
Enviado por Felipe A. P. L. Costa
As sete pragas da universidade brasileira
Por Rogério Cézar de Cerqueira Leite [1]
O primeiro grande mal da universidade brasileira é o regime de tempo parcial. De acordo com este regime o professor tem a obrigação de se dedicar 12 horas por semana à universidade. Como consequência, duas situações diferentes ocorrem frequentemente: a) aquela do professor-caixeiro-viajante que, desnutrido física e intelectualmente, ganha seu pão itinerantemente, em diferentes cidades às vezes, sem tempo de se atualizar e de se dedicar, minimamente que seja, à pesquisa e à reflexão; verdadeiros Zumbis, vomitando conhecimentos obsoletos e, frequentemente, errôneos ou viciados; b) a segunda situação, também bastante frequente, é a do professor diletante: advogados, médicos e engenheiros, motivados quase sempre por uma simplória vaidade, nas horas vagas, são ‘professores universitários’.
A segunda grande praga da universidade brasileira é a vitalicidade de cargos e o resultante imobilismo. Devemos hoje reconhecer, e mesmo os mais fanáticos adversários da cátedra vitalícia, que este era o menor dos males. Maior mal é o aprendiz vitalício e a consequente incompetência vitalícia. Hoje, por força de lei, ingressa o jovem recém-formado no serviço público por concurso, adquirindo, na prática, direitos vitalícios.
A terceira desgraça da universidade brasileira advém de seu isolacionismo. Isolacionismo este gerado pela mediocridade e consequente insegurança. Inicia-se com a própria legislação do funcionalismo público que impede o acesso a estrangeiros.
O quarto grande infortúnio da universidade brasileira é a burocracia. A burocracia é como certas doenças intestinais que, uma vez instaladas, são praticamente impossíveis de serem rechaçadas. Sobrevivem incipientemente, despercebidamente, por longos períodos de tempo, à espreita de um eventual enfraquecimento do organismo.
A quinta desdita que assola a universidade brasileira é uma tendência à compartimentalização. Quando se eliminou a cátedra vitalícia, pensou-se que se resolveria este problema. Entretanto, inesperadamente, muitos departamentos se transformaram em cátedras intumescidas.
A sexta desventura de que sofre de maneira crescente a universidade brasileira é a falta de autonomia. Não foram necessárias as ‘regrinhas’ do Ministério da Educação para ‘fazer’ as universidades de Harvard e Oxford. É realmente absurdo pretender-se que os mesmo preceitos sejam aplicáveis às universidades ideais para o estado do Acre e para São Paulo.
A sétima e última praga da universidade brasileira é o gigantismo. É um mal recente no Brasil e compartilhado com outros países. A Universidade de Buenos Aires tem 230 mil estudantes, mas não é uma universidade; é um conjunto de escolas superiores, algumas das quais atingindo internamente certas características universitárias.
Estas são as sete pragas de natureza institucional da universidade brasileira. Como doenças cada uma reforça-se nas outras. Dificilmente erradicar-se-á uma sem se atuar sobre as demais. E como doenças devem ser tratadas com presteza, antes que seja tarde demais.
*
Nota
[1] Rogério Cézar de Cerqueira Leite (nascido em 1931). Extraído e adaptado do blogue Poesia contra a guerra, o excerto acima integra o livro As sete pragas da universidade brasileira (Duas Cidades, 1978).
evandro condé de lima
10 de dezembro de 2018 9:19 pmEsqueceu de dizer
SEr um bom professor, trabalhar com os alunos para promover um aprendizado consistente não conta nada para CAPES e/ou CNPQ. Agora, produzir artigos….
Paulo F.
12 de dezembro de 2018 11:39 amNão há o desejo de ser professor
Existe apenas o de ser ‘pesquisador”, cientistas de araque.
Ministrar aulas é para os “comuns”.
E caso for na graduação sentem até dor de barriga.
E quantos aos artigos, além deles há a batalha das citações e quando não voce não é parte do mainstream esta fadado ao olvidamento
Heloísa Coellho
11 de dezembro de 2018 2:09 amEstabilidade no emprego e servidores problemáticos
“Maior mal é o aprendiz vitalício e a consequente incompetência vitalícia. Hoje, por força de lei, ingressa o jovem recém-formado no serviço público por concurso, adquirindo, na prática, direitos vitalícios.”
Concordo inteiramente. A estabilidade no serviço publico deveria ser alcançada depois de 10 anos de exercício. Como usuária de serviços públicos, mesmo sendo de mentalidade progressista e de centro-esquerda, precisamos fazer uma autocrítica: a dedicação deixa muito a desejar e isso gera insatisfações reais dos cidadãos, capitaneadas inteligentemente pelos defensores do “Estado Mínimo”.
Os servidores públicos, em muitos casos, dão os motivos. Lamento reconhecer isso.
Arthemisia
11 de dezembro de 2018 2:49 amEu até concordo com tudo, mas
Eu até concordo com tudo, mas ele esqueceu que está falando do Brasil? Sem a praga da estabilidade, um governo como o do eleito sairia a demitir todos os “doutrinadores” e iria entupir as universidades de criacionistas, de crentes da terra plana e congêneres. Sem a praga do MEC, o Acre talvez nem tivesse universidade, como queriam os tucanos.
As universidades públicas estadunidenses também oferecem estabilidade, a diferença está no tempo para alcsnçá-la: aqui são três anos, lá são dez (em geral).
As pragas são muitas, mas se usar muito agrotóxico, matam as pragas, as plantas e o povo.
Paulo P
11 de dezembro de 2018 11:57 amArtigo obsoleto
Este artigo é de 1978! Nada a ver…
João de Paiva
11 de dezembro de 2018 4:28 pmEle quer destruir. Mas quantas universidades ele criou?
Estou lendo “Confissões”, último livro, que poderia ser classificado nas categorias “Memórias” ou “Auto-Biografia”. Darcy narra a criação da UnB, da qual ele foi um dos fundadores e o 1º reitor. Darcy era crítico ferrenho das “quadradonas” escolas superiores e defensor apaixonado das universidades. Darcy, no exílio ajudou a criar e foi professor de outras universidades latino-americanas. E o físico Rogério Cerqueira Leite, quantas universidades ou escoals ajudou a criar? Cerqueira Leite tem seu valor e já escreveu bons artigos. Mas quando rascunhou este, deveria estar com diarreéia mental. Nunca vi tanta bobagem e ressentimento juntos; parece que baixou o espírito de Paulo Renato Souza nele.
Paulo Homero Pereira
11 de dezembro de 2018 6:11 pmO texto nao me parece muito
O texto nao me parece muito claro. Talvez seja so minha ignorância mesmo. Mas pelo pouco que entendi de suas criticas, ficaram muito vagas e pouco fundamentadas. Parece me que mario schenberg toca mais na ferida quanto ao problema das universidades Brasileiras. Uma questao ligada a essência de como fazer ciência, algo mais relacionado a perpectiva e a filosofia, em seu artigo a mentalidade científica brasileira ele aprofunda os nossos infortúnios neste aspecto.
Anarquista Lúcida
12 de dezembro de 2018 12:08 amEstá falando de que universidades? Esse texto é um delírio
Fala apenas preconceitos, coisas que ele pensa que sao assim nas universidades.