Caetano Veloso em seu aniversário *
por Urariano Mota
Para nossa maior surpresa, Caetano Veloso completa hoje 84 anos. Mas como 84?! Se as estações do tempo mandam nas vida, delas podemos dizer o que Nelson Rodrigues disse em relação ao vídeo-tape em uma discussão: esse tempo é burro!
Assim dizemos porque ao ver os rostos dos criadores, nós nos vemos neles. Não tanto pela forma física, em feições quanto aos corpos, que estão melhores do que os nossos nestes dias. Em alguns, como Paulinho da Viola e Caetano Veloso, estão mais bonitos. Como uma lei geral para indivíduos que não são um primor de aparência aos 20 anos, o passar do tempo os tornou belos. Mas não é à mais recente forma física que me refiro. A verdade é que ao ver seus rostos nos refletimos neles. Mas o rosto que vemos não é o da fotografia destes dias. Por trás deles, ou melhor, bem à sua frente, estão os rostos do que fomos na sua juventude.
A idade real é a que resiste em nossa memória dos seus mais fecundos tempos e rebeldia. Mais que resiste, toma conta de tudo e se sobrepõe a qualquer outra. Daí, a burrice dos calendários que não sabem nem percebem que Caetano Veloso é
“Eu quero ir, minha gente, eu não sou daqui
Eu não tenho nada, quero ver Irene rir
Quero ver Irene dar sua risada”
Na época, achávamos que a risada de Irene vinha a ser a metralhadora de Che na Bolívia.
Então a refletir, descobrimos um fato contraditório nas vidas dos artistas. Ao contrário do que recomendam os conservadores, ou a mais sensata ponderação, eles não se abrigaram da tempestade em cabanas de urgência. Ainda que não tenham vestido uma couraça, uma roupa de herói durante a ditadura, à sua maneira eles dormiram no chão feito Ho Chi Minh no Vietnã. Eles foram expulsos da casa onde moravam, como Karl Marx em Londres. Eles estiveram próximos dos olhos vidrados de Che na Bolívia.
Eles estiveram com os heroicos militantes da resistência que foram às últimas. Isto é, eles cantaram compuseram, desafiaram, sofreram o terrorismo enquanto tudo era fascismo no horizonte do Brasil.
Como escrevi e publiquei no romance “A mais longa duração da juventude”, traduzido para o inglês por Peter Lownds sob o título de Never-Ending Youth:
“- É muito melhor compositor. Não acha? – Vargas me questiona.
– Hum. Quem é maior? – respondo sem entender a pergunta.
– Caetano Veloso, é claro. Está dormindo? – Ele volta.
– Eu? Nada. Sim, Caetano Veloso é bom – falo.
– Ele não é bom. Ele é o melhor compositor da música popular brasileira – Vargas responde.
– Não, aí é demais – falo. – Olhe, já é uma batalha gostar de Caetano. Mas ver Caetano como o melhor é demais”.
E a discussão corria noite adentro em 1972. Os foquistas, como chamávamos aos guerrilheiros urbanos, que assaltavam bancos para arrancar dinheiro para a revolução, os foquistas eram partidários de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Já os partidários do movimento de massa para derrubar a ditadura, como os comunistas do Partido Comunista do Brasil, Partido Comunista Brasileiro e Ação Popular Marxista-Leninista, estávamos ao lado de Chico Buarque, Paulinho da Viola e Geraldo Vandré. Hoje, à distãnia, podemos ver que os dois lados estavam certos em suas ambições estéticas. Os geniais compositores, agora com mais de 80 anos de idade, continuam suas fecundas jornadas.
No presente, vemos que nós não amávamos apenas a música. Nós queríamos tudo, todo o céu na terra. Nós éramos as almas vivas do nosso tempo. Aquela história não morreu, os grandes compositores nos cantam até agora.
Em outra página do romance “A mais longa duração da juventude” escrevi:
“Vejo as águias encanecerem, acompanho os fios brancos de suas cabeças se tornarem frágeis, quebradiços, e me falo e percebo que algumas não piscaram no alto. No píncaro do tempo, não decaíram, como se fossem uma revolta contra a biologia, contra a organização da vida que se desorganiza e se desintegra quando chega ao fim. Parodiando Goethe no poema Um e Tudo, eles foram atravessados pela alma do mundo, e com ela lutaram sem descanso, como se vivos pudessem ter a eternidade. Tomaram outras formas, mas mantiveram a permanência do ser da juventude”.
Calendário, recolhe-te à tua insignificância! Pois contar mais de 80 não é compreender a marcha dos dias. A idade real de um criador é a dos seus tempos mais fecundos. Agora e sempre, até a penúltima gota das tempestades.
Viva Caetano Veloso!
*Publicado em português no Portal Vermelho Caetano Veloso em seu aniversário – Vermelho e no Brasil 247 Caetano Veloso em seu aniversário – Brasil 247. Em inglês no The Left Chapter Caetano Veloso on his birthday
Urariano Mota – Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.
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