Durante o julgamento da Petição 16.662, que envolve questionamentos à atuação do ministro Alexandre de Moraes no caso Master, o ministro Gilmar Mendes criticou a condução do processo pelo colega André Mendonça. O embate entre os ministros marcou a sessão desta terça-feira (15) do Supremo Tribunal Federal (STF).
Em um momento marcante do julgamento, Gilmar criticou indiretamente a invocação de Deus na condução do caso, em referência à postura de Mendonça – que costuma se posicionar publicamente com forte apelo à fé – dando a entender que a religião não pode se sobrepor à atuação institucional do Supremo. “Em nome de Deus, como em nome de Deus já se fez muita patifaria”, disse o ministro.
“Deixe o supremo seguir o seu destino, e as eleições que sigam o seu destino. Contrário do que se faz aqui, e se deram muito mal porque são aprendizes de feiticeiro. Tentar arrastar o Supremo Tribunal Federal para esse tipo de prática e pensaram que iam ficar imunes e impunes. É de uma desfaçatez de corar frade de pedra, ministro Fux. Em nome de Deus, como em nome de Deus já se fez muita patifaria”.
Gilmar aponta viés eleitoral
Na sequência, o ministro questionou o momento escolhido para a condução dos procedimentos contra Moraes, às vésperas das eleições, e afirmou que a investigação estaria sendo utilizada com finalidade eleitoral.
“Há um inequívoco viés político-eleitoral na forma como os autos foram conduzidos nesse inquérito. Escolha de data, 7 de setembro, envolvendo essa Corte em campanha eleitoral. Isso não se faz. O interesse é evidente. Acachapante. Extravagante. Evidente que se trata de um ‘pixuleco’, de um boneco eleitoral. É disso que nós estamos falando”.
Gilmar também criticou o vazamento de informações relacionadas ao caso e cobrou maior rigor na condução das investigações. “É uma atitude covarde, vil. Já disse isso antes: até a máfia tem ética. É preciso ter decência. Não se comporta assim”, declarou.
“Quem é o vazador geral da República? Quem é que vaza? É a Polícia Federal? É o gabinete do André? É a Secretaria do Supremo? Interessante que nos nossos gabinetes, ministro Fux, não se vaza nada. E depois fica disputando quem é que vai fazer a investigação do vazamento. Quer dizer, quem vai fazer a cobertura do vazamento!”.
Mendonça reagiu à crítica e interrompeu o colega: “Só um esclarecimento. Todos os vazamentos tem determinação de instauração de inquérito que estão sendo conduzidos pela própria Polícia Federal”. Em outro momento, disse a Gilmar que “Vossa Excelência está sendo leviano”.
Divergência sobre a condução do processo
Antes de o embate entre os ministros se acirrar, a discussão se voltou para a tramitação do caso. Flávio Dino defendeu que os procedimentos relacionados à investigação fossem reunidos e analisados pelo plenário do STF, com redistribuição da relatoria por sorteio. Gilmar Mendes acompanhou a proposta.
Ao defender a reunião dos procedimentos, Gilmar afirmou que a forma como o caso foi conduzido poderia comprometer o próprio resultado da investigação, ao criar uma relação de poder dentro do tribunal. Para o ministro, a concentração de informações nas mãos de um único integrante do STF produz uma assimetria entre os ministros e pode lançar suspeitas sobre qualquer decisão tomada.
“Sob pena de que o resultado, qualquer que seja ele, nasça marcado pela suspeita de haver servido a alguém. Quando um único integrante do tribunal reúne de ofício, sob sigilo, oponível a seus pares elementos que julga ser incapazes de abalar a honra e a posição de outros ministros, e os retém sem submetê-los ao órgão a quem competiria conhecê-los, como ocorreu nesse caso, o que se produz não é apenas uma investigação irregular. Uma assimetria se produz. Quem detém sozinho aquilo que poderia alcançar outros integrantes do colegiado passa a exercer sobre eles algum tipo de ascendência, é o que se vê. ‘Eu protejo você’. Uma relação de máfia. E isso não se faz, não é ambiente de pessoas dignas! Desculpe a sinceridade, presidente. Mas as coisas precisam ser chamadas pelo nome.”
Os ministros questionaram a concentração, na Presidência do STF, da supervisão de procedimentos que estavam sob relatoria de André Mendonça e defenderam que o caso fosse novamente submetido à distribuição entre os integrantes da Corte.
A proposta prevê ainda novos encaminhamentos processuais, incluindo manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR).
Durante a sessão, Dias Toffoli se declarou suspeito para participar da análise do caso, enquanto Nunes Marques se declarou impedido.
Após o debate, o presidente do STF, Edson Fachin, suspendeu a sessão. A questão de ordem deverá ser retomada posteriormente.
O caso Master
A Petição 16.662 está relacionada aos questionamentos levantados por André Mendonça sobre a atuação de Alexandre de Moraes no caso Master.
No início de setembro, Mendonça determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada. O ministro também retirou o sigilo de conversas entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e Moraes. A Polícia Federal, contudo, não conseguiu identificar o conteúdo das respostas atribuídas a Moraes.
O caso deixou a relatoria de André Mendonça e passou à Presidência do STF, decisão que também foi questionada durante a sessão desta terça.
Acompanhe o julgamento pelo link abaixo:
O TV GGN acompanha o julgamento e retransmite a sessão do Supremo pelo YouTube.
Rui Ribeiro
15 de setembro de 2026 5:23 pmO André Mendonça acha que toga é coroa.
“Não está falando com qualquer um”, disparou o Ministro Mendonça. Não mesmo. Está falando com o ministro que foi indicado por ser “terrivelmente evangélico”, que fala para a base bolsonarista, que tem boneco nos comuciis dos fascistas e que agora posa de vítima porque foi confrontado pelo decano.
Quem é qualquer um, Mendonça? É o povo que você jurou proteger? É o cidadão comum que leva dedo na cara de autoridade todo dia e não tem um plenário ao vivo pra exigir respeito?
Você não está defendendo o Tribunal. Está defendendo privilégio pessoal. Quer blindagem contra crítica, contra contradição, contra a cobrança sobre o calendário eleitoral no caso do Banco Master. Quando o Gilmar expõe a sua condução, você apela para a carteirada.
A cadeira é vitalícia, mas o gesto fica. E o gesto de dizer “não está falando com qualquer um” mostra que você esqueceu que igualdade perante a lei vale para todos, inclusive para quem está na cadeira mais alta.
Não está falando com qualquer um? Ainda bem. Qualquer um tem mais noção de igualdade que você no momento daquela frase.
Rui Ribeiro
15 de setembro de 2026 5:28 pmAqui está a versão reescrita, sem xingamentos, mantendo a crítica dura que você gostou:
Esse Mendonça acha que toga vira coroa.
“Não está falando com qualquer um”. Não mesmo. Está falando com o ministro que foi indicado por ser “terrivelmente evangélico”, que fala para a base bolsonarista, que se encontrou com o Vorcaro fora da agenda oficial do STF, reservadamente, que tem boneco gigante nos comicoos fascistas, e que agora posa de vítima porque foi confrontado pelo decano.
Quem é qualquer um, Mendonça? É o povo que você jurou proteger? É o cidadão comum que leva dedo na cara de autoridade todo dia e não tem um plenário ao vivo pra exigir respeito?
Você não está defendendo o Tribunal. Está defendendo privilégio pessoal. Quer blindagem contra crítica, contra contradição, contra a cobrança sobre o calendário eleitoral no caso do Banco Master. Quando o Gilmar expõe a sua condução, você apela para a carteirada.
A cadeira é vitalícia, mas o gesto fica. E o gesto de dizer “não está falando com qualquer um” mostra que você esqueceu que igualdade perante a lei vale para todos, inclusive para quem está na cadeira mais alta.
Não está falando com qualquer um? Ainda bem. Qualquer um tem mais noção de igualdade que você no momento daquela frase.
Rui Ribeiro
15 de setembro de 2026 10:39 pmA AUTORIDADE DO ARGUMENTO VERSUS O ARGUMENTO DA AUTORIDADE
A toga não é coroa
“Não está falando com qualquer um. Respeite esse Tribunal.”
A frase, dita hoje pelo ministro André Mendonça ao decano Gilmar Mendes, não é um deslize. É a síntese de um modelo.
A sessão extraordinária que deveria discutir tecnicamente se o Ministro André Mendonça agiu dentro da legalidade em relação degenerou em confronto pessoal, interrupções e acusações mútuas. Moraes acusou Mendonça de ter pedido que seu nome fosse incluído em delação. Mendonça rebateu: “Isso é mentira”. O presidente Edson Fachin tentou manter os casos separados, justamente para evitar contaminação processual. f3b65e23
E é aqui que mora o ponto que você tocou.
Por que Mendonça resiste tanto à unificação?
Ao votar contra a unificação e com Fachin, Mendonça isola o caso Moraes. Mantém o foco no conteúdo das 50 mensagens e impede que o debate sobre sua própria conduta como ex-relator entre agora, com Vorcaro e com os vazamentos seletivos político-eleitoreiros entrem na pauta.
Não é, portanto, interesse econômico. É interesse em precedente e em autopreservação jurisprudencial. Se o plenário firmar que um relator não pode aprofundar apuração contra colega sem aval do colegiado, todos os seus atos anteriores como relator – inclusive os que miram Moraes – caem.
É por isso que a frase importa. Quando falta autoridade do argumento – fundamento técnico, impessoalidade, transparência de calendário e rito – sobra o argumento da autoridade: “não está falando com qualquer um”.
Numa República, a toga é instrumento da lei. Não é coroa, não é escudo e não é salvo-conduto para blindar o passado com uma decisão do presente.
Rui Ribeiro
17 de setembro de 2026 8:26 amDona Natália Martins, empreender é acertar do jeito errado, não errar do jeito certo. Empreender no capitalismo equivale a explorar ao máximo o trabalhador.