8 de setembro de 2026

Produtividade e Inserção na Globalização, por Fernando Nogueira da Costa

A inserção brasileira nas cadeias globais explica boa parte da dependência tecnológica, porém não é porque o superávit comercial a cause.
Dreamstime - Reprodução

A baixa produtividade no Brasil reflete a predominância de serviços presenciais com limites físicos e tecnológicos.
A inserção do Brasil em cadeias globais permite especialização e importação de manufaturas, sem exigir nacionalização total.
O desafio é aumentar produtividade e inovação nos elos estratégicos, superando a visão binária de autonomia versus dependência.

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Produtividade e Inserção na Globalização

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por Fernando Nogueira da Costa

É habitual não se entender a baixa produtividade do trabalho no Brasil e sua inserção na nova divisão internacional do trabalho. A predominância dos serviços ajuda muito a explicar a produtividade média agregada, mas não torna baixa produtividade uma característica “por definição” de todo serviço.

A inserção brasileira nas cadeias globais explica boa parte da dependência tecnológica, porém não é porque o superávit comercial a cause diretamente. Ele viabiliza macroeconomicamente uma especialização internacional na qual o país exporta competitivamente certos bens e importa grande quantidade de manufaturas, componentes e tecnologia.

A produtividade agregada é uma média ponderada da produtividade dos setores. Se aproximadamente 70% do emprego e do valor adicionado se encontram nos serviços, a produtividade média brasileira será necessariamente muito influenciada por eles.

Porém, há enorme heterogeneidade interna: bancos, telecomunicações, software e alguns serviços empresariais podem ter produtividade elevada, enquanto comércio varejista, restaurantes, cuidados pessoais, serviços domésticos, reparações, segurança, ensino presencial e numerosos serviços urbanos têm limitações tecnológicas à expansão do produto por trabalhador.

O ponto decisivo é a observação sobre o encontro direto entre prestador do serviço e consumidor “de um para um”. Um cabeleireiro leva aproximadamente o mesmo tempo para cortar um cabelo hoje e décadas atrás; um professor não consegue multiplicar indefinidamente o número de alunos sem deteriorar a qualidade; médicos e enfermeiros precisam dedicar tempo aos pacientes; garçons precisam atender mesas.

Portanto, parte da chamada “baixa produtividade brasileira” não significa necessariamente trabalhadores brasileiros trabalhando mal. É um efeito de composição: muitos brasileiros trabalham em atividades nas quais o produto por hora possui limites físicos, relacionais ou qualitativos para crescer rapidamente.

Isso torna problemática a interpretação segundo a qual baixa produtividade é devido a trabalhador pouco qualificado, educação insuficiente, salários crescendo acima da produtividade e consequente inflação. A causalidade pode ser muito mais estrutural: urbanização → expansão dos serviços → predominância de atividades presenciais → menor crescimento mensurado da produtividade agregada.

Uma sociedade pode, inclusive, melhorar seu bem-estar aumentando justamente esses serviços. Mais professores, enfermeiros, médicos e cuidadores podem elevar o bem-estar social e, paradoxalmente, reduzir ou pouco aumentar a produtividade convencional medida como valor adicionado por trabalhador.

A desindustrialização também produz um efeito de composição. Durante a industrialização, trabalhadores migram da agricultura de baixa produtividade para indústria e serviços urbanos mais produtivos. Há um grande ganho estrutural. Depois, se a participação industrial diminui e cresce, sobretudo, o emprego em serviços de menor produtividade, desaparece parte desse mecanismo.

Mas daí não decorre ser desejável simplesmente “industrializar para aumentar a produtividade”. Nas economias desenvolvidas, serviços também predominam. A diferença crucial está em quais serviços predominam, sua intensidade de capital, tecnologia, conhecimento e escala.

Uma economia com muitos engenheiros, pesquisadores, programadores, consultorias tecnológicas, logística avançada, serviços financeiros e saúde de alta complexidade também é uma economia de serviços.

A chamada “dependência tecnológica” brasileira precisa ser reinterpretada à luz da globalização produtiva. A indústria contemporânea deixou, em grande medida, de funcionar segundo o modelo nacional integrado imaginado durante a industrialização do século XX.

Uma empresa automobilística instalada no Brasil não precisa produzir no território brasileiro cada semicondutor, sensor, equipamento eletrônico, software embarcado ou máquina utilizada na fábrica. Ela pertence a uma cadeia global de valor.

Uma transnacional decide mundialmente onde localizar: P&D → projeto → componentes → montagem → marketing → financiamento → distribuição.

Nesse contexto, exigir “nacionalização completa” da cadeia produtiva como critério de desenvolvimento pode ser anacrônico. A pergunta relevante passa a ser: em quais elos dessa cadeia o Brasil está inserido e quanto valor, conhecimento e capacidade decisória consegue reter?

Importar não significa necessariamente fracasso industrial. Este ponto merece destaque.

Se um componente eletrônico produzido em enorme escala na Ásia custa US$ 100 e produzi-lo no Brasil custaria US$ 250, obrigar sua fabricação nacional não aumenta automaticamente a eficiência da economia. Pode simplesmente aumentar o custo do produto final.

Uma montadora brasileira pode importar esse componente e concentrar recursos em engenharia, adaptação, montagem, serviços, distribuição ou outros segmentos nos quais possua vantagens. Essa é precisamente a lógica ricardiana da divisão internacional do trabalho, agora reorganizada pelas empresas transnacionais em cadeias produtivas globais.

Portanto, o aumento do coeficiente importado da indústria brasileira não deve ser automaticamente interpretado como “desindustrialização” ou “dependência”.

É preciso distinguir: importação complementar, capaz de aumentar a competitividade da produção nacional, de substituição integral da capacidade produtiva e tecnológica doméstica.

O superávit comercial brasileiro fecha esse sistema. O Brasil encontrou uma inserção internacional capaz de gerar grandes receitas cambiais por meio de: agronegócio + mineração + petróleo + alguns segmentos industriais + outros bens e serviços exportáveis. Essas exportações geram dólares capazes de financiar: máquinas + equipamentos + componentes eletrônicos + insumos químicos + medicamentos + bens de capital + tecnologia + bens industriais finais.

Assim, não existe necessidade econômica de o Brasil produzir nacionalmente tudo aquilo aqui consumido. Isso constitui uma mudança histórica extraordinária em comparação com a velha restrição externa ao crescimento estudada pelo estruturalismo latino-americano.

A antiga dinâmica era aproximadamente: crescimento → aumento das importações → escassez de divisas → desvalorização → inflação → crise cambial → recessão.

A configuração contemporânea pode ser diferente: China + commodities + agronegócio competitivo + pré-sal → superávit comercial → oferta estrutural de divisas → financiamento de importações → reservas internacionais → redução da vulnerabilidade cambial.

Não significa ter desaparecido a restrição externa. O Brasil possui déficit estrutural na conta de rendas — juros, lucros e dividendos enviados ao exterior — e possui déficit em conta corrente. Mas é uma restrição qualitativamente diferente daquela existente durante boa parte do século XX.

Há então um paradoxo. O mesmo fenômeno pode ser descrito por duas narrativas opostas. Na narrativa tradicional da dependência: exportação de commodities + importação de manufaturas = reprimarização e dependência. Em uma interpretação sistêmica da complexidade contemporânea: vantagem competitiva em recursos naturais tecnologicamente sofisticados + geração de divisas + importação eficiente de manufaturas e componentes + participação em cadeias globais = especialização produtiva internacional.

Nenhuma das duas interpretações é suficiente isoladamente. A questão decisiva é onde ficam os ganhos de produtividade, inovação e renda.

Exportar petróleo bruto para importar todos os equipamentos, softwares e serviços tecnológicos relacionados à sua exploração seria uma inserção pobre. Mas possuir Petrobras, engenharia de águas profundas, universidades, fornecedores locais e capacidade de exploração do pré-sal constitui situação muito diferente.

Isso vale para agricultura. Soja não é simplesmente uma “commodity primária” equivalente à agricultura colonial: sua produtividade envolve genética, máquinas, fertilizantes, software, satélites, logística, pesquisa agronômica, financiamento e gestão empresarial. A Embrapa é justamente evidência de capacidade tecnológica nacional incorporada à produção de recursos naturais.

O problema brasileiro talvez seja menos “dependência” e mais posição nas cadeias globais. Isso permite reformular a questão nacional-desenvolvimentista.

O objetivo contemporâneo dificilmente deveria ser produzir nacionalmente tudo aquilo hoje importado. Isso reproduziria a antiga industrialização por substituição de importações em um mundo produtivo completamente diferente.

A estratégia seria subir seletivamente nas cadeias onde o país já possui vantagens:

  • agricultura → biotecnologia e agroindústria;
  • mineração → materiais e transformação sofisticada;
  • pré-sal → petroquímica, engenharia e tecnologia offshore;
  • eletricidade renovável → indústria eletrointensiva de baixo carbono;
  • Embraer → aeronáutica e serviços tecnológicos;
  • SUS → complexo econômico-industrial da saúde;
  • sistema financeiro → fintechs e tecnologia de pagamentos.

Nesse sentido, autonomia tecnológica não significa autarquia tecnológica. Nenhum grande país contemporâneo domina nacionalmente todas as tecnologias necessárias à sua economia.

Até Estados Unidos, China e Alemanha dependem de cadeias internacionais. O problema estratégico é outro: não ficar vulnerável em tecnologias críticas e possuir capacidade própria suficiente para negociar sua inserção internacional.

Isso também modifica a interpretação da “baixa produtividade brasileira”. Eu proporia substituir uma explicação monocausal — “o Brasil não cresce porque seus trabalhadores são pouco produtivos” — por uma decomposição sistêmica: produtividade média observada = composição setorial + produtividade dentro dos setores + intensidade de capital + tecnologia + escala empresarial + formalização + infraestrutura + posição nas cadeias globais + qualidade institucional.

Assim, o trabalhador não aparece como o culpado residual. Um empregado brasileiro de uma montadora transnacional operando a mesma máquina, com o mesmo treinamento e o mesmo padrão tecnológico internacional não possui alguma característica nacional misteriosa responsável pela baixa produtividade média do país.

O problema aparece sobretudo quando se calcula a média de uma economia heterogênea, colocando no mesmo indicador trabalhadores de fábricas automatizadas, bancos digitais, agricultura mecanizada, pequenos restaurantes, vendedores ambulantes e serviços domésticos.

Essa perspectiva produz uma conclusão bastante diferente daquela da narrativa do “fracasso brasileiro”: o Brasil realizou uma transição estrutural de economia agrário-exportadora para urbano-industrial e, posteriormente, para uma economia predominantemente de serviços. Ao mesmo tempo, a economia brasileira se integrou às cadeias globais e encontrou nas exportações agroindustriais, minerais e petrolíferas uma fonte estrutural de divisas capaz de financiar importações tecnológicas e industriais.

Seu desafio contemporâneo não é reconstruir uma economia nacional autárquica, mas aumentar produtividade, conhecimento e apropriação de valor nos elos estratégicos da economia globalizada.

Essa formulação, a meu ver, é especialmente compatível com a Nova Ciência Econômica, inspirada na Abordagem da Complexidade: em lugar de classificar a inserção internacional binariamente como “autonomia versus dependência”, analisa interdependências, especializações, redes produtivas, retroalimentações e graus variáveis de poder tecnológico.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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