O silêncio ensurdecedor sobre Cuba
por Gustavo Tapioca
Há dez dias, publicamos neste espaço o artigo Cuba: a Gaza do hemisfério que Trump chama de seu. Desde então, os fatos não apenas confirmaram o que escrevemos. Acrescentaram uma pergunta ainda mais incômoda: quanto sofrimento é necessário para romper o silêncio?
O historiador João Carvalho acaba de voltar de Cuba. Encontrou uma população submetida a uma crise que muitos cubanos já consideram pior que o Período Especial, depois da dissolução da União Soviética. Não encontrou um povo rendido. Encontrou consciência política, dignidade e resistência.
Carvalho não foi a Cuba apenas para observar. Participou de uma missão de solidariedade que arrecadou recursos para ajudar na recuperação de equipamentos do Centro Fidel Castro Ruz e na compra de medicamentos básicos, selecionados de acordo com as necessidades apresentadas pelos cubanos.
Antibióticos. Analgésicos. Antipiréticos. Anti-inflamatórios. Remédios comuns no Brasil. Remédios que, em Cuba, podem separar a doença da recuperação — e, às vezes, a vida da morte. João voltou com uma definição: o bloqueio é “um genocídio a conta-gotas”.
Não há uma crise. Há um crime.
Seis meses antes, em fevereiro, a atriz cubana Ikay Romay havia escrito uma carta aberta ao mundo. Não pediu dinheiro. Não pediu soldados. Não pediu caridade. Pediu que o mundo olhasse para Cuba.
Falou de idosos à espera de medicamentos, de hospitais sem materiais básicos, de famílias sem comida e de crianças ameaçadas pela falta de eletricidade que paralisa a ilha. E escreveu: Não há uma crise. Há um crime.
A carta percorreu as redes sociais. Comoveu, recebeu compartilhamentos e desapareceu no fluxo incessante das notícias. O sofrimento continua.
O que Romay denunciou, Carvalho encontrou. Entre os dois relatos há seis meses de distância — e o mesmo abandono. Cuba não deixou de sofrer. Nós é que nos acostumamos ao seu sofrimento.
Até a solidariedade virou ameaça
Enquanto este artigo era preparado, Trump transformou a asfixia presente numa promessa de asfixia permanente. Em decisão publicada oficialmente nesta terça-feira, 25 de agosto, e repercutida na quarta, 26, prorrogou até 14 de setembro de 2027 os poderes empregados para manter o bloqueio contra Cuba.
O documento afirma que a continuidade dessas medidas corresponde ao “interesse nacional dos Estados Unidos”.
A formulação dispensa qualquer disfarce humanitário. Para Washington, prolongar por mais um ano a exaustão de todo o povo cubano é uma política de Estado — e um interesse nacional.
Não é um bloqueio que Trump encontrou e deixou permanecer. É um cerco de mais de 60 amos que decidiu intensificar, sabendo que faltam alimentos, medicamentos, combustível e eletricidade.
A realidade respondeu imediatamente. Para a noite desta quinta-feira, 27 de agosto, a União Elétrica de Cuba estimou um déficit capaz de deixar simultaneamente sem fornecimento até 64% da ilha.
Trump prorrogou o cerco. Cuba apagou.
Rubio: vasta rede subversiva
Em 20 de agosto, o governo dos Estados Unidos impôs sanções a três dirigentes do Instituto Cubano de Amizade com os Povos, o ICAP, e a nove entidades estatais dos setores de mineração, metalurgia e construção, entre elas o Ministério da Construção.
Marco Rubio acusou o ICAP de manter uma “vasta rede subversiva” nos Estados Unidos sob o pretexto de intercâmbios culturais e educacionais. A mensagem é inequívoca: relacionar-se com Cuba, visitar Cuba e prestar solidariedade a Cuba passam a ser apresentados como atividades suspeitas.
Segundo a Associated Press, cidadãos norte-americanos que retornavam de Havana depois de participar das comemorações do centenário de Fidel Castro foram detidos no aeroporto de Miami. Alguns tiveram celulares e computadores apreendidos.
Não se pune apenas a economia cubana. Procura-se intimidar quem se aproxima da ilha.
A solidariedade também entrou na lista de alvos.
Uma vigília diante da própria embaixada
No dia 25 de agosto, representantes de partidos de centro esquerda, movimentos sociais, estudantes, cubanos residentes no Brasil e amigos da ilha reuniram-se na Embaixada de Cuba, em Brasília.
Houve música, poemas, manifestações culturais e discursos contra o embargo de mais de 60 anos, agora intensificado por Trump e Rubio, que asfixia e não permite que o povo cubano viva. O embaixador Víctor Cairo agradeceu o apoio e reafirmou a determinação cubana de defender a independência e a soberania do país.
O encontro teve valor político e humano. Mas sua própria dimensão revela o problema.
A manifestação precisou ser convocada pela representação cubana e realizada na sede da própria Embaixada. Não ocupou as ruas das grandes cidades. Não reuniu multidões. Não interrompeu a rotina nacional. Mal atravessou a barreira das organizações que historicamente apoiam Cuba.
O ato não demonstra que o silêncio foi rompido. Mostra o tamanho do silêncio.
Enquanto um povo inteiro enfrenta uma emergência prolongada, sua denúncia permanece confinada aos cubanos e aos que já estavam dispostos a escutá-los.
O silêncio continua ensurdecedor.
Na entrevista ao programa Os Três Elementos, o jornalista Leandro Demori resumiu o alerta que trouxe de Havana: Cuba sofre um “genocídio em câmera lenta”, o que o historiador João Carvalho, chamou de “genocídio a conta-gotas”.
Eleição presidencial
Não precisamos repetir aqui a ofensiva hemisférica de Trump e Rubio examinada no artigo anterior. O fato novo e decisivo é que ela desemboca na eleição presidencial brasileira de 4 de outubro.
De um lado, Flávio Bolsonaro representa o clã que vestiu o boné do MAGA e a camiseta tricolor cravejada de estrelas brancas, buscou o apoio de Trump e Rubio e alinhou seu projeto à ultradireita internacional liderada pelos dois. A política da dupla transmite uma mensagem que dispensa proclamação oficial: “Cuba é nossa. A Venezuela é nossa. A América Latina é nossa. O hemisfério é nosso.”
Do outro, Luiz Inácio Lula da Silva apresenta a soberania como um dos eixos de sua campanha: o direito do Brasil de preservar o BRICS, integrar a América do Sul e manter relações com Estados Unidos, China, Europa, Rússia, África e América Latina sem receber ordens de nenhuma potência.
Por isso, a eleição brasileira deixou de interessar apenas aos brasileiros.
Xi Jinping observa
A China acompanha os acontecimentos de perto. Em conversa de mais de uma hora com Lula, Xi Jinping declarou apoio à soberania brasileira e rejeitou a interferência externa. O Brasil é o principal parceiro comercial chinês na América Latina, destino de investimentos estratégicos e peça central do BRICS. Uma vitória do candidato apoiado por Trump alteraria esse equilíbrio e atingiria diretamente os interesses de Pequim no continente.
O que acontece com Cuba ajuda a compreender o que está em disputa no Brasil. Primeiro, tenta-se transformar soberania em isolamento. Depois, isolamento em sofrimento. Por fim, sofrimento em rendição.
Cuba não está sozinha
O pequeno encontro de Brasília na Embaixada de Cuba precisa ser o início, não o limite, da solidariedade brasileira.
Artistas, músicos, cineastas, escritores, intelectuais, médicos, sindicatos e movimentos sociais poderiam construir um grande movimento de mobilização nacional: Cuba não está sozinha.
Um espetáculo em São Paulo ou no Rio de Janeiro daria visibilidade à emergência cubana e poderia arrecadar medicamentos, insumos hospitalares e recursos humanitários. Atos semelhantes poderiam ocorrer em outras capitais, universidades, sindicatos e centros culturais.
Essa mobilização deve nascer da sociedade, com transparência, finalidade humanitária e respeito às normas sanitárias. O ministério da Cultura, por exemplo, poderia promover um ato de solidariedade pela soberania de Cuba.
A mensagem é simples
Defender Cuba do cerco é defender o direito de todos os povos — inclusive o brasileiro — de decidir o próprio destino.
Não faltam informações. Não faltam testemunhos. Não faltam denúncias.
O mundo sabe o que está acontecendo em Cuba. Sabe quem impõe o cerco, conhece suas consequências e assiste à lenta destruição das condições de vida de um povo inteiro.
Depois de mais de seis décadas, o silêncio já não pode ser confundido com desconhecimento.
O grito de Ikay Romay ecoou pelo mundo. João Carvalho e Leandro Demori testemunharam. Cubanos e brasileiros reuniram-se em Brasília. Cuba continua resistindo.
Não é Cuba que precisa gritar mais alto. Somos nós que precisamos parar de fingir que não ouvimos.
Diante de um crime prolongado pelos Estados Unidos há seis décadas e criminosamente intensificado por Donald Trump e Marco Rubio o silêncio não é neutralidade.
É cumplicidade.
Gustavo Tapioca – Jornalista. Ex-diretor do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás. Consultou do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Autor de “Meninos do Rio Vermelho” e de “Entre o golpe e a eleição“.
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