26 de agosto de 2026

Trump entrou na eleição. Xi Jinping observa, por Gustavo Tapioca

As tarifas de Trump, o apoio a Flávio Bolsonaro e os US$ 10,6 mi enviados ao Texas colocam a eleição brasileira na disputa entre EUA e China
Imagem gerada por IA

Lula e Trump conversaram sobre tarifas e comércio, mas sanções e pressões dos EUA ao Brasil continuam vigentes.
China acompanha eleição brasileira, debate na CGTN destaca disputa geopolítica entre EUA e Brasil.
Flávio Bolsonaro transferiu US$ 10,6 mi aos EUA; PF investiga se verba financiou atuação política de Eduardo Bolsonaro.

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Trump entrou na eleição. Xi Jinping observa

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por Gustavo Tapioca

Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva conversaram por uma hora e 20 minutos, na sexta-feira, 21 de agosto. O telefonema foi descrito pelo governo brasileiro como amistoso e cordial. Os dois presidentes discutiram as tarifas impostas pelos Estados Unidos, concordaram em preservar as relações comerciais e suas equipes retomaram as negociações. 

Foi um movimento importante. Lula reabriu um canal direto com Trump sem aceitar suas acusações, recuar na defesa da soberania ou interromper a aproximação do Brasil com a China e os BRICS. Mas uma conversa cordial não encerra uma ofensiva política. 

As tarifas continuam em vigor. As sanções, as restrições diplomáticas e as pressões contra autoridades brasileiras não desapareceram. Tampouco mudou a escolha política feita pela Casa Branca: Donald Trump apoia Flávio Bolsonaro e deseja vê-lo derrotar Lula em 4 de outubro. 

A Reuters registrou uma advertência decisiva: integrantes do governo brasileiro não esperam mudanças substanciais nas tarifas antes da eleição. O telefonema, portanto, abriu uma negociação, mas não retirou de cena o instrumento de pressão. 

Pode ter havido uma trégua. Mas o que está em jogo é muito maior do que o comércio entre os dois países. 

A China acompanha a eleição  

No dia seguinte ao telefonema, a CGTN, rede internacional de televisão ligada ao Estado chinês, exibiu um debate sobre a crise entre Brasil e Estados Unidos. O título do programa formulava a questão central: “trata-se apenas de um conflito em torno das eleições ou de uma disputa pelo poder no hemisfério?” Especialmente pelo Brasil. 

Participaram do debate o cientista político Vinicius Rodrigues Vieira, o analista chileno Francisco Dominguez e o historiador norte-americano Peter Kuznick. Dominguez situou as tarifas dentro de uma estratégia mais ampla: a tentativa dos Estados Unidos de restaurar sua hegemonia sobre a América Latina e impedir a consolidação de uma ordem multipolar. O Brasil seria o alvo principal porque reúne dimensão continental, peso econômico, liderança regional, presença decisiva nos BRICS e uma relação estratégica crescente com a China. 

Kuznick foi mais direto. Para ele, as tarifas constituem uma interferência na política interna brasileira, destinada a criar um ambiente econômico e político que reduza as possibilidades de reeleição de Lula. 

A decisão editorial da CGTN de exibir o debate, um dia depois da conversa entre Lula e Trump, não deve ser ignorada. A China acompanha atentamente a eleição brasileira. 

Pequim sabe que o confronto não se limita a Lula e Flávio Bolsonaro. A eleição decidirá se o Brasil continuará a defender uma política externa autônoma, fortalecer os BRICS e ampliar suas relações com a China ou alinhar-se incondicionalmente a Washington. 

Trump quer derrotar Lula. Mas precisa também de alguém disposto a governar o Brasil de acordo com os interesses estratégicos dos Estados Unidos. Esse candidato já existe. Tem nome e sobrenome: Flávio Bolsonaro. 

Preservar, libertar, devolver, realinhar 

Flávio Bolsonaro apresenta-se como representante brasileiro da ultradireita internacional, cultiva relações alinhadas com Trump e com altos dirigentes do governo norte-americano. E procura transformar a intervenção de Washington em apoio à sua candidatura.  

Seus seguidores usam a bandeira dos Estados Unidos e o boné trumpista do MAGA até no lançamento da campanha do filho de Jair Bolsonaro a presidente do Brasil.  Seu irmão Eduardo Bolsonaro se orgulha de vestir a camisa de Trump e mora, desde abril de 2025, nos Estados Unidos conspirando contra a soberania brasileira. 

 Jair Bolsonaro, preso e condenado, continua sendo a principal referência política do grupo.  A eleição do seu filho 01 abriria o caminho para a anistia do pai, dos militares e dos demais envolvidos na tentativa golpista do 8 de janeiro de 2023, que previa até o assassinato de Lula e Alckmin, já empossados como Presidente e Vice, além do Ministro Alexandre de Moraes. 

A candidatura de Flávio Bolsonaro, portanto, reúne diferentes interesses numa mesma operação: preservar a dinastia Bolsonaro, libertar Jair, devolver o governo à ultradireita e realinhar o Brasil com Washington e a ultradireita continental liderada por Donald Trump e Marco Rubio. 

Mas um novo elemento torna essa relação ainda mais grave. 

Mais de 60 milhões de reais 

Entre 13 de fevereiro e 29 de maio de 2025, Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master, transferiu, a pedido de Flávio Bolsonaro, US$ 10,6 milhões — cerca de R$ 61 milhões — para os Estados Unidos. Os recursos passaram pela Entre Investimentos e Participações e chegaram, em seis remessas, ao Havengate Development Fund LP, sediado no Texas. 

O fundo é administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e definido pelo próprio Flávio como pessoa de confiança do irmão. Seu escritório, o Law Offices of Paulo Calixto PLLC, aparece nos registros como agente legal da estrutura.  

A Polícia Federal investiga se os R$ 61 milhões ou parte desses recursos, apresentados como financiamento do filme Dark Horse, foi utilizada para custear a permanência e a atuação política de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Eduardo e Flávio negam qualquer desvio de finalidade. 

A movimentação tornou-se pública em maio de 2026, durante as investigações relacionadas ao Banco Master e a Daniel Vorcaro. Flávio afirmou que explicaria as operações. O prazo prometido passou. Até agora, não foi apresentada uma demonstração pública capaz de esclarecer inteiramente a origem, a finalidade e o destino do dinheiro, embora Flávio afirme que “isso é página virada”. 

As perguntas permanecem sem respostas. Por que US$ 10,6 milhões foram enviados ao Texas? Qual foi a operação econômica que justificou as remessas? Quem são os beneficiários efetivos da Havengate? O dinheiro continua nos Estados Unidos? As autoridades norte-americanas receberam comunicações sobre as transferências? 

Não existe, até o momento, prova pública de que Trump ou qualquer integrante de seu governo esteja usando essas informações para chantagear Flávio Bolsonaro. Mas seria irresponsável fingir que nada disso tem importância política. 

O que Washington sabe? 

Operações internacionais desse porte deixam rastros. Transferências realizadas pelo sistema financeiro norte-americano podem ser examinadas por bancos, órgãos de controle e autoridades como a Financial Crimes Enforcement Network, o Departamento de Justiça e a divisão de investigação criminal da Receita norte-americana. 

Isso não significa que exista uma investigação criminal formal contra Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos. Significa que Washington tem meios institucionais para conhecer movimentações financeiras realizadas em seu território. 

Surge, então, uma pergunta inevitável: o governo que apoia Flávio Bolsonaro sabe mais sobre os US$ 10,6 milhões do que os eleitores brasileiros? A pergunta torna-se ainda mais delicada quando se observa o comportamento político do candidato. 

Flávio e Eduardo Bolsonaro defenderam sanções dos Estados Unidos contra o Brasil. Buscaram o apoio de Trump e Marco Rubio para pressionar autoridades brasileiras. Transformaram interesses familiares — especialmente a libertação de Jair Bolsonaro — numa pauta de negociação com um governo estrangeiro. 

Agora, o candidato apoiado por Washington, Trump e Rubio precisa explicar uma movimentação milionária realizada justamente no país de seu principal aliado internacional. O problema não é apenas jurídico. É uma questão de soberania. 

Um presidente da República não pode chegar ao Palácio do Planalto sob a suspeita de que outro governo dispõe de informações capazes de condicionar suas decisões.  

A artilharia contra Fábio Luís  

Enquanto as operações de Flávio no Texas permanecem insuficientemente explicadas, a campanha da ultradireita procura transferir o centro do debate para Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, como a mídia corporativa o apelidou e o bolsonarismo adotou, para atacar Lula. 

O método não é novo. 

No artigo “O Brasil foi roubado”, publicado em 24 de agosto, mostramos como Fernando Cerimedo transformou material produzido no Brasil numa falsa denúncia internacional de fraude eleitoral. A mentira voltou ao país, circulou entre militares, abasteceu a contestação apresentada pelo PL e ajudou a preparar o ambiente político do 8 de janeiro. 

Cerimedo está preso, mas a máquina transnacional ligada ao bolsonarismo e ao trumpismo continua funcionando. Em 2026, ela não precisa esperar a apuração dos votos para entrar em ação. Pode começar antes, fabricando escândalos contra Lula, protegendo Flávio e preparando milhões de eleitores para rejeitar novamente o resultado das urnas. 

A operação consiste em lançar suspeitas contra um filho de Lula, repeti-las nas redes e utilizar a própria repercussão como se fosse prova. A dúvida produz a manchete; a manchete fornece credibilidade; a credibilidade alimenta milhões de mensagens, que chegam às mãos e mentes dos milhões de eleitores pelos mais variados veículos de comunicação sobretudo o telefone celular.  

Foi assim que a Lava Jato ajudou a retirar Lula da eleição de 2018. Primeiro veio a acusação. Depois, sua multiplicação. Finalmente, a repetição passou a ser apresentada como evidência. 

Desgastar Lula com ou sem Lulinha 

A ofensiva de 2026 esconde uma contradição: exige explicações ilimitadas de Lula e de seus familiares, mas trata como detalhe a transferência de US$ 10,6 milhões feita por Flávio Bolsonaro ao Texas. Não é difícil compreender a urgência. 

A pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira, 24 de agosto mostrou Lula com 41% e Flávio Bolsonaro com 37% no primeiro turno — empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. Na simulação de segundo turno, a disputa é ainda mais apertada: Lula aparece com 46%, contra 45% de Flávio. O levantamento ouviu 2.006 eleitores entre 21 e 23 de agosto. 

A vantagem de Lula não é confortável. A pesquisa confirma que, apesar das tarifas, das ameaças externas e da campanha de desinformação, o presidente permanece numericamente à frente, mas Flávio se aproxima. Para alterar definitivamente esse quadro, não basta promover o candidato de Trump. É necessário desgastar Lula. Com ou sem “Lulinha”. 

China entra no cenário 

Antes de conversar com Trump, Lula já havia falado durante mais de uma hora com Xi Jinping. 

Na conversa de 27 de julho, o presidente chinês manifestou apoio ao Brasil contra a interferência externa e defendeu o fortalecimento da coordenação estratégica entre os dois países. Lula e Xi trataram também de inteligência artificial, satélites, processamento de minerais críticos, fertilizantes e das negociações entre China e Mercosul. 

Não são temas secundários. São setores centrais da disputa tecnológica, econômica e geopolítica entre Washington e Pequim. O governo chinês não declarou apoio a um candidato e não deve interferir na decisão dos brasileiros. Mas sabe que uma vitória de Flávio Bolsonaro poderá interromper projetos, rever acordos, enfraquecer os BRICS e devolver o Brasil à área de influência direta dos Estados Unidos. 

A eleição de 4 de outubro decidirá, portanto, muito mais do que quem ocupará o Palácio do Planalto. Com Lula, o Brasil continuará procurando manter relações com Estados Unidos, China, Rússia, Europa e o Sul Global sem aceitar a tutela de nenhuma potência. 

Com Flávio, Trump terá em Brasília um aliado incondicional. E poderá contar com o presidente do país mais importante da América do Sul a serviço dos interesses estratégicos de Washington. E da ultradireita global. 

Há ainda uma pergunta que não pode ser esquecida: se eleito, Flávio Bolsonaro governará como presidente do Brasil ou como presidente de Trump? 

Ao que tudo indica, Trump e os Estados Unidos já estão na eleição brasileira. 

Xi Jinping e a China também. 

Gustavo Tapioca – Jornalista. Ex-diretor do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás. Consultou do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Autor de “Meninos do Rio Vermelho” e de “Entre o golpe e a eleição“.

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Gustavo Tapioca

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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