1 de outubro de 2026

O uso político histórico de Nossa Senhora Aparecida, por Luís Nassif

Hoje, mais do que nunca, é preciso que a santa padroeira cumpra sua missão histórica e salve o país.
Getty - Reprodução

Em 1963, charge sobre Nossa Senhora Aparecida causou protestos após ser considerada ofensiva por padres da Rádio Aparecida.
Em 1964, João Goulart criticou uso da fé contra reforma agrária, gerando mobilização católica e a Marcha da Família com Deus.
A imprensa ajudou a disseminar a versão do ataque à santa, minimizando a resistência evangélica a imagens e santos.

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Não foi a primeira vez que Nossa Senhora Aparecida se tornou personagem de uma disputa política. Em agosto de 1963, o jornal Última Hora publicou uma charge sobre um jogo entre Santos e Corinthians. A santa aparecia abençoando as duas equipes, com um ponto de interrogação sobre a cabeça. A ironia estava no fato de que jogadores dos dois times haviam pedido sua intercessão. Padres da Rádio Aparecida denunciaram a charge como ofensiva, desencadeando protestos contra o jornal e convocações para atos em outras partes do país. Dizia-se que, na charge, a santa aparecia com a cabeça de Pelé.

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A exploração política da religião ganharia dimensão muito maior em 13 de março de 1964. No Comício da Central, o presidente João Goulart criticou o uso da fé contra a reforma agrária. Disse que os rosários não deveriam ser erguidos como armas contra aqueles que defendiam a distribuição de terras. Grupos católicos conservadores apresentaram a declaração como uma afronta religiosa e convocaram um “desagravo ao rosário”. A mobilização contribuiu para a realização da primeira Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em 19 de março, em São Paulo — uma das grandes manifestações que prepararam o ambiente político para o golpe de 31 de março e 1º de abril de 1964.

A diferença é que, em 1964, a imprensa ajudou a disseminar a versão do ataque à santa. E, agora, trataram de minimizar até a resistência histórica dos evangélicos a qualquer menção a santos e a imagens.

Nos dois períodos, houve apenas a instrumentalização política da santa e a posição oposta dos jornais em relação ao episódio, mas coerentes com sua postura política.

Hoje, mais do que nunca, é preciso que a santa padroeira cumpra sua missão histórica e salve o país.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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