Lula: não se renda ao financismo!
por Paulo Kliass
As eleições presidenciais do próximo mês estão marcadas pelo embate entre dois projetos bem distintos – antagônicos mesmo – para o Brasil. De um lado, a continuidade do processo democrático, representado pela candidatura do Presidente Lula. De outro, a ameaça ao futuro de nosso País, em torno das propostas apresentadas pelo filho de Jair Bolsonaro. Em poucas palavras, podemos resumir o processo como sendo a disputa entre a permanência de nosso País no âmbito da civilização ou o ingresso na aventura irresponsável da barbárie. Infelizmente, ao que tudo indica, não foram suficientes os quatro anos da desgraceira provocada pelo pai do candidato no comando do Palácio do Planalto para impedir que as lembranças e a memória do período 2019/2022 estejam sendo apagadas do imaginário popular.
Os exemplos são inúmeros. Esse é o caso da forma trágica e criminosa como foi conduzido o enfrentamento da epidemia da COVID e seus mais de 700 mil óbitos. O negacionismo contra as evidências científicas em prol da necessidade de investimento público e das campanhas de vacinação avançou também para o campo da política econômica, com a adoção de propostas do receituário neoliberal mais extremista. E aí vieram a manutenção do Teto de Gastos de Temer, as promessas e tentativas de privatização de todas as empresas estatais federais, as reformas trabalhista e previdenciária redutoras de direitos, dentre tantas outras medidas conservadoras e contrárias aos interesses da maioria da população.
Ainda no campo do negacionismo, a inspiração no governo Trump levou Bolsonaro a promover um clima de liberou geral na área do meio ambiente e da sustentabilidade. A expressão cunhada por seu Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, entrou para o besteirol criminoso da anedota política nacional: “é preciso aproveitar a porteira aberta para deixar passar toda a boiada”. Essa era apenas a ponta do iceberg do apoio ao garimpo ilegal, da invasão de terras indígenas pelos grileiros, o estímulo ao garimpo ilegal em áreas de proteção e outras. Com isso, o avanço sobre os biomas já ameaçados e o aumento do desmatamento descontrolado contribuíram para a elevação da temperatura do planeta.
Lula é a civilização. Flávio é a barbárie.
Não bastassem todos esses elementos de retrocesso civilizatório generalizado, estavam sempre presentes as falas dos membros do primeiro escalão do governo com as ameaças permanentes à ordem democrática e constitucional, com desrespeito ao Supremo Tribunal Federal e à lisura do processo eleitoral no País. O processo de destruição vem com a tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023, ao desconhecer a legitimidade da vitória eleitoral de Lula. O incumbente derrotado sai do Brasil para buscar apoio às suas intenções golpistas no exterior e se recusa a passar a faixa presidencial para seu sucessor.
Mas o problema é que Lula quase nada fez para mudar o eixo estruturante de qualquer programa de governo: a política econômica. Passada a turbulência inicial de seu terceiro mandato, ele manteve intactos os princípios da austeridade fiscal e pouco fez para não ter que conviver com a política monetária de taxas de juros nas estratosferas. O resultado de tudo isso se reflete nas pesquisas de opinião. A taxa de desaprovação de seu governo nunca havia sido tão alta e as sondagens apontam para uma grande dificuldade em se firmar como candidato com maiores chances de vitória. A estratégia de convencer o eleitorado de que a situação do povo está boa apenas pelo fato de que alguns indicadores econômicos realmente apresentam alguma pequena melhoria parece não estar oferecendo bons resultados para campanha.
Lula precisa, de forma urgente, apresentar propostas e soluções concretas para a maioria da população. Não bastam mais apenas promessas, como fez em 2022 e não cumpriu. O que o eleitorado está julgando é esse seu terceiro mandato. Assim, é fundamental que ele abandone de uma vez por todas as amarras que o aprisionam ao arcabouço fiscal e fale aquilo que a maioria da população espera dele em termos de políticas públicas e de medidas concretas no bolso e na conta corrente. Ao longo destes últimos meses Lula tem se mostrado um tanto vacilante e indeciso neste quesito. Mas quando ele fala, muitas vezes seu discurso pode empolgar aqueles que consideramos a necessidade essencial da virada.
Lula diz que superávit fiscal é babaquice.
No dia 12 de setembro, em um discurso em Curitiba, ele disse claramente:
(…) “Para gerar emprego, a economia tem que crescer. E para a economia crescer, o governo tem que investir. E para o governo ter que investir, é preciso parar com essa babaquice de que tem que fazer superavit, fazer superavit, de tem que ter controle fiscal. Porque a grande dívida do Brasil é a taxa de juro que nós pagamos. Isso é que é grande. O restante é investimento” (…) [GN]
Esse é o Lula que a campanha precisa e que o Brasil necessita para implementar um projeto de futuro para o seu quarto mandato. Ao reconhecer que é uma “babaquice” essa insistência com a busca do superávit fiscal, ele sabe que o caminho passa por ter espaço para realizar novas despesas governamentais, em especial nos programas sociais e nos investimentos públicos. Mas para tanto, ele precisa desmentir as bobagens proferidas por seu Ministro da Fazenda e deve reorientar a campanha no que se refere aos aspectos da política econômica. Isto porque Dario Durigan segue se orientando pela cartilha neoliberal do austericídio a todo custo. Apenas dois dias depois daquela importante fala do candidato, o chefe da pasta da economia se manifestou em sentido oposto. Preocupado em atender aos interesses do financismo em sua obsessão por reduzir o gasto público a todo o custo, ele comete o seguinte sincericídio:
(…) “O gasto obrigatório vai crescer menos no Orçamento de 2027. Isso é resposta efetiva.” (…) [GN]
Na verdade, Lula deveria recuperar o excelente discurso que realizou no mês de abril em Barcelona, durante o Fórum Internacional Progressista. Ali o Presidente da República também foi bastante explícito a respeito das necessidades que o campo em que ele mesmo se situa precisa apresentar ao mundo. Tanto em termos de reconhecimento dos equívocos realizados até o momento quanto das alternativas a serem implementadas em seus respectivos países. Assim falou ele no evento:
(…) “O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda sim, nós sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende agora que o outro lado se apresente agora como antissistema” (…) [GN]
Lula: desminta Durigan e seu austericidio!
Mas de nada valerá esse tipo de manifestação do candidato caso ele siga oferecendo corda para seu principal ministro no momento atual. Durigan se mantém na linha do povo da Faria Lima e de nossas elites do universo da finança. Ainda no mês passado, ele reforçou pela enésima vez o seu compromisso com a austeridade fiscal que Lula diz ser uma babaquice. Por mais incrível que posa parecer, ele se vangloria de oferecer menos recursos paras políticas sociais e para o investimento. Ao se referir aos objetivos constantes no Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) para 2027, ele vocifera:
(…) “O orçamento do próximo ano tem superávit. Ele tem crescimento de gasto obrigatório menor do que o arcabouço cresce para o país como um todo. A despesa vai seguir limitada” (…) [GN]
Na verdade, talvez ele esteja se pautando por declarações anteriores de seu chefe, que realmente chegou a se declarar simpático à ideia de geração de superávit fiscal nas contas de seus governos. Assim foi, por exemplo, em 2014, quando ele se orgulhava de seu comportamento de seguir à risca as metas de austeridade:
(…) “O ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta sexta-feira que, desde 2008, o Brasil tem um superávit médio de 2,58% do Produto Interno Bruto (PIB), o melhor entre os países que integram o G-20. “Ninguém faz superávit como o Brasil” (…) [GN]
Na reta final é preciso engajamento e motivação da militância.
Ocorre que a situação atual exige um comportamento bastante distinto do candidato. É fundamental que as bases de apoio político e eleitoral do campo de esquerda e progressista se transformem em militância ativa e engajada para derrotar o bolsonarismo nas redes sociais, nas ruas e nas urnas. As forças políticas comprometidas com as mudanças que o Brasil exige rumo a uma sociedade mais democrática e menos injusta precisam estar motivadas e com tesão de buscar votos. Mas para que tal movimento ganhe expressão necessária na conjuntura atual, Lula precisa deixar muito claro que não tem mais compromissos com a continuidade da política de austeridade tão propalada pelo financismo.
Parece claro que a postura passiva no momento atual apenas faz o jogo da extrema direita. A ideia de que “são todos iguais e não me interesso por quem ganhe” pode se converter em apoio indireto à volta da extrema direita ao governo federal. Exatamente por isso, Lula precisa ampliar o seu arco de forças envolvidas nesta reta final da campanha. E para tanto ele não pode se render aos cantos de sereia do Faria Lima e da nata do sistema financeiro. Ele precisa reforçar seu compromisso com uma pauta mais ativa no atendimento das demandas da sociedade, em especial dos setores da base da pirâmide da desigualdade. E isso passa por deixar explícito que não vai se render aos desejos e imposições do financismo.
Paulo Kliass é doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal.
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