“Um país sem documentário é como uma família sem álbum de fotos”, por Felipe Bueno
O cinema documental perde uma importante referência com a despedida do chileno Patricio Guzmán neste setembro de 2026.
Nascido em Santiago, estudou cinema na Espanha antes de retornar ao Chile no início dos anos 1970. A experiência de registrar o tumultuado governo de Salvador Allende, as pressões dos Estados Unidos e o trágico desfecho do período, com o golpe de Estado de 1973, definiram sua trajetória artística e pessoal. Guzmán foi um dos muitos presos pela ditadura militar de Augusto Pinochet no Estádio Nacional – uma estrutura que se transformou de campo de futebol em depósito de torturados e assassinados. Guzmán teve a sorte de conseguir se exilar. Passou parte da vida produtiva no exterior, vivendo na Espanha, em Cuba e na França, observando a realidade chilena e do Terceiro Mundo à distância.
Na linha dos grandes clássicos do documentário mundial, flagrou o colapso da democracia chilena com A Batalha do Chile (1975-1979), produção que custou a vida de seu diretor de fotografia, Jorge Müller, sequestrado e “desaparecido” pela DINA (Direção de Inteligência Nacional) e “desaparecido”. Vale acrescentar que a trilogia só veio a existir porque o material bruto foi contrabandeado para fora do país, já então submetido aos militares – e civis – que tomaram conta do Chile a partir de 1973.
Décadas depois, construiu outra trilogia, em que geografia, história e memória têm papéis igualmente importantes, composta por Nostalgia da Luz (2010), O Botão de Pérola (2015) e A Cordilheira dos Sonhos (2019). Mais recentemente, dirigiu Meu País Imaginário (2022), atento aos protestos sociais de 2019.
Ao longo da carreira, Guzmán foi amplamente reconhecido e premiado. Porém, mais importante que isso é oferecer seu trabalho às novas gerações e também às pessoas de qualquer idade que não tiveram conhecimento da ditadura assassina de Pinochet que, aliás, teve sólidas conexões com sua paralela brasileira via Operação Condor, fartamente apoiada pelos Estados Unidos.
O cinema de Guzmán funciona como uma coleção fundamental de documentos histórico-geográficos. O deserto do Atacama, por exemplo, transforma-se em um espaço onde astrônomos buscam as origens do universo enquanto mulheres escavam o solo em busca dos restos mortais de seus parentes desaparecidos. O Oceano Pacífico torna-se testemunha do extermínio dos povos originários e dos corpos jogados ao mar pela ditadura. A Cordilheira dos Andes surge como uma muralha que protege, mas também aprisiona as memórias e contradições do país. O cinema de Patricio Guzmán é um remédio amargo e poético contra a amnésia histórica.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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