Honestino: Ditadura nunca mais
Ao devolver rosto, voz e humanidade ao líder estudantil que o Estado sequestrou, torturou, assassinou e fez desaparecer, o filme de Aurélio Michiles transforma a memória em um alerta contra a volta do autoritarismo em 2027
por Gustavo Tapioca
Assisti ao filme Honestino. Não saí do cinema apenas emocionado. Saí indignado.
Emoção é uma experiência íntima. Indignação é uma tomada de posição. E o filme de Aurélio Michiles não nos pede apenas que nos comovamos com a história de um jovem brilhante assassinado aos 26 anos. Exige que chamemos pelo nome aquilo que o Estado brasileiro fez.
Honestino Guimarães não “desapareceu”. Foi capturado por agentes do Estado. Foi torturado. Foi assassinado. Seu corpo foi ocultado. Sua família foi condenada a uma espera sem sepultura. E, durante décadas, o país conviveu com esse crime como se o silêncio pudesse funcionar como uma forma de absolvição.
O filme corrige essa gramática da ditadura. O que a repressão chamava de prisão era sequestro. O que chamava de interrogatório era tortura. O que apresentava como confronto era execução. E o que registrava como desaparecimento era assassinato acompanhado da ocultação do cadáver.
Para mim, essa história não está apenas nos documentos, nos arquivos ou na tela do cinema.
O homem por trás do símbolo
Conheci Honestino em 1966 e 1967. Naquele tempo, ele ainda não era um símbolo nacional da resistência.
Era o Barbudinho, como eu o chamava.
Por isso, ao assistir ao filme, não vi apenas a história de um líder estudantil. Reencontrei o rosto de um jovem que conheci e de uma geração à qual pertenci — e que o Estado brasileiro tentou destruir.
A maior qualidade do filme está em não transformar Honestino numa estátua. Antes de se tornar símbolo, ele foi um jovem. Um estudante de inteligência extraordinária. Um dirigente político. Um leitor. Um homem que escrevia cartas e poemas. Um amigo capaz de falar de política, literatura, música e cinema. Um pai impedido de ver a filha crescer.
A ditadura precisava desumanizar seus adversários para poder eliminá-los. Chamava-os de subversivos, terroristas, inimigos internos. Aurélio Michiles percorre o caminho inverso: devolve a Honestino o rosto, a voz, os afetos, as dúvidas, os sonhos e a condição humana.
As cenas interpretadas por Bruno Gagliasso estão subordinadas às cartas, aos poemas, às imagens de arquivo e aos depoimentos. O ator não tenta substituir Honestino, tarefa impossível. Empresta-lhe provisoriamente o corpo e a voz.
Nenhuma interpretação consegue competir com a brutalidade do que realmente aconteceu. A montagem de André Finotti, premiada no Festival do Rio, transforma fragmentos dispersos numa acusação coerente: a juventude, a Universidade de Brasília, as invasões do campus, a organização estudantil, as prisões, a clandestinidade e o desaparecimento formam uma sequência de ação e reação.
O filme também mostra algo que ainda precisa ser repetido: a violência da ditadura não começou com o AI-5. Antes de dezembro de 1968, estudantes já eram perseguidos, espancados, presos e torturados. O endurecimento do regime não inaugurou a repressão. Apenas lhe concedeu uma licença ainda mais ampla para matar.
Foi a ditadura que fechou os espaços de participação, destruiu as organizações legais, invadiu universidades, cassou direitos, suprimiu eleições e empurrou milhares de brasileiros para a clandestinidade.
Primeiro, o regime proibiu a política.
Depois, acusou de criminosos aqueles que continuaram fazendo política.
O retorno do Barbudinho
Honestino ainda cruzaria meu caminho uma última vez.
Era um dia de 1972. Eu já namorava Maria Luiza Falcão, minha companheira há mais de cinquenta anos, quando surgiu uma notícia inesperada. Um primo de Maria Luiza, antigo colega de Honestino em Brasília, chegara com ele.
A porta se abriu.
Lá estava o Barbudinho.
Muito mais magro do que o rapaz que eu guardava na memória. A barbicha continuava a mesma, mas o país havia mudado ao redor dele.
Honestino já vivia completamente na clandestinidade. Não havia tempo para longas conversas ou lembranças. Precisávamos encontrar um lugar seguro onde pudesse permanecer.
A solução foi a casa de praia dos pais de Maria Luiza, no Condomínio Interlagos, entre Salvador e Arembepe. Honestino ficou ali menos de uma semana.
Foram dias estranhos. Tentávamos viver como se ainda fosse possível alguma normalidade, sabendo que a normalidade havia sido destruída.
Depois, ele partiu.
Nunca mais nos veríamos.
Em outubro de 1973, veio a notícia. Não recordo a data exata em que a recebi. Recordo apenas a frase:
— Ele caiu.
Naqueles anos, todos sabíamos o significado dessas duas palavras.
A mensagem veio por intermédio de sua companheira. Ela carregava no colo uma menina de aproximadamente três anos.
Juliana.
Honestino havia sido capturado no Rio de Janeiro. A ditadura o torturou, assassinou e fez desaparecer. O Estado passou a tratá-lo como se tivesse evaporado.
Mas pessoas não desaparecem por vontade própria dentro das instalações da repressão.
Alguém sequestrou Honestino. Alguém o interrogou. Alguém o torturou. Alguém determinou sua morte. Alguém ocultou seu corpo.
Alguém sabe o que aconteceu.
A casa que guardou a memória
A menina Juliana cresceu. O Brasil voltou a eleger presidentes. A Constituição de 1988 foi promulgada. Comissões investigaram os crimes do regime. Documentos foram encontrados. Outros permaneceram escondidos.
Para as novas gerações, Honestino se transformou em nome de livros, relatórios, ruas, pontes e monumentos.
Para mim, continuava sendo uma pessoa.
Quase quarenta anos depois, eu estava novamente na casa de Interlagos. A mesma casa que abrigara Honestino em 1972.
Maria Luiza me chamou:
— Gustavo, venha conhecer alguém.
Era Juliana. A filha que Honestino vira pela última vez quando ela tinha três anos. Ao lado dela estava Lucas, o neto que ele jamais pôde conhecer.
Abraçamo-nos. Houve lágrimas. Houve silêncio.
Naquele instante, compreendi algo que talvez ainda não tivesse conseguido formular: a ditadura podia matar pessoas, esconder corpos, destruir documentos e espalhar o medo. Mas não conseguira interromper a história.
Na mesma casa onde um jovem clandestino buscara abrigo estavam agora sua filha e seu neto.
A vida sobrevivera à morte.
A casa permanecia.
Mudavam as pessoas e o tempo.
Um corpo ainda procurado
O cinema restitui presença a Honestino. Nenhuma encenação, porém, consegue preencher o vazio deixado por um corpo que nunca foi encontrado.
O filme apresenta versões terríveis sobre seu destino. Honestino pode ter sido lançado ao mar. Pode ter sido enterrado num formigueiro. Nenhuma das hipóteses pôde ser comprovada definitivamente.
É difícil até escrever essas palavras.
Mas é necessário escrevê-las porque o horror não pode ser suavizado para proteger a sensibilidade dos que preferem não saber. O constrangimento deve recair sobre o Estado que praticou o crime e sobre os agentes que esconderam a verdade.
Em agosto de 2026, durante uma sessão do filme no Palácio da Alvorada, a certidão de óbito retificada de Honestino foi mostrada ao presidente Lula. Agora está escrito no documento: “morte não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro”.
Foram necessários 53 anos para que essas palavras chegassem ao papel.
A retificação representa uma vitória histórica dos familiares. Mas uma certidão não localiza o corpo, não identifica todos os responsáveis nem substitui a responsabilização dos criminosos.
Onde está o corpo de Honestino?
Enquanto essa pergunta permanecer sem resposta, seu desaparecimento continuará sendo um crime do presente.
O filme, o livro e as vítimas
Nosso livro Entre o golpe e a eleição foi lançado em Brasília em 13 de agosto, no mesmo dia em que Honestino estreou nos cinemas brasileiros.
A coincidência não poderia ser mais significativa.
O livro é também uma homenagem aos jovens que sonharam com a liberdade e foram sequestrados, torturados, assassinados ou condenados ao desaparecimento durante os 21 anos da ditadura civil-militar.
Nos instantes finais, o filme deixa de contar apenas a história de Honestino e abre a tela para a dimensão coletiva do crime.
Aparecem os números.
São 434 mortos e desaparecidos políticos reconhecidos nominalmente pela Comissão Nacional da Verdade. Pelo menos 8.350 indígenas mortos por ação direta ou omissão do Estado. Outros 1.196 camponeses e apoiadores mortos ou desaparecidos entre 1961 e 1988. E milhares de brasileiros presos, torturados, perseguidos, cassados ou obrigados a deixar o país.
Não são números definitivos. São os casos e as estimativas que as investigações conseguiram reconstituir em meio aos arquivos destruídos, aos cadáveres ocultados e ao silêncio mantido durante décadas.
Por trás de cada número havia uma pessoa. Uma família. Uma língua. Uma aldeia. Uma comunidade. Um futuro interrompido.
Honestino foi um entre milhares.
Honramos nele todos os mortos e desaparecidos que a ditadura tentou apagar.
O escárnio diante dos mortos
A defesa da ditadura por Jair Bolsonaro nunca foi apenas retórica.
Em 1999, quando ainda era deputado federal, defendeu uma guerra civil que matasse “uns 30 mil”.
Anos depois, manteve na porta de seu gabinete um cartaz dirigido às famílias que procuravam os desaparecidos da Guerrilha do Araguaia:
— Desaparecidos do Araguaia. Quem procura osso é cachorro.
Enquanto mães, pais, filhos e irmãos buscavam os restos mortais de pessoas assassinadas pelo Estado, um deputado transformava sua dor em objeto de escárnio.
A família de Honestino conhece essa violência. Há mais de meio século espera pelo corpo que a ditadura escondeu.
Em 1º de abril de 2014, a Câmara inaugurou um busto em homenagem a Rubens Paiva, deputado torturado e assassinado pela ditadura em 1971.
Segundo testemunhos de seus familiares, Bolsonaro passou pelo local, cuspiu no monumento e gritou:
— Rubens Paiva teve o que mereceu, comunista desgraçado, vagabundo.
O corpo de Rubens Paiva também nunca foi devolvido.
Sua história e a luta de Eunice Paiva ganhariam o mundo em Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025.
O cinema devolveu presença a Rubens Paiva.
Agora devolve presença a Honestino.
Os dois foram sequestrados pelo Estado. Os dois foram torturados e assassinados. Os dois continuam sem sepultura.
Em 2016, durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff, Bolsonaro dedicou seu voto ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como torturador:
— Pela nossa liberdade, pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff, o meu voto é sim.
A defesa da morte de milhares, o cartaz contra as famílias do Araguaia, a cusparada no busto de Rubens Paiva e a homenagem a Ustra revelam a mesma concepção política: glorificar os assassinos, humilhar as vítimas e impedir o esclarecimento dos crimes do Estado.
De 1964 a 2027
Essa concepção reapareceu na conspiração que tentou impedir a posse do presidente eleito e no plano Punhal Verde e Amarelo, que previa o assassinato de Lula, Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes.
O 8 de janeiro de 2023 destruiu qualquer direito à ingenuidade.
A adoração à violência foi transmitida aos herdeiros do bolsonarismo e agora se articula à ultradireita internacional de Donald Trump e Marco Rubio.
Esse projeto tem um candidato à Presidência.
Impedido de concorrer por estar inelegível e condenado a 27 anos de prisão pela tentativa de golpe, Jair Bolsonaro escolheu o próprio filho, Flávio Bolsonaro, para representá-lo na eleição de outubro de 2026.
Flávio tem se alinhado reiteradamente a Trump e Rubio. Aplaudiu a operação militar norte-americana que invadiu a Venezuela e sequestrou Nicolás Maduro e Cilia Flores, apresentando-a como “um passo importante” para a libertação do país.
Também sustenta os líderes da administração que intensificou o embargo imposto há mais de sessenta anos a Cuba — bloqueio que asfixia a economia da ilha e agrava a fome e o sofrimento de seu povo.
Não se trata apenas de afinidade ideológica. Flávio foi recebido por Trump na Casa Branca, reuniu-se com Rubio e ofereceu ao governo norte-americano acesso à sua equipe de transição caso seja eleito.
Apresenta-se, assim, não apenas como herdeiro do bolsonarismo, mas como representante, no Brasil, do projeto comandado por Trump e Rubio para a América Latina.
É esse projeto que disputa o comando do país na eleição de outubro de 2026.
Pode acontecer novamente?
A resposta confortável seria não. O Brasil tem uma Constituição democrática, eleições regulares e instituições que resistiram a uma tentativa de golpe.
Mas as ditaduras não precisam regressar com os mesmos uniformes, tanques e atos institucionais. Podem chegar pelas urnas, ocupar as instituições e destruir por dentro a democracia que lhes permitiu alcançar o poder.
Mudam os métodos e os instrumentos.
O projeto autoritário permanece.
Se a extrema direita brasileira voltar ao comando do país em 2027, não retornará apenas um grupo político. Voltará um projeto que relativiza o golpe de 1964, homenageia torturadores, ataca o sistema eleitoral e transforma os direitos humanos em inimigos.
Ninguém pode afirmar que os crimes do passado se repetirão da mesma maneira.
Mas ninguém pode mais dizer que sua repetição seja impossível.
Não é inevitável.
Deixou, porém, de ser inimaginável.
É por isso que a eleição de 2026 também será uma disputa entre memória e esquecimento, democracia e autoritarismo, soberania e submissão, futuro e repetição.
Manter a memória viva é o nosso principal exercício de vigilância.
Mais de cinquenta anos depois, continuo preferindo chamar Honestino pelo nome com que o conheci:
O Barbudinho.
A ditadura tentou apagar seu rosto, silenciar sua voz, esconder seu corpo e condenar sua história ao esquecimento.
Não conseguiu.
Honestino está presente.
Ditadura, nunca mais.
Gustavo Tapioca – Jornalista. Ex-diretor do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás. Consultou do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Autor de “Meninos do Rio Vermelho” e de “Entre o golpe e a eleição“.
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