Produtividade e Inserção na Globalização
por Fernando Nogueira da Costa
É habitual não se entender a baixa produtividade do trabalho no Brasil e sua inserção na nova divisão internacional do trabalho. A predominância dos serviços ajuda muito a explicar a produtividade média agregada, mas não torna baixa produtividade uma característica “por definição” de todo serviço.
A inserção brasileira nas cadeias globais explica boa parte da dependência tecnológica, porém não é porque o superávit comercial a cause diretamente. Ele viabiliza macroeconomicamente uma especialização internacional na qual o país exporta competitivamente certos bens e importa grande quantidade de manufaturas, componentes e tecnologia.
A produtividade agregada é uma média ponderada da produtividade dos setores. Se aproximadamente 70% do emprego e do valor adicionado se encontram nos serviços, a produtividade média brasileira será necessariamente muito influenciada por eles.
Porém, há enorme heterogeneidade interna: bancos, telecomunicações, software e alguns serviços empresariais podem ter produtividade elevada, enquanto comércio varejista, restaurantes, cuidados pessoais, serviços domésticos, reparações, segurança, ensino presencial e numerosos serviços urbanos têm limitações tecnológicas à expansão do produto por trabalhador.
O ponto decisivo é a observação sobre o encontro direto entre prestador do serviço e consumidor “de um para um”. Um cabeleireiro leva aproximadamente o mesmo tempo para cortar um cabelo hoje e décadas atrás; um professor não consegue multiplicar indefinidamente o número de alunos sem deteriorar a qualidade; médicos e enfermeiros precisam dedicar tempo aos pacientes; garçons precisam atender mesas.
Portanto, parte da chamada “baixa produtividade brasileira” não significa necessariamente trabalhadores brasileiros trabalhando mal. É um efeito de composição: muitos brasileiros trabalham em atividades nas quais o produto por hora possui limites físicos, relacionais ou qualitativos para crescer rapidamente.
Isso torna problemática a interpretação segundo a qual baixa produtividade é devido a trabalhador pouco qualificado, educação insuficiente, salários crescendo acima da produtividade e consequente inflação. A causalidade pode ser muito mais estrutural: urbanização → expansão dos serviços → predominância de atividades presenciais → menor crescimento mensurado da produtividade agregada.
Uma sociedade pode, inclusive, melhorar seu bem-estar aumentando justamente esses serviços. Mais professores, enfermeiros, médicos e cuidadores podem elevar o bem-estar social e, paradoxalmente, reduzir ou pouco aumentar a produtividade convencional medida como valor adicionado por trabalhador.
A desindustrialização também produz um efeito de composição. Durante a industrialização, trabalhadores migram da agricultura de baixa produtividade para indústria e serviços urbanos mais produtivos. Há um grande ganho estrutural. Depois, se a participação industrial diminui e cresce, sobretudo, o emprego em serviços de menor produtividade, desaparece parte desse mecanismo.
Mas daí não decorre ser desejável simplesmente “industrializar para aumentar a produtividade”. Nas economias desenvolvidas, serviços também predominam. A diferença crucial está em quais serviços predominam, sua intensidade de capital, tecnologia, conhecimento e escala.
Uma economia com muitos engenheiros, pesquisadores, programadores, consultorias tecnológicas, logística avançada, serviços financeiros e saúde de alta complexidade também é uma economia de serviços.
A chamada “dependência tecnológica” brasileira precisa ser reinterpretada à luz da globalização produtiva. A indústria contemporânea deixou, em grande medida, de funcionar segundo o modelo nacional integrado imaginado durante a industrialização do século XX.
Uma empresa automobilística instalada no Brasil não precisa produzir no território brasileiro cada semicondutor, sensor, equipamento eletrônico, software embarcado ou máquina utilizada na fábrica. Ela pertence a uma cadeia global de valor.
Uma transnacional decide mundialmente onde localizar: P&D → projeto → componentes → montagem → marketing → financiamento → distribuição.
Nesse contexto, exigir “nacionalização completa” da cadeia produtiva como critério de desenvolvimento pode ser anacrônico. A pergunta relevante passa a ser: em quais elos dessa cadeia o Brasil está inserido e quanto valor, conhecimento e capacidade decisória consegue reter?
Importar não significa necessariamente fracasso industrial. Este ponto merece destaque.
Se um componente eletrônico produzido em enorme escala na Ásia custa US$ 100 e produzi-lo no Brasil custaria US$ 250, obrigar sua fabricação nacional não aumenta automaticamente a eficiência da economia. Pode simplesmente aumentar o custo do produto final.
Uma montadora brasileira pode importar esse componente e concentrar recursos em engenharia, adaptação, montagem, serviços, distribuição ou outros segmentos nos quais possua vantagens. Essa é precisamente a lógica ricardiana da divisão internacional do trabalho, agora reorganizada pelas empresas transnacionais em cadeias produtivas globais.
Portanto, o aumento do coeficiente importado da indústria brasileira não deve ser automaticamente interpretado como “desindustrialização” ou “dependência”.
É preciso distinguir: importação complementar, capaz de aumentar a competitividade da produção nacional, de substituição integral da capacidade produtiva e tecnológica doméstica.
O superávit comercial brasileiro fecha esse sistema. O Brasil encontrou uma inserção internacional capaz de gerar grandes receitas cambiais por meio de: agronegócio + mineração + petróleo + alguns segmentos industriais + outros bens e serviços exportáveis. Essas exportações geram dólares capazes de financiar: máquinas + equipamentos + componentes eletrônicos + insumos químicos + medicamentos + bens de capital + tecnologia + bens industriais finais.
Assim, não existe necessidade econômica de o Brasil produzir nacionalmente tudo aquilo aqui consumido. Isso constitui uma mudança histórica extraordinária em comparação com a velha restrição externa ao crescimento estudada pelo estruturalismo latino-americano.
A antiga dinâmica era aproximadamente: crescimento → aumento das importações → escassez de divisas → desvalorização → inflação → crise cambial → recessão.
A configuração contemporânea pode ser diferente: China + commodities + agronegócio competitivo + pré-sal → superávit comercial → oferta estrutural de divisas → financiamento de importações → reservas internacionais → redução da vulnerabilidade cambial.
Não significa ter desaparecido a restrição externa. O Brasil possui déficit estrutural na conta de rendas — juros, lucros e dividendos enviados ao exterior — e possui déficit em conta corrente. Mas é uma restrição qualitativamente diferente daquela existente durante boa parte do século XX.
Há então um paradoxo. O mesmo fenômeno pode ser descrito por duas narrativas opostas. Na narrativa tradicional da dependência: exportação de commodities + importação de manufaturas = reprimarização e dependência. Em uma interpretação sistêmica da complexidade contemporânea: vantagem competitiva em recursos naturais tecnologicamente sofisticados + geração de divisas + importação eficiente de manufaturas e componentes + participação em cadeias globais = especialização produtiva internacional.
Nenhuma das duas interpretações é suficiente isoladamente. A questão decisiva é onde ficam os ganhos de produtividade, inovação e renda.
Exportar petróleo bruto para importar todos os equipamentos, softwares e serviços tecnológicos relacionados à sua exploração seria uma inserção pobre. Mas possuir Petrobras, engenharia de águas profundas, universidades, fornecedores locais e capacidade de exploração do pré-sal constitui situação muito diferente.
Isso vale para agricultura. Soja não é simplesmente uma “commodity primária” equivalente à agricultura colonial: sua produtividade envolve genética, máquinas, fertilizantes, software, satélites, logística, pesquisa agronômica, financiamento e gestão empresarial. A Embrapa é justamente evidência de capacidade tecnológica nacional incorporada à produção de recursos naturais.
O problema brasileiro talvez seja menos “dependência” e mais posição nas cadeias globais. Isso permite reformular a questão nacional-desenvolvimentista.
O objetivo contemporâneo dificilmente deveria ser produzir nacionalmente tudo aquilo hoje importado. Isso reproduziria a antiga industrialização por substituição de importações em um mundo produtivo completamente diferente.
A estratégia seria subir seletivamente nas cadeias onde o país já possui vantagens:
- agricultura → biotecnologia e agroindústria;
- mineração → materiais e transformação sofisticada;
- pré-sal → petroquímica, engenharia e tecnologia offshore;
- eletricidade renovável → indústria eletrointensiva de baixo carbono;
- Embraer → aeronáutica e serviços tecnológicos;
- SUS → complexo econômico-industrial da saúde;
- sistema financeiro → fintechs e tecnologia de pagamentos.
Nesse sentido, autonomia tecnológica não significa autarquia tecnológica. Nenhum grande país contemporâneo domina nacionalmente todas as tecnologias necessárias à sua economia.
Até Estados Unidos, China e Alemanha dependem de cadeias internacionais. O problema estratégico é outro: não ficar vulnerável em tecnologias críticas e possuir capacidade própria suficiente para negociar sua inserção internacional.
Isso também modifica a interpretação da “baixa produtividade brasileira”. Eu proporia substituir uma explicação monocausal — “o Brasil não cresce porque seus trabalhadores são pouco produtivos” — por uma decomposição sistêmica: produtividade média observada = composição setorial + produtividade dentro dos setores + intensidade de capital + tecnologia + escala empresarial + formalização + infraestrutura + posição nas cadeias globais + qualidade institucional.
Assim, o trabalhador não aparece como o culpado residual. Um empregado brasileiro de uma montadora transnacional operando a mesma máquina, com o mesmo treinamento e o mesmo padrão tecnológico internacional não possui alguma característica nacional misteriosa responsável pela baixa produtividade média do país.
O problema aparece sobretudo quando se calcula a média de uma economia heterogênea, colocando no mesmo indicador trabalhadores de fábricas automatizadas, bancos digitais, agricultura mecanizada, pequenos restaurantes, vendedores ambulantes e serviços domésticos.
Essa perspectiva produz uma conclusão bastante diferente daquela da narrativa do “fracasso brasileiro”: o Brasil realizou uma transição estrutural de economia agrário-exportadora para urbano-industrial e, posteriormente, para uma economia predominantemente de serviços. Ao mesmo tempo, a economia brasileira se integrou às cadeias globais e encontrou nas exportações agroindustriais, minerais e petrolíferas uma fonte estrutural de divisas capaz de financiar importações tecnológicas e industriais.
Seu desafio contemporâneo não é reconstruir uma economia nacional autárquica, mas aumentar produtividade, conhecimento e apropriação de valor nos elos estratégicos da economia globalizada.
Essa formulação, a meu ver, é especialmente compatível com a Nova Ciência Econômica, inspirada na Abordagem da Complexidade: em lugar de classificar a inserção internacional binariamente como “autonomia versus dependência”, analisa interdependências, especializações, redes produtivas, retroalimentações e graus variáveis de poder tecnológico.
Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected].
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