Leme, MALS, Progen e Fundo Savona na formação do consórcio. (Prefeitura de São Paulo)

O dado mais revelador é que o Consórcio Cântaro foi o único concorrente na licitação.

Apresentou uma outorga inicial de apenas R$ 308 mil para uma concessão de 35 anos sobre uma área de enorme valor econômico e urbano. A contrapartida principal está nos investimentos e na manutenção previstos no contrato, mas a inexistência de competição efetiva deveria, por si só, ter levado a Prefeitura a um escrutínio redobrado. (Folha de S.Paulo)

Em vez disso, o contrato avançou — e agora uma comunidade negra de quase sete décadas é retirada para garantir sua execução.

Do Pacaembu ao Campo de Marte

A ligação mais importante está na repetição de grupos econômicos.

A Progen também participa da Allegra Pacaembu, concessionária responsável pela administração e exploração do Complexo do Pacaembu.

O Savona FIP, sócio de 15% do Campo de Marte, também aparece na estrutura societária da concessionária do Pacaembu ao lado da Progen.

Eduardo Barella e Rafael Carvalho, por sua vez, aparecem como executivos ligados às duas operações.

Portanto, Campo de Marte e Pacaembu não estão conectados apenas por uma vaga semelhança entre empresas. Há repetição de investidores, dirigentes e modelos de concessão.

A historiadora do esporte Aira Bonfim levantou uma questão pertinente: como um grupo que enfrentava atrasos, controvérsias e reclamações de fornecedores nas obras do Pacaembu conseguiu obter outra concessão de 35 anos na mesma cidade?

A pergunta não constitui prova de favorecimento. Mas é uma pergunta que a Prefeitura precisa responder.

Por enquanto, não há demonstração pública de vínculo pessoal ou financeiro entre os controladores do consórcio e o prefeito Ricardo Nunes. 

Há, contudo, fatos suficientes para justificar uma investigação rigorosa:

  • o grupo foi o único concorrente;
  • a concessão tem duração de 35 anos;
  • há repetição de agentes econômicos já presentes no Pacaembu;
  • a maior participante do consórcio é uma empresa imobiliária ligada à região;
  • um patrimônio cultural comunitário foi tratado como simples obstáculo contratual.

Quatro perguntas que a Prefeitura deve responder

A primeira é: por que houve apenas um concorrente em uma concessão tão extensa e valiosa?

A segunda: qual é o papel econômico da Q2 Brás Leme, dona de 50% do consórcio, e quais negócios seus controladores mantêm na região?

A terceira: quem são os beneficiários e cotistas finais do Fundo Savona?

A quarta, mais simples e mais difícil de responder: por que o Samba do Cruz não foi incorporado ao projeto do parque?

A Prefeitura teve anos para desenhar a concessão. Poderia ter previsto a permanência do clube, protegido as rodas de samba, reconhecido o patrimônio cultural e integrado o futebol de várzea aos novos equipamentos.

Preferiu considerar o espaço vazio.

Quando a cidade perde a memória

Patrimônio cultural não se resume a edifícios tombados, palácios e monumentos.

Existe um patrimônio vivo, composto por práticas, rituais, encontros, músicas, histórias e memórias coletivas. Esse patrimônio desaparece quando o poder público passa a enxergar a cidade apenas como uma sucessão de terrenos, contratos, concessões e oportunidades de negócios.

Um parque pode ser construído em poucos anos.

Uma comunidade como o Samba do Cruz leva gerações para nascer.

Não basta prometer cinco novos campos de futebol depois de destruir um clube que ajudou a formar o próprio futebol de várzea da cidade. Não basta plantar árvores onde antes havia música, identidade e convivência.

O que está sendo removido do Campo de Marte não é uma ocupação qualquer.

É uma parte da história negra, popular e cultural de São Paulo.

Enquanto a polícia ocupa o Samba do Cruz, o discurso oficial fala em modernização, sustentabilidade e revitalização.

É uma velha operação paulistana: apaga-se a memória, entrega-se o terreno e chama-se o negócio de futuro.

LEIA TAMBÉM:

Receba os artigos de Luís Nassif pelo WhatsApp

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados