6 de agosto de 2026

Os portões de Múcio, por Manuel Domingos Neto

O militar brasileiro, desde a Independência, voltou-se contra o “inimigo interno”. Não se preparou para dizer não às vontades imperiais.
Reprodução

Ministro da Defesa José Múcio sugeriu “abrir os portões” a uma possível agressão dos EUA, admitindo falta de capacidade militar.
Múcio atua para apaziguar quartéis e não reformou a Defesa Nacional; Lula elogia sua gestão sem contrariar militares.
Comentário gerou debate sobre soberania e pode influenciar eleições, atraindo apoio da “família militar” e polarizando nacionalistas.

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Os portões de Múcio

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por Manuel Domingos Neto

Reações a uma frase de José Múcio, proferida essa semana, mostram o desaviso do democrata brasileiro quanto à orientação prevalecente para a Defesa Nacional.

Referindo-se a possível agressão estadunidense em nosso território, Múcio disse: o mais sensato seria “abrir os portões”, posto não termos capacidade de nos defender.

O fato se deu em evento na Confederação Nacional da Indústria, diante de pessoas ávidas de investimentos públicos de longo prazo em equipamentos e tecnologias de guerra.

Múcio usou o prosaísmo reacionário que marcou sua carreira política.

Revoltados, alguns pedem sua cabeça. Indignação ingênua. Proposição temerária. Descabida.  

O Ministro foi jocoso, não aleivoso. Não temos, de fato, capacidade de reação militar ao imperialismo. As corporações de que dispomos integram esquema comandado pelo Pentágono para o exercício do domínio mundial. Na cultura militar vigente, não há lógica em se preparar para tecer armas com a potência que nos “protege”.

No mais, nossos portões nunca estiveram efetivamente fechados aos estrangeiros gananciosos.

O militar brasileiro, desde a Independência, voltou-se contra o “inimigo interno” e os vizinhos. Persiste cultuando glórias do tempo colonial-escravista. Não se preparou para dizer não às vontades imperiais. A Armada, então, persiste batendo continência para descendentes de reis portugueses e repudiando o Almirante Negro..

Múcio não recebeu o cargo para mudar a Defesa Nacional. O presidente confiou-lhe o apaziguamento de quartéis agitados por devaneios golpistas e delírios militaristas. Não recebeu o cargo para reposicionar militarmente o país na ordem mundial em construção.

A rigor, Múcio sequer é propriamente ministro: não apresentou nem gerenciou planos, não formulou estratégias, não propôs reformas, não conteve voracidades corporativas. Assumiu-se como alegre porta-voz de quartéis.

O presidente da República rendeu-lhe elogios e afetos. Lula quis governar sem contrariar as fileiras. Tal como seus antecessores, respeitou a plena autonomia castrense. Não assumiu o papel constitucional de comandante supremo das Forças Armadas.

Outras instituições relevantes para controle da autonomia corporativa também evitaram contrariar as fileiras. O STF e o Senado foram obsequiosos com comandantes que permitiram militância golpista nos quartéis. Nem a Corte nem o Senado foram atacados pelos que querem a cabeça de Múcio.

A sugestão de “abrir os portões” prejudicou a campanha eleitoral?

Aqui, a prosa fica mais complexa. Múcio deu mote inflamado para o discurso da nacionalismo de esquerda, pouco ou nada afeito às questões da Defesa Nacional.

Mas, por outro, cativou contingente expressivo em eleição apertada: a “família militar”.

Ao justificar desajeitadamente investimentos públicos em material de guerra, Múcio pode ter neutralizado eleitores propensos a votar na direita. Se for deposto, a direita pode ganhar as eleições.

O inegável é que o debate propiciado pelo jocoso ministro mostra o quanto os nacionalistas de esquerda precisam avançar na defesa consistente da Soberania Nacional.

Um projeto efetivo de Defesa Nacional deve ser arvorado para que o próximo mandato de Lula suplante os desafios à soberania do Brasil.

Manuel Domingos Neto nasceu em Fortaleza em 1949. Graduou-se em História pela Universidade de Paris VI, em 1976. Obteve o título de Mestre em Sociedade e Economia na América Latina, pela Universidade de Paris III, em 1976, e o título de Doutor em História pela mesma universidade, em 1979. Foi pesquisador da Casa de Rui Barbosa, superintendente da Fundação Centro de Pesquisas Econômicas e Sociais do Piauí, estado pelo qual também foi deputado federal. Professor da Universidade Federal do Ceará e professor associado da Universidade Federal Fluminense, foi também vice-presidente do CNPq e presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED).

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Manuel Domingos Neto

Manuel Domingos Neto nasceu em Fortaleza em 1949. Graduou-se em História pela Universidade de Paris VI, mestre pela Universidade de Paris III e Doutor em História pela mesma universidade, em 1979. Professor da Universidade Federal do Ceará e professor associado da Universidade Federal Fluminense

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