31 de julho de 2026

Oportunidades Perdidas (1), por Celso P. de Melo

Mais do que oferecer respostas definitivas, esta série convida o leitor a revisitar um velho problema sob uma perspectiva diferente.
Imagem gerada por IA

O Brasil perdeu ecossistemas tecnológicos, não apenas empresas, enfraquecendo redes de conhecimento e inovação.
Empresas estratégicas sustentam redes complexas de fornecedores, universidades e laboratórios essenciais para o desenvolvimento.
Enquanto o Brasil desmontava ecossistemas, grandes potências investem em políticas para fortalecer inovação e autonomia tecnológica.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

O Brasil não perdeu apenas empresas. Perdeu ecossistemas.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Quando desaparece uma empresa estratégica, desaparecem também fornecedores, laboratórios, engenheiros, conhecimento acumulado e a capacidade de gerar as próximas gerações de tecnologia.

Oportunidades Perdidas – Três ensaios sobre conhecimento, inovação e soberania

por Celso P. de Melo

“As forças produtivas de uma nação dependem não apenas daquilo que ela possui,
mas sobretudo daquilo que ela é capaz de criar.”
Friedrich List (1841) [1].

Prólogo

Esta série de ensaios nasceu de uma inquietação que, ao longo dos últimos anos, se tornou cada vez mais difícil de ignorar. O debate brasileiro sobre desenvolvimento, indústria e inovação passou a concentrar-se quase sempre em episódios isolados: o fechamento de uma fábrica, a venda de uma empresa, a perda de um mercado ou o lançamento de um novo programa governamental. Raramente, porém, nos perguntamos o que conecta esses acontecimentos e o que eles revelam sobre a trajetória de longo prazo do país.

A percepção de que existia uma história mais profunda por trás desses episódios motivou a escrita do ensaio “O país que desistiu de subir”, publicado recentemente em meu Substack como uma primeira tentativa de compreender por que o Brasil interrompeu, ao longo das últimas décadas, a construção de suas capacidades científicas, tecnológicas e industriais [2].

Naquele texto procurei apresentar uma visão panorâmica dessa trajetória e sugerir uma hipótese simples: talvez o Brasil não tenha perdido apenas empresas ou setores industriais, mas parte das competências científicas, tecnológicas e institucionais que sustentam sua autonomia e seu desenvolvimento.

Os três artigos reunidos nesta série aprofundam essa reflexão em etapas sucessivas. O primeiro discute por que empresas estratégicas representam muito mais do que unidades de produção. O segundo amplia a análise para mostrar como as nações constroem – ou deixam de construir – os ecossistemas que sustentam a geração contínua de conhecimento, inovação e desenvolvimento. O terceiro examina por que essas competências voltaram ao centro da competição entre as grandes potências.

Mais do que oferecer respostas definitivas, esta série convida o leitor a revisitar um velho problema sob uma perspectiva diferente. Não se trata de uma discussão sobre empresas, política industrial ou inovação consideradas isoladamente, mas sobre a capacidade de uma sociedade continuar aprendendo, renovar suas competências e construir seu próprio futuro. Talvez o verdadeiro patrimônio de uma nação não esteja apenas naquilo que ela produz hoje, mas naquilo que preserva para continuar criando amanhã.

Este artigo inaugura essa série de três ensaios e parte de uma pergunta que raramente ocupa o centro do debate público brasileiro: como sucessivas decisões econômicas, institucionais e tecnológicas contribuíram para reduzir a capacidade do país de produzir conhecimento, desenvolver empresas inovadoras, formar engenheiros e construir autonomia industrial?

A pergunta que realmente importa

Este artigo inaugura uma série de três ensaios dedicada a uma questão que raramente ocupa o centro do debate público brasileiro: como sucessivas decisões econômicas, institucionais e tecnológicas contribuíram para reduzir a capacidade do país de produzir conhecimento, desenvolver empresas inovadoras, formar engenheiros e construir autonomia industrial?

As nações não se tornam prósperas simplesmente porque acumulam empresas [1, 3]. Tornam-se prósperas porque preservam e ampliam sua capacidade de criar continuamente novas empresas, novas tecnologias e novos conhecimentos – um processo que a literatura descreve como acumulação de capacidades tecnológicas [4, 5].

Ao longo desta série, proponho examinar alguns dos mecanismos menos visíveis desse processo. Meu objetivo é compreender por que algumas sociedades conseguem fortalecer progressivamente sua base científica, tecnológica e industrial, enquanto outras, pouco a pouco, perdem a capacidade de inovar e de construir o próprio futuro.

Comecemos, então, por uma pergunta aparentemente simples.

O que desaparece quando desaparece uma empresa?

A resposta mais imediata parece óbvia: desaparecem empregos, máquinas, prédios, marcas, linhas de produção e participação de mercado.

Mas essa resposta é incompleta. Empresas tecnologicamente sofisticadas raramente existem isoladamente. Ao seu redor formam-se redes de fornecedores, laboratórios, centros de engenharia, empresas de software, universidades, escolas técnicas, instituições de financiamento, compradores exigentes e profissionais altamente qualificados. Em outras palavras, elas fazem parte de um ecossistema [6-8].

Foi justamente esse ecossistema que, de maneiras diferentes, começou a se enfraquecer em diversos setores da economia brasileira ao longo das últimas décadas.

Neste artigo, uso a palavra “ecossistema” para designar o conjunto de empresas, universidades, fornecedores, centros de pesquisa, profissionais, instituições e relações que tornam possível criar e aperfeiçoar tecnologias de forma contínua.

E é justamente esse ecossistema que costuma permanecer invisível quando se discute desindustrialização.

Desmontar uma empresa pode levar poucos meses. Vender uma fábrica, ainda menos. Desarticular um ecossistema tecnológico pode ser relativamente rápido. Reconstruí-lo, porém, é muito mais difícil: exige décadas de investimento, aprendizado acumulado, formação de pessoas e coordenação entre empresas, universidades e instituições. O que pode ser destruído em poucos anos frequentemente leva uma geração para ser reconstruído.

Perdem-se rotinas de engenharia. Perdem-se fornecedores que aprenderam a resolver problemas específicos. Técnicos treinados na prática. Vínculos entre empresas e universidades. Laboratórios que deixam de receber encomendas. E, em especial, perdem-se jovens que, olhando ao redor, deixam de enxergar futuro em uma carreira tecnológica.

A desindustrialização, portanto, não é apenas uma mudança na composição do PIB. É também uma lenta dissolução de ambientes onde o conhecimento produtivo se acumula, circula e se transforma em novas competências. Sob essa perspectiva, a inovação não depende apenas de empresas individuais, mas também do funcionamento de sistemas nacionais de inovação [9, 10].

Essa é a parte menos visível – e talvez mais grave – da história.

O verdadeiro diferencial das economias avançadas não reside apenas em suas empresas, mas também na capacidade de preservar, ampliar e renovar continuamente os ambientes onde novas tecnologias são desenvolvidas [11].

As economias avançadas sabem disso. Por isso, não tratam suas empresas estratégicas apenas como unidades privadas isoladas. Sabem que, por trás de certas empresas, existem cadeias inteiras de conhecimento, fornecedores, profissionais e instituições. Quando uma delas se enfraquece, não se perde apenas um empreendimento. Perde-se um nó de articulação [8, 10].

A Fig. 1 apresenta a ideia central que orienta todo este artigo.

A figura procura distinguir dois tipos de resultados produzidos por uma empresa estratégica. Os primeiros são imediatamente visíveis – produtos, empregos, receitas, exportações e impostos. Os segundos são menos perceptíveis, mas frequentemente mais importantes: conhecimento acumulado, aprendizado organizacional, redes de fornecedores, formação de engenheiros, inovação, confiança e novas oportunidades de empreendedorismo. É justamente esse patrimônio invisível o que explica por que determinadas empresas exercem um papel muito maior do que sugerem seus balanços financeiros e por que sua perda pode produzir consequências que se estendem por décadas.

Esse é o ponto central deste artigo.

Uma empresa pode ser substituída como pessoa jurídica. Um ecossistema, não. Essa distinção constitui um dos elementos centrais da moderna teoria dos ecossistemas tecnológicos [6, 7].

Porque ecossistemas tecnológicos não se compram nem se improvisam. Eles são construídos lentamente, sobre uma base de confiança, continuidade institucional, aprendizado coletivo e sucessivas gerações de engenheiros, pesquisadores e técnicos formados na solução de problemas concretos.

É por isso que a pergunta relevante talvez não seja apenas se determinada empresa era ou não competitiva em determinado momento.

A pergunta mais profunda é outra: o que acontece com um país quando desaparecem os ambientes capazes de produzir conhecimento tecnológico?

Muito além da fábrica

Um exercício mental ajuda a compreender essa ideia.

Imagine um telefone celular.

À primeira vista, ele parece ser apenas um produto fabricado por uma empresa. Mas basta observar um pouco mais atentamente para perceber que seu funcionamento depende de uma impressionante rede de conhecimentos acumulados.

Os semicondutores podem ter sido produzidos em Taiwan. A memória eletrônica, na Coreia do Sul. Os sensores ópticos, no Japão. O sistema operacional, nos Estados Unidos ou na China. Os materiais especiais vieram da Austrália, do Chile ou do Brasil. O projeto do chip exigiu softwares sofisticados desenvolvidos ao longo de décadas, enquanto sua fabricação dependeu de equipamentos produzidos por centenas de empresas altamente especializadas.

Nenhuma dessas organizações, isoladamente, seria capaz de fabricar um telefone celular. O mesmo raciocínio vale para um automóvel, um equipamento médico, um avião comercial ou um satélite.

Todas essas tecnologias resultam da interação entre milhares de empresas, universidades, centros de pesquisa, fornecedores especializados, engenheiros e instituições de financiamento.

Essa ideia está longe de ser nova. Já no final do século XVIII, Alexander Hamilton observava que o desenvolvimento manufatureiro produzia muito mais do que mercadorias: gerava aprendizado, inovação, aperfeiçoamento técnico e novas densidades produtivas [12].

Em 1791, poucos anos depois da independência americana, ele apresentou ao Congresso dos Estados Unidos um relatório que contrariava a visão dominante de sua época. Em vez de considerar as manufaturas apenas como um setor econômico, Hamilton argumentou que elas constituíam escolas permanentes de aprendizagem técnica e inovação.

Dois séculos depois, a moderna economia da inovação chegaria, essencialmente, à mesma conclusão, embora utilizando outra linguagem: nações tornam-se prósperas porque acumulam capacidades produtivas e tecnológicas antes de acumular riqueza [4, 11].

É justamente essa rede de relações que caracteriza um ecossistema tecnológico, um conjunto de ambientes complexos de aprendizado coletivo e de inovação distribuída [7, 9, 10].

Não por acaso, países que ocupam posições de liderança industrial procuram preservar essas conexões com enorme cuidado. Estados Unidos, Alemanha, Japão, Coreia do Sul e, mais recentemente, China compreenderam que sua vantagem competitiva não reside apenas em algumas empresas bem-sucedidas, mas na capacidade de manter vivos os ambientes onde novas empresas e novas tecnologias continuam surgindo [3, 13].

A Fig. 2 mostra como esses ecossistemas se fortalecem ao longo do tempo.

Mais do que produzir bens, empresas intensivas em tecnologia produzem aprendizado. Cada novo projeto mobiliza universidades, fornecedores, institutos tecnológicos, empresas de software, centros de engenharia e milhares de profissionais. O resultado não é apenas um novo produto colocado no mercado, mas também o fortalecimento de uma rede inteira de densidades produtivas e científicas.

O caso brasileiro

Talvez esse seja um dos aspectos menos compreendidos da trajetória econômica brasileira das últimas décadas. Quando se analisam os efeitos da abertura econômica dos anos 1990, o debate costuma concentrar-se no destino de empresas individuais: quem sobreviveu, quem foi vendido, quem faliu ou perdeu relevância no mercado. Essa perspectiva, embora importante, deixa escapar o fenômeno mais profundo.

Na eletrônica de consumo, empresas como Gradiente, CCE e Sharp do Brasil perderam o protagonismo alcançado nas décadas anteriores. No setor de autopeças, nomes tradicionais como Metal Leve e Cofap tiveram reduzida a posição estratégica que, durante muitos anos, ocuparam na indústria brasileira. Cada episódio, observado isoladamente, parece representar apenas uma decisão empresarial ou uma mudança de mercado. Observados em conjunto, revelam algo muito mais significativo: o enfraquecimento progressivo de ecossistemas industriais inteiros, com impactos sobre fornecedores, centros de pesquisa, formação de engenheiros, inovação e capacidade tecnológica nacional [14, 15].

Essa trajetória também teve efeitos menos visíveis. À medida que cadeias produtivas sofisticadas se enfraqueciam, engenheiros, pesquisadores e técnicos passaram a encontrar menos oportunidades para desenvolver tecnologias complexas dentro do próprio país. O resultado foi um processo gradual de evasão de talentos, perda de conhecimento acumulado e redução da atratividade das carreiras tecnológicas para as novas gerações. Nas décadas seguintes, esse movimento passou a se refletir também na diminuição do interesse pela formação em engenharia e, mais recentemente, em outras áreas científicas estratégicas – tema que discuti em maior detalhe no artigo “O país que já não precisa de engenheiros” [16].

Mas essa abordagem se concentra apenas na parte visível do processo.

O problema não foi apenas o desaparecimento de determinadas empresas.

Foi o enfraquecimento gradual dos ecossistemas que elas ajudavam a sustentar.

Cada empresa articulava fornecedores especializados, prestadores de serviços, escritórios de engenharia, laboratórios de ensaio, fabricantes de componentes, universidades, escolas técnicas e profissionais altamente qualificados. Quando esses núcleos começaram a desaparecer, toda essa rede perdeu densidade.

Poucos exemplos ilustram melhor esse processo do que o do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD). Criado para desenvolver tecnologias nacionais em telecomunicações, o CPqD era muito mais do que um instituto de pesquisa. Constituiu um ambiente de cooperação entre universidades, empresas, engenheiros, fabricantes de equipamentos e políticas públicas voltadas para a inovação [17, 18].

Durante anos, pesquisadores da Unicamp, engenheiros do CPqD e técnicos da Telebrás trabalharam conjuntamente na solução dos mesmos desafios tecnológicos, criando um fluxo contínuo de conhecimento que nenhum contrato de transferência de tecnologia seria capaz de reproduzir.

Sua influência ultrapassava os laboratórios de Campinas. O CPqD articulava um dos mais sofisticados ecossistemas brasileiros de desenvolvimento em telecomunicações e infraestrutura digital. A trajetória da fibra óptica ilustra esse processo. A partir da articulação entre Unicamp, Telebrás e CPqD, o país desenvolveu fibras ópticas, lasers e sistemas de comunicação óptica quando essa tecnologia ainda dava seus primeiros passos no mundo. Mais do que produzir conhecimento científico, esse esforço permitiu sua transferência para empresas nacionais, como ABC X-Tal, Elebra e Brascel, culminando, em 1984, na entrada em operação de um sistema óptico baseado em tecnologia brasileira.

Naquele momento, o Brasil não estava simplesmente produzindo fibras ópticas. Estava aprendendo a dominar uma tecnologia que definiria a infraestrutura mundial das décadas seguintes. O verdadeiro produto daquele esforço não era apenas cabos ou lasers, e sim centenas de engenheiros, pesquisadores, fornecedores e empresas que aprendiam, simultaneamente, a resolver problemas tecnológicos de fronteira. Era exatamente esse processo coletivo de aprendizagem que constituía o ativo mais valioso daquele ecossistema.

A trajetória da fibra óptica mostra que havia ali um ecossistema completo: universidade, empresa estatal, centro de pesquisa, fabricantes privados, engenheiros e uma política pública voltada para a construção de competências nacionais.

Esse arranjo começou a se desfazer na década de 1990. A reestruturação e posterior privatização do Sistema Telebrás alteraram a arquitetura institucional que havia sustentado esse ecossistema por quase duas décadas. Embora o CPqD tenha preservado parte importante de sua excelência científica ao transformar-se em fundação privada, deixou de desempenhar a função para a qual havia sido concebido: atuar como núcleo articulador de uma estratégia nacional de desenvolvimento tecnológico em telecomunicações.

A mudança refletia uma transformação mais ampla na forma de compreender o desenvolvimento. A prioridade passou a ser a expansão dos serviços, a competição entre operadores e a eficiência econômica do setor. Esses objetivos trouxeram avanços importantes para a universalização e a modernização das telecomunicações brasileiras. Em contrapartida, a construção deliberada de competências nacionais deixou de ocupar posição central nas políticas públicas. O país passou a privilegiar a difusão de tecnologias desenvolvidas no exterior em vez de preservar o ecossistema responsável por criá-las.

Países podem voltar a importar equipamentos, licenciar tecnologias ou construir novas fábricas. Muito mais difícil é reconstruir a comunidade científica, tecnológica e empresarial que um dia aprendeu a desenvolvê-los.

Vista à luz da competição tecnológica do século XXI, essa trajetória revela uma contradição histórica. Enquanto o Brasil enfraquecia um dos mais sofisticados mecanismos de articulação entre universidades, pesquisa e indústria de que dispunha, as grandes potências passaram a investir justamente nesse tipo de infraestrutura estratégica. Essa talvez seja a principal lição do caso do CPqD: ecossistemas tecnológicos não surgem espontaneamente nem podem ser reconstruídos rapidamente. Quando são desarticulados, perde-se muito mais do que instituições; perde-se parte da capacidade de um país continuar produzindo conhecimento, formando pessoas e desenvolvendo tecnologias próprias.

Outras empresas, entretanto, conseguiram preservar parte desses ecossistemas. Casos como WEG, Marcopolo, Embraer e Moura demonstram que o Brasil possuía capacidade para construir organizações tecnologicamente sofisticadas, apoiadas em engenharia própria, inovação contínua e redes nacionais de fornecedores. Longe de contradizer o argumento deste artigo, esses exemplos o reforçam. Eles mostram que, quando um ecossistema consegue sobreviver, torna-se possível competir internacionalmente mesmo em setores de elevada intensidade tecnológica.

É justamente essa diferença entre destruir e preservar ecossistemas que ajuda a compreender por que algumas empresas brasileiras alcançaram projeção global enquanto outras desapareceram juntamente com as redes de conhecimento que as sustentavam.

Esses casos demonstram que o problema brasileiro nunca foi a ausência de competência empresarial, mas sim a dificuldade de transformar experiências bem-sucedidas em uma estratégia nacional de longo prazo.

Em outras palavras, o Brasil demonstrou ser capaz de criar empresas competitivas; o que não conseguiu foi transformar esses casos em uma política consistente de formação de ecossistemas tecnológicos.

Ecossistemas não se compram

É justamente essa diferença que explica por que determinadas organizações valem muito mais do que sugerem seus balanços financeiros.

Durante décadas, a Petrobras foi muito mais do que uma empresa de petróleo. Ao enfrentar o desafio da exploração em águas profundas, tornou-se o núcleo de um vasto ecossistema de engenharia e inovação. Cada plataforma exigia soluções inéditas em geologia, metalurgia, automação, instrumentação, soldagem, engenharia naval e ciência dos materiais, mobilizando universidades, institutos de pesquisa, empresas de engenharia e centenas de fornecedores nacionais.

Assim como o programa Apollo impulsionou a inovação nos Estados Unidos, a exploração em águas profundas transformou-se em uma extraordinária escola de engenharia para o Brasil. Seu legado mais importante não foi apenas ampliar a produção de petróleo, mas formar competências, fortalecer redes de cooperação e consolidar capacidades tecnológicas que continuaram irradiando conhecimento muito além da própria companhia.

Nos anos seguintes, parte desse ecossistema passou por um processo de fragmentação. Entre 2016 e 2022, a Petrobras promoveu um amplo programa de venda de ativos, que incluiu refinarias, subsidiárias, participações em infraestrutura de transporte e distribuição, além da descontinuidade de sua atuação no segmento de fertilizantes nitrogenados. Independentemente da avaliação econômica dessas medidas, elas alteraram a configuração de um sistema que, durante décadas, havia integrado pesquisa, engenharia, fornecedores e capacidades industriais em torno da companhia. A discussão relevante para este artigo não é apenas patrimonial, mas, acima de tudo, tecnológica: em que medida a fragmentação desses ativos afetou os processos de aprendizado, inovação e coordenação produtiva que se haviam consolidado ao seu redor?

O caso dos fertilizantes é particularmente ilustrativo. Ao interromper sua atuação nesse segmento, a Petrobras deixou de integrar uma cadeia que articulava gás natural, indústria química, engenharia de processos e produção agrícola, reduzindo a participação de um importante agente nacional em um setor estratégico para a segurança alimentar e para a política industrial [19].

O caso do CPqD evidencia outro aspecto importante. Instituições dessa natureza não acumulam apenas conhecimento científico. Elas concentram equipes experientes, metodologias, relações de confiança, redes de cooperação e memória tecnológica construída ao longo de décadas. Mesmo quando parte dessa competência permanece ativa, a fragmentação dessas conexões reduz significativamente a capacidade do país de gerar novas soluções em telecomunicações e em infraestrutura digital.

Algo semelhante ocorreu com as grandes empresas brasileiras de engenharia pesada.

Embora frequentemente lembradas apenas pelas grandes obras que executavam, elas também constituíam importantes escolas de engenharia. Em seus quadros formaram-se sucessivas gerações de projetistas, especialistas em geotecnia, estruturas, hidrelétricas, portos, metrôs, refinarias e grandes sistemas industriais. Cada empreendimento representava, ao mesmo tempo, uma obra física e um processo de aprendizagem coletiva.

Independentemente das circunstâncias políticas, econômicas e jurídicas que levaram às profundas transformações desses setores, o resultado agregado foi o enfraquecimento de ambientes que haviam levado décadas para serem construídos.

Esse talvez seja um dos aspectos mais difíceis de medir.

Quando uma empresa estratégica desaparece, não desaparecem apenas os empregos.

Desaparecem também as relações de confiança entre fornecedores.

Laboratórios deixam de receber encomendas.

Universidades perdem parceiros tecnológicos.

Engenheiros deixam de enfrentar problemas complexos.

Empresas menores deixam de aprender com as empresas maiores.

E, pouco a pouco, reduz-se a capacidade do país de produzir tecnologias próprias.

A Fig. 3 sintetiza essa dinâmica, ao evidenciar que a desestruturação de um ecossistema tecnológico raramente ocorre de forma abrupta.

Trata-se de um processo cumulativo no qual pequenas perdas sucessivas – de fornecedores, competências, projetos, investimentos e profissionais qualificados – acabam produzindo um efeito sistêmico. Ao longo do tempo, reduz-se a capacidade do país de criar novas empresas, desenvolver tecnologias próprias e competir de forma sustentável em setores intensivos em conhecimento.

É justamente por isso que países tecnologicamente avançados tratam determinados setores como questões de segurança nacional.

Não se trata apenas de proteger empresas.

Trata-se de preservar os ambientes onde o conhecimento continua sendo produzido.

Porque fábricas podem ser reconstruídas.

Ecossistemas, não.

Eles dependem de décadas de aprendizado compartilhado, formação de pessoas, relações de confiança e continuidade institucional.

É justamente essa diferença que ajuda a explicar por que as grandes potências contemporâneas passaram a disputar não apenas mercados, mas também cadeias produtivas completas, centros de pesquisa, talentos, fornecedores e infraestrutura tecnológica.

O verdadeiro patrimônio de uma nação

Vista sob essa perspectiva, a desindustrialização deixa de ser apenas uma discussão sobre crescimento econômico ou competitividade.

Ela passa a ser uma discussão sobre capacidade nacional.

Ao longo de muitos anos, difundiu-se a ideia de que, em uma economia globalizada, empresas poderiam ser facilmente substituídas por importações mais baratas. Se um fabricante desaparecesse, outro ocuparia seu lugar. Se determinada tecnologia fosse necessária, bastaria comprá-la no mercado internacional.

Essa lógica pode funcionar para produtos padronizados. Não funciona para tecnologias complexas.

Nenhum país compra um ecossistema tecnológico no mercado internacional.

Pode-se importar uma máquina. Adquirir uma fábrica. Licenciar uma patente.

O que não se compra são décadas de aprendizagem coletiva, milhares de engenheiros experientes, redes de fornecedores especializados, relações de confiança entre universidades e empresas e a capacidade de transformar conhecimento em inovação contínua.

É justamente por isso que as principais economias do mundo voltaram a colocar a política industrial no centro de suas estratégias de desenvolvimento.

Os Estados Unidos aprovaram o CHIPS and Science Act para fortalecer seu ecossistema de semicondutores. O Inflation Reduction Act mobilizou centenas de bilhões de dólares para reconstruir cadeias produtivas ligadas à energia, baterias, minerais críticos e manufatura avançada [20, 21]. A China continua ampliando investimentos em inteligência artificial, telecomunicações, robótica, materiais estratégicos e infraestrutura digital. Japão, Coreia do Sul e União Europeia seguem o mesmo caminho.

Embora diferentes entre si, todas essas estratégias partem de uma mesma compreensão.

O verdadeiro patrimônio de uma nação não reside apenas nas empresas que ela possui hoje.

Reside, sobretudo, no potencial de criar as empresas de amanhã.

Essa é a principal lição que o Brasil ainda precisa reaprender.

Durante muito tempo discutimos empresas como se fossem ativos isolados.

Na realidade, elas são os pontos visíveis de uma rede muito maior, formada por universidades, institutos de pesquisa, fornecedores, escolas técnicas, engenheiros, cientistas, empreendedores e políticas públicas.

Quando essa rede se fortalece, novas empresas surgem quase naturalmente.

Quando ela desaparece, torna-se cada vez mais difícil reconstruir o caminho perdido.

No próximo artigo desta série veremos uma das maiores ironias da história econômica recente.

Enquanto o Brasil desmontava sucessivamente seus instrumentos de política industrial, praticamente todas as grandes potências reconstruíam exatamente esses mesmos instrumentos.

Talvez essa também seja a principal diferença entre os países que lideram a economia do conhecimento e aqueles que permanecem dependentes dela. Uns se esforçam para reforçar seus ecossistemas capazes de gerar continuamente novas tecnologias. Outros continuam discutindo apenas o destino de empresas isoladas.

Como já advertia Friedrich List, a riqueza de uma nação não depende apenas daquilo que ela produz. Depende, sobretudo, daquilo que ela continua sendo capaz de criar [1, 12].

Talvez essa também seja a resposta para a pergunta que abriu este artigo: quando um país perde seus ecossistemas tecnológicos, ele perde muito mais do que empresas. Perde, pouco a pouco, a capacidade de criar o próprio futuro.

Porque o futuro não pertence aos países que apenas produzem. Pertence aos que continuam aprendendo a produzir aquilo que ainda não existe.

Bibliografia

1.    List, F., The National System of Political Economy, ed. S.S. Lloyd. 1909, London: Longmans, Green and Co.

2.    de Melo, C.P., O país que desistiu de subir. Substack, 2026. https://celsopdemelo.substack.com/publish/post/203961611.

3.    Chang, H.-J., Kicking Away the Ladder: Development Strategy in Historical Perspective. 2002, London: Anthem Press.

4.    Lall, S., Technological Capabilities and Industrialization. World Development, 1992. 20(2): p. 165–186.

5.    Dosi, G., Technical Change and Industrial Transformation: The Theory and an Application to the Semiconductor Industry. 1984, London: Macmillan.

6.    Moore, J.F., Predators and Prey: A New Ecology of Competition. Harvard Business Review, 1993. 71(3): p. 75–86.

7.    Adner, R., The Wide Lens: A New Strategy for Innovation. 2012, New York: Portfolio/Penguin.

8.    Jacobides, M.G., C. Cennamo, e A. Gawer, Towards a Theory of Ecosystems. Strategic Management Journal, 2018. 39(8): p. 2255–2276.

9.    Lundvall, B.-Å., National Systems of Innovation: Towards a Theory of Innovation and Interactive Learning. 1992, London: Pinter Publishers.

10.  Nelson, R.R., National Innovation Systems: A Comparative Analysis. 1993, New York: Oxford University Press.

11.  Cimoli, M., G. Dosi, e J.E. Stiglitz, Industrial Policy and Development: The Political Economy of Capabilities Accumulation. 2009, Oxford: Oxford University Press.

12.  Hamilton, A., Report on the Subject of Manufactures. Founders Online, 1791.

13.  Freeman, C., Technology Policy and Economic Performance: Lessons from Japan. 1987, London: Pinter.

14.  Suzigan, W., Indústria brasileira: origem e desenvolvimento. 2000, São Paulo: Hucitec.

15.  Coutinho, L. e J.C. Ferraz, Estudo da competitividade da indústria brasileira. 1994, Campinas: Papirus; Editora da UNICAMP.

16.  de Melo, C.P., O país que já não precisa de engenheiros. Jornal GGN, 2026. jornalggn.com.br/artigos/o-pais-que-ja-nao-precisa-de-engenheiros-por-celso-pinto-de-melo/.

17.  CPqD, História do CPqD. 2024.

18.  Dantas, M., A lógica do capital-informação. 1988, Rio de Janeiro: Contraponto.

19.  de Melo, C.P., Conhecer o território. A Terra é Redonda, 2026. https://aterraeredonda.com.br/conhecer-o-territorio/

20.  The White House, Inflation Reduction Act Guidebook. 2022.

21.  The White House, CHIPS and Science Act. 2022, The White House: Washington, DC.


Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Celso Pinto de Melo

Doutor em Física (UCSB, 1980), mestre em Física (1975) e engenheiro químico (1973) pela UFPE, é Professor Titular aposentado da UFPE e Pesquisador 1-A do CNPq. Atuou como Fulbright Senior Scholar no MIT (1986–1987). Lidera pesquisas em polímeros condutores, transporte em filmes finos e nanocompósitos aplicados à interface com sistemas biológicos e sensores. É autor de mais de 160 artigos e diversas patentes nacionais e internacionais, e orientou mais de 60 alunos de pós-graduação. Foi presidente da Sociedade Brasileira de Física (2009–2013), vice-presidente e conselheiro da SBPC, além de diretor do CNPq e pró-reitor da UFPE. Membro titular da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Pernambucana de Ciências. Recebeu a Comenda (2002) e a Grã-Cruz (2009) da Ordem Nacional do Mérito Científico, além da Ordem de Rio Branco (2007), por suas contribuições às ciências físicas no Brasil.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados