27 de setembro de 2026

Chutzpah: quando a cara de pau se torna uma tecnologia política, por Celso P. de Melo

Chutzpah seria o comportamento do homem que mata o pai e a mãe e, diante do juiz, pede clemência porque ficou órfão.

Chutzpah é a inversão da responsabilidade em vitimização, transformando constrangimento em poder político.
Flávio Bolsonaro mudou publicamente sua posição sobre milícias, negando declarações antigas e mudando o discurso.
A política da chutzpah usa negação e contra-ataques para mudar perguntas e evitar constrangimentos na imprensa.

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Chutzpah: quando a cara de pau se torna uma tecnologia política

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Como a inversão entre a responsabilidade e a vitimização pode transformar o constrangimento em força política

por Celso P. de Melo

“Há um ponto em que a desfaçatez deixa de produzir vergonha

e começa a produzir poder.”.

O órfão que pede clemência

Há uma velha anedota usada para explicar uma palavra iídiche difícil de traduzir. Chutzpah seria o comportamento do homem que mata o pai e a mãe e, diante do juiz, pede clemência porque ficou órfão.

“Cara de pau” é provavelmente a tradução brasileira mais próxima, mas ainda insuficiente. Chutzpah não é apenas audácia, cinismo ou ausência de vergonha. O que torna a anedota tão perfeita é a inversão: o personagem participa da criação da situação e depois transforma sua consequência em argumento para se apresentar como vítima.

A palavra é iídiche. O comportamento é universal.

E talvez ajude a compreender uma transformação importante da política contemporânea brasileira.

Durante muito tempo imaginamos que a revelação de uma contradição ou de uma conduta comprometedora produziria uma sequência relativamente previsível. Surgia o fato, o político precisava explicá-lo e, se a explicação fosse insuficiente, enfrentava constrangimento e algum custo político.

A chutzpah altera essa lógica. A revelação pode ser respondida com negação; a cobrança, com contra-ataque; a investigação, apresentada como perseguição. O acusado transforma-se em acusador e a ausência de constrangimento pode deixar de parecer fraqueza para converter-se em demonstração de força.

É nesse momento que a chutzpah deixa de ser apenas um comportamento e pode tornar-se uma tecnologia política.

Uma história mais antiga

O caso de Flávio Bolsonaro é particularmente interessante porque não começou com o Banco Master, nem com as chamadas rachadinhas.

Em 2003, Jair Bolsonaro, então deputado federal, falou na Câmara sobre grupos de extermínio. Reconheceu explicitamente que eram ilegais, mas declarou que, enquanto o Estado não adotasse a pena de morte, o “crime de extermínio” seria, em sua opinião, “muito bem-vindo”. Acrescentou que, se aqueles grupos não encontrassem espaço na Bahia, poderiam ir para o Rio de Janeiro, onde teriam o seu apoio.

Dois anos depois, Flávio Bolsonaro, então deputado estadual, concedeu a Medalha Tiradentes a Adriano da Nóbrega, policial posteriormente apontado pelas autoridades como chefe de organização miliciana. A mãe e a então mulher de Adriano também trabalharam em seu gabinete, por indicação de Fabrício Queiroz.

Nada disso demonstra que Flávio conhecesse, naquele momento, as atividades criminosas posteriormente atribuídas a Adriano. Mas existe um documento que dispensa qualquer inferência sobre relações pessoais.

Em fevereiro de 2007, Flávio subiu à tribuna da Assembleia Legislativa do Rio para falar justamente das milícias. Disse que não se poderia simplesmente “estigmatizar as milícias”, descreveu-as como grupos de policiais que buscavam expulsar criminosos das comunidades e afirmou haver “uma série de benefícios nisso”. Criticou ainda aquilo que considerava uma perseguição promovida por políticos e por entidades de direitos humanos.

Não se tratava, portanto, apenas da proximidade com determinada pessoa. Havia uma posição política defendida publicamente.

Depois do sequestro e tortura, em 2008, de jornalistas do jornal O Dia que investigavam a atuação de milicianos na comunidade do Batan, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, Flávio votou pela criação da CPI das Milícias, mas continuou distinguindo aquele episódio criminoso da atuação de grupos que, segundo argumentava, proporcionariam segurança a determinadas comunidades. Jair Bolsonaro também continuou fazendo declarações favoráveis a aspectos daquele modelo. Ainda em 2018, associava o pagamento a milícias à provisão de segurança em regiões abandonadas pelo Estado.

No entanto, em 2019, diante da repercussão de antigas declarações e relações que vinham sendo reveladas, Flávio afirmou ser contra as milícias e sustentou que suas palavras anteriores haviam sido retiradas de contexto.

A história poderia terminar aí.

Mas ganhou um epílogo extraordinário em 2026.

Candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro incorporou ao seu programa de segurança pública a proposta de classificar o PCC, o Comando Vermelho e as próprias milícias como organizações “narcoterroristas”. “Terrorista vai ser tratado como terrorista”, anunciou em junho, prometendo persegui-las para prender seus líderes e asfixiar seus negócios ilícitos.

O contraste é difícil de ignorar.

Em 2007, não se deveriam “estigmatizar as milícias”; havia benefícios em sua atuação e seus críticos promoviam uma perseguição. Em 2026, elas devem ser tratadas como organizações narcoterroristas e perseguidas pelo Estado.

Uma pessoa pode naturalmente mudar de opinião em dezenove anos. Políticos também aprendem, e as próprias milícias se transformaram profundamente durante esse período. O problema analítico não está na mudança.

Está na maneira de lidar com o passado.

Quando confrontado com suas antigas declarações, Flávio não as apresentou simplesmente como uma posição que abandonou diante de novas evidências. Disse que haviam sido retiradas de contexto.

É aí que a velha palavra iídiche começa a adquirir interesse.

Vinte anos depois

O caso Banco Master oferece outra manifestação desse mecanismo.

Quando surgiram informações de que Flávio havia procurado Daniel Vorcaro para obter recursos para Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro, sua reação inicial foi negar. Depois da divulgação de gravações, reconheceu que houvera negociação e sustentou que se tratava de financiamento privado e legal.

Posteriormente, declarou-se disposto a apresentar o contrato e a prestação de contas. Meses depois, porém, passou a tratar o episódio como um assunto encerrado. Em agosto, durante entrevista à TV Globo, chamou-o de “livro fechado”, ao mesmo tempo em que se recusava a apresentar o contrato, a planilha detalhada de gastos ou a relação completa dos investidores.

Flávio nega ter cometido irregularidades. Investigações e suspeitas não equivalem a culpa.

Mas existe um fato adicional que torna o episódio particularmente interessante.

No final de 2025, depois de Daniel Vorcaro ter sido preso e passar a usar tornozeleira eletrônica, Flávio foi pessoalmente encontrá-lo. O próprio senador confirmou a visita e disse que pretendia obter uma definição sobre a continuidade do financiamento do filme.

Não estamos, portanto, diante apenas de uma relação comercial remota.

E é aqui que aparece outra característica da chutzpah: a capacidade de mudar a pergunta.

A arte de mudar a pergunta

As relações de Daniel Vorcaro com autoridades, políticos, advogados e familiares de integrantes do Judiciário devem ser investigadas. O contrato entre o Banco Master e o escritório da família de Alexandre de Moraes é relevante e merece escrutínio. O mesmo vale para quaisquer relações envolvendo ministros indicados por governos de esquerda ou de direita.

O problema começa quando os critérios deixam de ser simétricos.

As revelações mais recentes tornam esse teste de simetria ainda mais interessante. Mensagens apreendidas pela Polícia Federal mencionam pagamentos de R$ 500 mil mensais associados ao filho de Kassio Nunes Marques – que nega ter recebido recursos de Vorcaro ou prestado serviços ao Master –, enquanto o Instituto Iter, anteriormente ligado a André Mendonça, recebeu R$ 5,2 milhões de uma empresa de um ex-parceiro de negócios de Vorcaro. São relações distintas e nenhuma delas, isoladamente, demonstra irregularidade. Ainda assim, a diferença de temperatura da cobertura sugere outra pergunta: quando os fios da rede de Vorcaro conduzem a personagens politicamente diferentes, é empregada a mesma curiosidade jornalística para segui-los?

O contrato com o escritório da família de Moraes acabou por tornar-se público. Já o contrato relacionado ao financiamento de Dark Horse, negociado por Flávio com Vorcaro, não havia sido apresentado publicamente até o fim de agosto, apesar das promessas anteriores de transparência. Mesmo assim, Flávio pôde declarar seu próprio caso um “livro fechado” enquanto cobrava explicações sobre as relações de Vorcaro com adversários.

Outro episódio recente torna o contraste ainda mais instrutivo.

Uma fotografia recuperada do celular de Vorcaro mostrou o procurador-geral da República, Paulo Gonet, numa confraternização em Londres, em abril de 2024, com charutos e uísque, da qual o banqueiro também participou. O episódio merece esclarecimento, especialmente diante de outros contatos posteriormente revelados.

Mas a cronologia importa.

O encontro de Londres ocorreu em abril de 2024, antes da investigação criminal que posteriormente levaria Vorcaro à prisão. Já Flávio confirmou que foi procurá-lo pessoalmente no final de 2025, depois da prisão do banqueiro e quando ele já utilizava tornozeleira eletrônica. E o assunto da conversa, segundo o próprio Flávio, era um projeto financiado por Vorcaro.

A questão não é escolher qual dos episódios merece investigação. Ambos podem merecer.

A pergunta é outra: por que o encontro de uma autoridade com Vorcaro antes da investigação deve provocar escrutínio – como deve – enquanto um encontro posterior à prisão do banqueiro, relacionado diretamente ao financiamento de um projeto associado ao candidato, poderia ser tratado como assunto encerrado?

A chutzpah aparece aqui de maneira particularmente eficiente. Não é necessário responder à pergunta incômoda se for possível substituí-la por outra.

E é nesse ponto que entra um ator que raramente aparece quando discutimos esse mecanismo: a imprensa.

Seria injusto afirmar que a grande mídia não investigou Dark Horse. Folha, UOL, CNN e outros veículos revelaram aspectos importantes da história. Foi o jornalismo profissional que trouxe à luz grande parte do que sabemos.

Mas há diferença entre noticiar e investigar sistematicamente.

Uma declaração de candidato chega pronta. Produz manchete imediatamente. O adversário responde, a resposta vira nova notícia, o candidato reage e começa outro ciclo. Seguir o dinheiro é mais difícil. Exige obter contratos, comparar pagamentos, reconstruir sociedades, verificar beneficiários, acompanhar transferências e confrontar versões.

A política contemporânea produz acontecimentos em velocidade muito maior do que uma investigação jornalística consegue produzir respostas.

Surge então um risco: a imprensa pode acabar seguindo a hierarquia de assuntos criada pelos próprios atores políticos.

No caso Master, a pergunta jornalisticamente mais interessante talvez não seja qual personagem ligado a Vorcaro deve ocupar a manchete de hoje. É outra: qual era a rede de relações construída por Vorcaro, quem fazia parte dela, que dinheiro circulou, quais serviços foram efetivamente prestados e que consequências essas relações produziram?

Se a rede alcança pessoas situadas em diferentes campos políticos e instituições, o objeto de investigação deveria ser a rede inteira.

A chutzpah política não precisa convencer o jornalista de que sua versão é verdadeira. Às vezes basta convencê-lo de que sua acusação é notícia.

O político não precisa demonstrar que a pergunta sobre ele foi respondida.

Basta conseguir mudar a pergunta.

E, apesar disso, cerca de 40%

A questão torna-se ainda mais intrigante diante da eleição de 2026.

Pesquisas realizadas em setembro apresentam números diferentes conforme o instituto, a metodologia e o cenário, mas mostram Flávio Bolsonaro sustentando uma base eleitoral de grande dimensão, próxima de 40% em alguns levantamentos.

Como explicar isso?

Seria tentador concluir que milhões de eleitores simplesmente desconhecem esses fatos. Alguns certamente desconhecem. Outros conhecem apenas fragmentos. Mas há também quem conheça os episódios e não acredite nas acusações; quem acredite em parte delas, mas atribua maior importância à economia, à segurança, aos costumes ou à rejeição ao PT; quem vote primordialmente pela identificação com Jair Bolsonaro; e quem possa conhecer suas antigas posições sobre segurança e concordar com elas.

Milhões de votos não possuem uma única causa.

Há, entretanto, uma questão adicional: nossa capacidade de avaliar quanto realmente sabemos sobre assuntos a respeito dos quais temos opiniões muito firmes.

É aqui que entra o efeito Dunning–Kruger.

Quando não sabemos que não sabemos

Em 1999, os psicólogos David Dunning e Justin Kruger estudaram uma relação curiosa entre competência e capacidade de avaliar a própria competência.

Em determinadas tarefas, participantes com baixo desempenho não apenas cometiam mais erros. Também tinham dificuldade para reconhecer a extensão dos próprios erros. A explicação é intuitiva: para perceber que cometemos determinado erro, muitas vezes precisamos possuir parte do mesmo conhecimento necessário para evitá-lo.

É uma espécie de ponto cego da ignorância.

A versão popular – “quanto mais ignorante, mais a pessoa acha que sabe” – simplifica excessivamente o fenômeno.

Todos somos profundamente ignorantes sobre inúmeros assuntos. O problema não está nisso. A questão decisiva é outra: sabemos que não sabemos?

Há uma enorme diferença entre dizer “não conheço suficientemente esse assunto” e afirmar “sei perfeitamente o que está acontecendo” depois de receber algumas informações fragmentárias.

A primeira atitude abre espaço para aprender. A segunda pode fechá-lo.

Isso importa particularmente na política. Economia, orçamento público, direito constitucional, criminalidade organizada ou uma investigação financeira são assuntos extraordinariamente complexos. Nas redes sociais, porém, cada um deles pode ser reduzido a uma frase, um vídeo de trinta segundos ou a uma palavra de ordem.

Pouca informação pode coexistir com enorme certeza.

O cientista político norte-americano Ian G. Anson, professor da University of Maryland e pesquisador do comportamento político e da opinião pública, levou essa questão para o terreno da política. Em um estudo publicado em 2018 na revista Political Psychology, encontrou evidências de superestimação do próprio conhecimento entre participantes de desempenho relativamente baixo e mostrou que tornar mais saliente a identidade partidária pode acentuar essa superconfiança e influenciar a maneira como avaliamos o conhecimento dos outros.

Isso não permite diagnosticar os eleitores de Flávio Bolsonaro como vítimas do efeito Dunning–Kruger. O fenômeno é geral, sua interpretação científica tem limites e nenhum resultado experimental explica sozinho o comportamento de milhões de pessoas.

Seu interesse aqui é mais modesto: quando sabemos pouco, mas estamos convencidos de que sabemos bastante, temos menos razões subjetivas para procurar novas informações.

E a política oferece algo ainda mais poderoso: a identidade nos ajuda a decidir quais informações queremos procurar.

O advogado dentro da cabeça

Gostamos de imaginar que reunimos fatos, avaliamos evidências e somente depois chegamos a conclusões. Muitas vezes fazemos também o caminho inverso: possuímos uma conclusão à qual estamos emocionalmente ligados e utilizamos nossa capacidade de raciocínio para protegê-la.

É o chamado raciocínio motivado.

A inteligência não desaparece. Apenas muda de papel: em vez de avaliar as evidências como um juiz imparcial, passa a selecionar argumentos como advogada de uma das partes.

Diante de uma informação favorável àquilo em que acreditamos, perguntamos: “Posso acreditar nisso?”

Diante de uma informação que ameaça uma convicção importante, perguntamos: “Preciso acreditar nisso?”

No segundo caso, descobrimos problemas metodológicos, interesses do autor, exceções e explicações alternativas que talvez jamais procurássemos com o mesmo empenho numa informação que confirma nossas convicções.

Quanto mais a escolha política se transforma em identidade, maior pode ser esse efeito. Uma pessoa que durante anos defendeu determinado líder, discutiu por ele, participou de manifestações e organizou parte de sua visão do mundo em torno da oposição entre “nós” e “eles” não recebe uma revelação desfavorável apenas como informação.

Ela pode recebê-la como ameaça à própria identidade.

É nesse ambiente que a chutzpah encontra condições especialmente favoráveis.

O político afirma que está sendo perseguido. Quem já desconfia das instituições encontra nessa afirmação uma explicação. Uma nova investigação pode, paradoxalmente, reforçar a narrativa anterior: quanto mais investigado, mais o político poderia parecer ameaçador para “o sistema”.

A acusação gera contra-ataque; o contra-ataque reorganiza a agenda; a agenda é amplificada pela mídia e pelas redes; cada comunidade seleciona as informações em que confia; e a repetição pode fortalecer certezas que já existiam.

A chutzpah fecha o circuito não porque todos sejam enganados, mas porque diferentes pessoas encontram razões diferentes para aceitar a inversão.

Quando a vergonha deixa de funcionar

Talvez esteja aqui o problema mais profundo.

Democracias não funcionam apenas por meio de Constituições, eleições, tribunais e leis. Dependem também de normas informais.

Uma delas é o constrangimento.

Presumimos que certas revelações imponham algum custo reputacional mesmo quando não configuram crime. Uma contradição documentada exige explicação. Uma afirmação falsa provoca recuo. Uma posição abandonada demanda reconhecer que se mudou de opinião.

A política da chutzpah pode alterar essa economia da vergonha.

Não recuar passa a ser interpretado como coragem. Não pedir desculpas, como autenticidade. Atacar quem pergunta, como independência. Ser investigado, como demonstração de que “o sistema” teme o investigado.

Mas há um teste que todos deveríamos aplicar a nós mesmos.

Se um político do campo oposto tivesse defendido durante anos determinada prática e, quando essa posição se tornasse inconveniente, afirmasse que suas palavras haviam sido retiradas de contexto, aceitaríamos a explicação com a mesma facilidade?

Se dois políticos ou autoridades mantivessem relações comparáveis com o mesmo empresário, exigiríamos de ambos o mesmo grau de transparência?

E se descobríssemos vínculos de Vorcaro com figuras políticas ou judiciais das quais gostamos, consideraríamos essas relações tão importantes quanto aquelas envolvendo pessoas das quais desconfiamos?

Se nossas respostas mudarem conforme o personagem, talvez o raciocínio motivado que identificamos tão facilmente nos outros também esteja trabalhando dentro de nós.

O órfão diante do juiz

Voltemos à velha anedota.

Ela contém uma premissa escondida.

Quando o homem que matou os pais pede clemência porque ficou órfão, imaginamos que todos na sala percebam imediatamente o absurdo.

É por isso que rimos.

Políticos audaciosos, contraditórios e capazes de inverter responsabilidades sempre existiram. A novidade talvez esteja na combinação entre polarização, identidades políticas e redes sociais com um sistema de informação em que novas acusações surgem mais depressa do que as anteriores podem ser investigadas.

O acusado apresenta-se como perseguido. A perseguição se torna uma demonstração de sua importância. Uma nova acusação confirma que seus inimigos o temem. A recusa em recuar passa a demonstrar força.

Nesse ambiente, perguntar se o político está agindo de boa-fé talvez nem seja a questão mais interessante.

A questão é saber por que a inversão funciona.

A chutzpah política não depende apenas da audácia do homem que pede clemência por ter ficado órfão. Depende de uma esfera pública em que ele consiga mudar a pergunta, escolher o adversário e transformar a cobrança em perseguição.

E depende também de nós.

Porque quando parte da plateia começa a considerar perfeitamente razoável o pedido do órfão, o problema já não está apenas no homem diante do juiz.

Está também no que aconteceu com a plateia.


Celso Pinto de Melo – Professor Titular aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Celso Pinto de Melo

Doutor em Física (UCSB, 1980), mestre em Física (1975) e engenheiro químico (1973) pela UFPE, é Professor Titular aposentado da UFPE e Pesquisador 1-A do CNPq. Atuou como Fulbright Senior Scholar no MIT (1986–1987). Lidera pesquisas em polímeros condutores, transporte em filmes finos e nanocompósitos aplicados à interface com sistemas biológicos e sensores. É autor de mais de 160 artigos e diversas patentes nacionais e internacionais, e orientou mais de 60 alunos de pós-graduação. Foi presidente da Sociedade Brasileira de Física (2009–2013), vice-presidente e conselheiro da SBPC, além de diretor do CNPq e pró-reitor da UFPE. Membro titular da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Pernambucana de Ciências. Recebeu a Comenda (2002) e a Grã-Cruz (2009) da Ordem Nacional do Mérito Científico, além da Ordem de Rio Branco (2007), por suas contribuições às ciências físicas no Brasil.

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