28 de setembro de 2026

A campanha está virando: Lula foi para a oposição, por Gilberto Maringoni

Lula começou a desmontar alguns dogmas preparados por sua equipe econômica, cuja cartilha é abertamente neoliberal.
Foto de Ricardo Stuckert

Lula adotou postura de oposição ao próprio governo, desmontando dogmas da equipe econômica neoliberal.
Reajustou o Bolsa Família em 15%, elevando o benefício para R$ 691, revertendo congelamento imposto pelo arcabouço fiscal.
Revogou taxação de compras internacionais até US$ 50 e proibiu jogos de azar, alinhando-se a demandas populares.

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A campanha está virando: Lula foi para a oposição

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por Gilberto Maringoni

EM 19 DE ABRIL ÚLTIMO, diante de um quadro de preocupante defensiva do governo no início da corrida eleitoral, escrevi um artigo intitulado “Lula contra Lula”. Entre outras coisas, afirmei o seguinte:

“Lula está diante de um cenário inédito: seu real inimigo é sua rejeição. De onde ela vem? A pista mais evidente aponta para o governo Lula, sua quebra de expectativas, suas promessas não cumpridas e a sensação de que a vida para as maiorias não mudou, apesar da cascata de estatísticas brandida a todo momento pelos governistas. (…) O presidente poderia desmontar parte das decisões que tomou no governo e comandar uma campanha que empolgue multidões e derrote o fascismo. O Lula governista não pode mais atrapalhar o Lula combativo, idealizado pelos pobres deste país”.

HÁ DUAS SEMANAS, Vladimir Safatle, com a competência habitual, publicou um texto com o provocativo título: “Para vencer as eleições, o governo Lula deve ser sua própria oposição”. Seu argumento central é:

“A eleição presidencial é, na verdade, Lula contra Lula, quem apoia o presidente contra quem o rechaça, preferindo qualquer outra coisa a ele. E esses são praticamente metade do eleitorado brasileiro. (…) Em um contexto como esse, só resta ao governo ser sua própria oposição, em uma espécie de maoísmo de combate. Fazer uma ruptura consigo mesmo, como quem afirma que não teve as condições para fazer o que gostaria de ter feito, mas que agora usará toda usará toda a força do seu último mandato, de sua última oportunidade, para avançar em um projeto real de criação de serviços robustos de proteção social, de investimentos chineses em educação, de regulação estatal da economia, de emergência climática e de impulsionamento da igualdade econômica”.

POIS BEM, NA ÚLTIMA SEMANA, LULA DECIDIU IR PARA A OPOSIÇÃO e começou a desmontar alguns dogmas preparados por sua equipe econômica, cuja cartilha é abertamente neoliberal. O caminho seguido pelo presidente rumo à oposição envolve até aqui três iniciativas:

  1. REAJUSTOU O BOLSA-FAMÍLIA – Jair Bolsonaro anunciou em 24 de agosto de 2022, a cem dias das eleições, o reajuste do Auxílio Brasil, programa que substituiu o Bolsa-família em sua gestão. O valor passou de R$ 400 para R$ 600. No início do terceiro mandato, Lula manteve o valor, mas retomou o antigo nome. Dede então, sua equipe econômica vetou qualquer reajuste em nome do arcabouço fiscal, verdadeiro pilar da administração. O arcabouço, como se sabe é o teto de gastos do Temer requentado. Lula percebeu que o congelamento de quatro anos foi um mau negócio e aumentou o valor em 15%. Assim, o benefício chega a R$ 691, com impacto imediato na base da sociedade;
  • ACABOU COM A TAXA DAS BLUSINHAS – A taxação de compras internacionais de até US$ 50 resulta de um jabuti colocado pelo deputado Átila Lira (PP-PI) na Programa Mobilidade Verde e Inovação, o Mover, de incentivos a carros elétricos. A iniciativa fora apresentada pelo governo no início de 2024. A equipe econômica apoiou a medida, sob o argumento de que ela evitaria concorrência desleal com o comércio varejista e aumentaria a arrecadação para cumprir – mais uma vez! – metas do arcabouço fiscal. Até a primeira-dama Janja chegou defendeu a taxação, argumentando que se tratava de medida destinada a “combater a sonegação das empresas e não taxar as pessoas”. Tremendamente impopular, foi revogada em 10 de setembro último, por iniciativa do presidente Lula.
  • PROIBIU AS BETS – Os jogos de azar foram legalizados no final de 2018 por medida provisória do então presidente Michel Temer, sem regulamentação definida. Cinco anos depois, o governo Lula enviou um projeto de lei ao Congresso para estabelecer regras de funcionamento das apostas. A equipe econômica defendeu a sanção, sob o argumento de que a taxação do setor resultaria na arrecadação de R$ 10 bilhões ao ano, para que fossem cumpridas as regras do – aiai… – arcabouço fiscal. O governo se dividiu nos últimos meses sobre proibir ou não. No final, Lula impôs o fim da jogatina, depois de pesquisas de opinião mostrarem que 75% da população apoiaria a medida.

Como se vê, em boa hora o presidente Lula passou a fazer oposição a trapalhadas de seu próprio governo, o que pode lhe valer fôlego redobrado nas urnas. Há um clima de virada no ar, a poucos dias das eleições.

É bom dizer que nada disso seria possível sem as bênçãos de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil.


Gilberto Maringoni – Professor de Relações Internacionais da UFABC

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Gilberto Maringoni

Gilberto Maringoni de Oliveira é um jornalista, cartunista e professor universitário brasileiro. É professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, tendo lecionado também na Faculdade Cásper Líbero e na Universidade Federal de São Paulo.

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