Flávio escancara os portões do Brasil para Trump e Rubio
por Gustavo Tapioca
Jamil Chade dirigiu a Flávio Bolsonaro a pergunta que deveria atravessar a campanha presidencial: “Afinal, quem governará o Brasil se o senhor for eleito?”
Não é uma pergunta retórica. É a questão central de uma eleição na qual o candidato da extrema-direita brasileira se apresenta também como candidato de Donald Trump e Marco Rubio, líderes da ultradireita continental que pretende recolocar a América Latina sob o comando de Washington. Flávio pede o voto dos brasileiros. Mas precisa dizer a quem obedecerá: a Trump e Rubio?
Em carta aberta apresentada no programa De Cabeça pra Baixo, Jamil perguntou se Flávio permitirá a presença de tropas e bases norte-americanas no Brasil; se autorizará bombardeios sob o pretexto de combater organizações classificadas por eles como terroristas; se entregará nossos minerais estratégicos à indústria militar dos Estados Unidos.
A pergunta final de Jamil é, se eleito, Flávio romperá com a China, o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009, quando ultrapassou os Estados Unidos e representa sozinha mais de 30% do destino das exportações do Brasil, gerando os maiores superávits da balança comercial.
A cada pergunta, aparece a mesma ameaça: a perda da soberania nacional. Mas já não discutimos apenas hipóteses. Trump e Rubio mostraram na Venezuela, em Cuba, no Caribe o que estão dispostos a fazer.
A Venezuela invadida
Em 3 de janeiro, forças especiais norte-americanas invadiram Caracas e sequestraram o presidente Nicolás Maduro e a primeira-dama Cilia Flores. Mais de 150 aeronaves participaram da operação, preparada pelo Pentágono e pela CIA. Maduro e Cilia foram arrancados de dentro do Palácio Presidencial Miraflores e de seu país, levados aos Estados Unidos e encarcerados em Nova York.
Oito meses depois, continuam presos no Metropolitan Detention Center, no Brooklyn, aguardando julgamento sob as leis do mesmo país que invadiu a Venezuela para capturá-los.
Podem-se fazer todas as críticas ao governo de Maduro. Nenhuma concede aos Estados Unidos o direito de invadir um país soberano, sequestrar seu presidente e levá-lo como prisioneiro para Nova York. Isso não é aplicação internacional da Justiça. É a justiça do império: o poder militar transformado em polícia, tribunal, júri e executor. A operação, que deixou também 32 militares cubanos mortos, foi uma advertência ao continente: o país que não obedecer poderá ser bloqueado, bombardeado, invadido ou ter seu presidente sequestrado.
Oipetróleo.
A violência abre os portões. As empresas entram depois para carregar o petróleo, os minerais e as riquezas do país submetido. Este método é uma advertência explícita ao Brasil. Quando Flávio Bolsonaro promete alinhamento irrestrito e submissão total a Washington, diz o que oferece em troca: nosso petróleo, nossos minerais críticos, nossas terras raras e a soberania nacional.
Primeiro, Trump e Rubio mostram as armas e do que são capazes de fazer. Depois, “negociam” com os governantes as riquezas do país. Flávio Bolsonaro é o primeiro da fila.
Genocídio político.
Cuba é outro exemplo. O bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos a Cuba atravessa mais de seis décadas. Em 2026, Trump acrescentou ao cerco financeiro e comercial o estrangulamento energético.
Washington passou a ameaçar países, empresas e navios que fornecessem petróleo à ilha. A interrupção do combustível venezuelano e o recuo de outros fornecedores mergulharam Cuba em apagões, paralisaram transportes e atingiram hospitais, escolas, fábricas e a conservação de alimentos.
A crise humanitária não é efeito colateral da política norte-americana. É o seu instrumento. Trump anunciou que não entraria mais “petróleo nem dinheiro” em Cuba. O imperador aperta o pescoço de um povo e depois decide quanto ar permitirá que ele respire.
A doutrina que pode chegar ao Brasil
No Caribe e no Pacífico, a violência assumiu outra forma. Desde setembro de 2025, as Forças Armadas dos Estados Unidos realizaram dezenas de ataques contra embarcações acusadas de transportar drogas. Até março deste ano, segundo autoridades norte-americanas, 45 ataques haviam matado 157 pessoas.
Não houve abordagem, investigação, defesa ou julgamento. Houve mísseis. Washington não apresentou provas verificáveis sobre a identidade das vítimas ou a carga transportada. Bastou classificá-las como “narcoterroristas” para condená-las à morte.
Entre os mortos estava Chad Joseph, de Trinidad e Tobago. A viúva de Chad afirma que ele era pescador e perguntou indignada: onde estão as drogas? Onde estão as provas? Isso aqui onde moramos é casa de traficante?
Especialistas em direito internacional advertiram que matar suspeitos que não representam ameaça imediata pode configurar execução extrajudicial. A maior potência militar da história do planeta transformou homens pobres do Caribe em alvos de guerra.
É esta doutrina que poderá chegar ao Brasil com Flávio Bolsonaro.
Jamil informou que 18 países da região fecharam acordos militares com Trump em apenas 17 meses. A Colômbia autorizou forças norte-americanas. O Equador ampliou a cooperação militar. O Paraguai aceitou o estabelecimento de uma base dos Estados Unidos. E o Brasil?
Flávio não oculta que está inserido no projeto dos Estados Unidos de Trump e Rubio.
O Brasil é a peça decisiva
A ofensiva militar acompanha uma transformação política. Argentina, Equador, Bolívia, Chile, Peru e Colômbia passaram a ser governados por forças de direita ou extrema-direita aliadas à ultradireita liderada por Trump e Rubio.
Nem todos são iguais. Mas o resultado geopolítico é evidente: diminuiu o espaço dos governos progressistas enquanto Washington ampliou sua influência.
O Brasil tornou-se a peça decisiva — e o petróleo ajuda a explicar por quê. O país encerrou 2025 com 17,488 bilhões de barris de reservas provadas, volume que o coloca entre as 15 maiores reservas do mundo e na segunda posição da América Latina, atrás apenas da Venezuela.
Cerca de 80% da produção brasileira já vem do pré-sal, a gigantesca província petrolífera que se estende de Santa Catarina ao Espírito Santo. E as reservas continuam crescendo: em 2025, para cada 100 barris extraídos, o Brasil incorporou outros 147 às reservas provadas.
Agora, uma nova fronteira aparece no litoral amazônico.
Neste mês de agosto, a Petrobras confirmou a presença de hidrocarbonetos no poço Morpho, perfurado em águas ultra profundas a 175 quilômetros da costa do Amapá, na Bacia da Foz do Amazonas. A descoberta ainda está em avaliação e não pode ser tratada como reserva comercial comprovada. Mas confirma o potencial da Margem Equatorial, que poderá conter mais de 30 bilhões de barris. Somente a Foz do Amazonas poderá guardar 5,7 bilhões de barris recuperáveis.
É um patrimônio colossal: petróleo, pré-sal, terras raras, minerais críticos, água doce e biodiversidade. Um país com essas riquezas não é apenas um território a ser politicamente alinhado. É uma potência a ser controlada.
E Flávio Bolsonaro já disse a Washington o que poderá oferecer se for eleito.
A oferta de Flávio
Em 28 de março, diante da ultradireita reunida na CPAC de Dallas, Flávio apresentou o Brasil como o campo de batalha no qual será decidido o futuro do hemisfério e declarou: “O Brasil é a solução para os Estados Unidos romperem a dependência da China em minerais críticos, especialmente terras raras.”
Não falou em desenvolver uma indústria brasileira, dominar a tecnologia de processamento ou agregar valor às nossas riquezas — como Lula costuma ressaltar. Flávio apresenta os minerais brasileiros como solução para a vulnerabilidade estratégica dos Estados Unidos diante da China.
No mesmo discurso, atacou o alinhamento comercial do Brasil com os chineses e pediu que o chamado “mundo livre” monitorasse nossas eleições e exercesse pressão diplomática sobre as instituições brasileiras.
A troca estava exposta no mesmo palanque: ajuda política dos Estados Unidos para chegar ao Palácio do Planalto; riquezas estratégicas brasileiras “para libertar Washington da dependência de Pequim.” O grau de submissão chegou ao inacreditável. Na resposta a uma carta de Flávio, Marco Rubio agradeceu sua “generosa oferta de colocar uma equipe de transição à nossa disposição, caso seja eleito”.
Antes mesmo de receber um único voto, Flávio já oferecia a Washington a transição de um governo brasileiro que ainda nem existia.
Depois de tomar o controle majoritário sobre 65 bilhões de barris venezuelanos, Trump e Rubio sabem exatamente o que está em jogo na eleição brasileira. E Flávio já lhes mostrou o que pretende colocar sobre a mesa.
Uma família submissa
O entreguismo é uma história contada em público, por gestos, discursos e bandeiras. Jair Bolsonaro prestou continência à bandeira dos Estados Unidos em Miami, em 2017. Repetiu o gesto em 2019, quando já era presidente, e proclamou: “Brasil e Estados Unidos acima de tudo.”
Sete anos depois, a bandeira norte-americana reapareceu no lançamento da campanha presidencial de Flávio, em Copacabana. Dividia o espaço com as bandeiras brasileiras.
Eduardo deixou o Brasil em março de 2025 e instalou-se nos Estados Unidos. De lá, passou a mobilizar aliados de Trump e pedir punições contra autoridades, instituições, empresas e a economia do próprio país que o elegeu deputado.
Reivindicou participação na pressão que resultou no tarifaço de 50% contra produtos brasileiros. Enquanto trabalhadores e empresas pagavam a conta, apresentava o prejuízo imposto ao Brasil como vitória bolsonarista.
A continência de Jair, a atuação de Eduardo em Washington e a oferta de Flávio na CPAC formam uma única imagem. O pai bateu continência. Eduardo pediu punições contra o próprio país. Flávio oferece a Trump e Rubio nossas riquezas e o Palácio do Planalto.
E se Lula ganhar?
Os Bolsonaro escancaram os portões do Brasil para a entrada triunfal dos Estados Unidos de Trump e Rubio — uma potência que hoje governa as Américas pela ameaça, pelo bloqueio e pela violência.
A pergunta de Jamil Chade precisa ser repetida até o dia da eleição: Se Flávio Bolsonaro chegar ao Palácio do Planalto, quem governará o Brasil?
O candidato deve responder. Mas a Venezuela invadida, Cuba estrangulada, os corpos deixados no Caribe, a ingerência explícita dos Estados Unidos para eleger candidatos submissos e o servilismo da família Bolsonaro antecipam a resposta.
Trump e Rubio não apoiam Flávio Bolsonaro para que ele governe o Brasil. Apoiam para governar o Brasil por meio dele. A pergunta que fica é:
E se Lula ganhar?
Gustavo Tapioca – Jornalista. Ex-diretor do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás. Consultou do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Autor de “Meninos do Rio Vermelho” e de “Entre o golpe e a eleição“.
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