A abstenção nas eleições de 2026 pode superar o recorde registrado em 2022 e alcançar o maior nível das últimas décadas, na avaliação do cientista político Jairo Nicolau, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV). Ele também prevê a possibilidade de crescimento dos votos brancos e nulos em um cenário que, segundo ele, é marcado por desânimo dos eleitores e baixo interesse pela campanha.
No primeiro turno de 2022, cerca de 32 milhões de eleitores não compareceram às urnas. Para Nicolau, a taxa pode voltar a crescer neste ano, embora não seja possível determinar previamente qual será o tamanho do aumento.
“Essa é uma eleição em que as pessoas estão desanimadas com os candidatos que estão aí, e que tem grande chance de aumentar, num nível razoável, a abstenção e os votos nulos e brancos”, afirmou.
O cientista político pondera, no entanto, que a abstenção não representa necessariamente uma decisão política deliberada de não participar da eleição. Entre os que não comparecem estão eleitores com mais de 70 anos, para quem o voto é facultativo, além de pessoas que estão fora de seu domicílio eleitoral ou enfrentam problemas no dia da votação.
Há ainda, segundo Nicolau, uma parcela que decide conscientemente não votar por descrença nos candidatos ou falta de interesse pela política. Ele ressalta, porém, que não existem pesquisas capazes de determinar qual é o tamanho desse grupo entre os milhões de eleitores que deixaram de votar em 2022.
Ausência
Outro fator apontado por Nicolau é a redução do custo prático de não votar. Segundo ele, a facilidade proporcionada pelo e-Título para justificar a ausência e as consequências relativamente limitadas da falta ao pleito contribuem para que parte do eleitorado deixe de comparecer.
O cientista político avalia que o país pode estar caminhando, na prática, para uma espécie de voto facultativo, embora a legislação mantenha a obrigatoriedade para a maior parte dos eleitores.
“A gente esteja caminhando para uma espécie de voto facultativo não dito”, afirmou.
Para Nicolau, o cenário é diferente do de períodos anteriores, quando justificar a ausência exigia procedimentos presenciais e o eleitor estava mais sujeito às consequências da falta.
Polarização
O professor também relaciona a possível alta da abstenção ao que considera um ambiente de cansaço político. Segundo ele, a repetição da polarização entre petismo e bolsonarismo teria reduzido o interesse de parte do eleitorado.
Nicolau afirma que a atual eleição apresenta um “mercado eleitoral” que considera mais restrito, com candidatos concentrados em posições ideológicas mais marcadas e menor oferta de alternativas para eleitores que procuram opções de centro.
Para ele, esse cenário pode levar parte do eleitorado a optar pelo voto nulo ou branco como forma de manifestar rejeição às opções disponíveis.
O cientista político também afirma perceber uma redução das conversas sobre política em comparação com eleições anteriores. Na avaliação dele, o Brasil passou por uma década de intensa mobilização política, impulsionada também pela expansão das redes sociais, e estaria agora vivendo um movimento de recuo.
“Este ano, as pessoas estão num grau inferior de conversa, ou até em silêncio. Ninguém está falando de política, o que é estranho”, disse.
Crise no STF
Outro elemento citado por Nicolau é a crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF), que, segundo ele, ocupou parte significativa da atenção pública durante a campanha.
Na avaliação do cientista político, o episódio pode ter contribuído para aumentar o desânimo e a descrença na política. Ele afirma ainda que a crise desviou a atenção de temas relacionados às políticas públicas em um período relativamente curto de campanha.
“Uma campanha eleitoral que já é curta, de 50 dias, em um terço dela, a atenção das pessoas foi consumida para olhar para isso, para dez ministros e deixar de pensar em questões de política pública”, afirmou.
Nicolau descreveu a campanha de 2026 como uma das menos mobilizadas desde a redemocratização, atribuindo o cenário ao baixo interesse inicial dos eleitores, à centralidade adquirida pelo STF e ao curto período eleitoral.
Quem pode ser mais afetado
Embora aponte diferenças históricas de comparecimento entre grupos do eleitorado, Nicolau afirma que não é possível antecipar qual candidato seria beneficiado ou prejudicado por uma eventual alta da abstenção.
Segundo ele, mulheres tendem a comparecer mais às urnas, enquanto eleitores de menor escolaridade apresentam taxas de comparecimento mais baixas. Como esses grupos têm comportamentos distintos, o efeito eleitoral de uma eventual mudança na abstenção dependerá de onde ela se concentrar.
“Previamente não tem ninguém que eu poderia cravar que a abstenção vai prejudicar ou favorecer”, afirmou.
O cientista político também rejeita a ideia de que uma maior abstenção necessariamente decidiria a eleição. Para ele, o impacto dependeria da distribuição geográfica e social dos eleitores que deixassem de votar.
“Ela vai ser certamente um sinal que os eleitores mandam lá para Brasília de ‘Chega, estamos cansados’. Ou não. Pode ser que, de última hora, os eleitores vão lá e votem. Mas a minha intuição é que a abstenção deve subir”, disse.
Brancos e nulos
Nicolau também prevê a possibilidade de crescimento dos votos brancos e nulos. Ele diferencia essa modalidade de participação da abstenção porque, no voto nulo, o eleitor comparece à seção eleitoral e registra deliberadamente uma escolha que não corresponde a nenhum candidato.
Durante anos, segundo ele, pesquisadores associaram as taxas elevadas de votos brancos e nulos à obrigatoriedade do voto. A hipótese era de que eleitores sem interesse pela política compareciam às urnas apenas para cumprir a obrigação e anulavam o voto.
O comportamento, entretanto, não permite uma conclusão simples. Em 2022, por exemplo, houve redução dos votos brancos e nulos para presidente, sem que isso significasse necessariamente maior satisfação dos eleitores com a política, segundo Nicolau.
Participação eleitoral
Para o cientista político, sempre haverá uma parcela da população pouco interessada em política, independentemente de o voto ser obrigatório ou facultativo.
Ele observa que países com voto facultativo também registram contingentes expressivos de cidadãos que não participam das eleições. No Brasil, porém, é difícil dimensionar esse grupo porque o sistema eleitoral exige o registro dos cidadãos e estabelece a obrigatoriedade do voto para a maior parte da população.
Nicolau afirma que campanhas institucionais, partidos, meios de comunicação e escolas podem estimular a participação política, mas considera difícil alcançar participação eleitoral plena.
“À medida que os eleitores vão percebendo que o voto facultativo está se impondo na prática no Brasil, eles fiquem em casa”, afirmou.
*Com informações da BBC.
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