Ceuta e a fronteira da indiferença
por Natalia Fingermann
No começo do século XXI, uma tragédia migratória como a ocorrida recentemente em Ceuta, cidade espanhola localizada no norte da África, teria, provavelmente, provocado manifestações mais visíveis de organizações humanitárias e de agências internacionais vinculadas às Nações Unidas.
A imprensa internacional, apoiada por essas vozes, talvez buscasse não apenas identificar as circunstâncias e os possíveis responsáveis pela crise, mas também discutir os mecanismos de responsabilização das redes sociais e dos atores que disseminaram as fake news sobre a abertura da fronteira, contribuindo para o deslocamento de mais de 70 mil marroquinos e levando à morte mais de 80 pessoas.
Provavelmente, os nomes de algumas das vítimas seriam conhecidos. Amir, o jovem de 17 anos que abandonou seu sonho de cursar medicina em troca de uns trocados para ajudar sua família. Mohamed, o pai de três filhos, que atravessou o mar a nado, aos seus 45 anos, imaginando que um dia iria levar sua família à Disney. Essas histórias fictícias traçadas neste texto seriam filmadas e disseminadas de maneira tão repetitiva que todos entenderiam que a migração não se trata somente de números, nem de análises especializadas sobre os interesses geopolíticos. A migração é um fenômeno humano, movido pelo desejo, pelo medo e pelo sonho de se construir um futuro melhor.
As redes de solidariedade seriam, assim, fortalecidas, envolvendo artistas, intelectuais e lideranças políticas. Cartazes com os nomes das vítimas seriam erguidos durante concertos, jogos de futebol e diversos eventos. Organizações humanitárias mobilizariam parte da população civil e, juntas, cobrariam as investigações e as responsabilizações devidas. Multas bilionárias seriam impostas às plataformas digitais, enquanto as lideranças políticas ausentes seriam punidas nas urnas.
Entretanto, o ano é 2026. As crises se multiplicam desde o fim da pandemia, com guerras na Ucrânia, em Gaza, no Irã e no Sudão, além de catástrofes climáticas em grandes proporções. Imagens comoventes surgem e somem tão rapidamente das telas dos celulares, que as vítimas de Ceuta, mal conhecidas, já começam a ser esquecidas. O que importa não são as vidas perdidas, nem a ilusão vendida, nem a maldade exercida. A instrumentalização da migração surge como uma ferramenta geopolítica legítima contra aquele país “rebelde”, vencedor da Copa do Mundo, que clama pela integração entre os povos nas falas de seu jogador Lamine Yamal.
A resposta à crise parece simples. A União Européia busca reforçar seus mecanismos de proteção fronteiriça. A Itália, governada pela primeira-ministra Giorgia Meloni, já suspendeu o acordo de livre migração com a Espanha, transformando a tragédia de Ceuta em mais um problema de engenharia fronteiriça.
Em 2036, se essa lógica prevalecer, tudo estará protegido. Os muros serão mais altos, os sistemas panópticos de vigilância estarão cada vez mais integrados e as fronteiras cada vez mais automatizadas. Porém, os valores da solidariedade não serão mais por reconhecidos por nós mesmos. Quiçá, o sejam pelos robôs e pela inteligência artificial.
Natalia Fingermann – Professora de Relações Internacionais ESPM
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