Não foi a primeira vez que Nossa Senhora Aparecida se tornou personagem de uma disputa política. Em agosto de 1963, o jornal Última Hora publicou uma charge sobre um jogo entre Santos e Corinthians. A santa aparecia abençoando as duas equipes, com um ponto de interrogação sobre a cabeça. A ironia estava no fato de que jogadores dos dois times haviam pedido sua intercessão. Padres da Rádio Aparecida denunciaram a charge como ofensiva, desencadeando protestos contra o jornal e convocações para atos em outras partes do país. Dizia-se que, na charge, a santa aparecia com a cabeça de Pelé.
A exploração política da religião ganharia dimensão muito maior em 13 de março de 1964. No Comício da Central, o presidente João Goulart criticou o uso da fé contra a reforma agrária. Disse que os rosários não deveriam ser erguidos como armas contra aqueles que defendiam a distribuição de terras. Grupos católicos conservadores apresentaram a declaração como uma afronta religiosa e convocaram um “desagravo ao rosário”. A mobilização contribuiu para a realização da primeira Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em 19 de março, em São Paulo — uma das grandes manifestações que prepararam o ambiente político para o golpe de 31 de março e 1º de abril de 1964.
A diferença é que, em 1964, a imprensa ajudou a disseminar a versão do ataque à santa. E, agora, trataram de minimizar até a resistência histórica dos evangélicos a qualquer menção a santos e a imagens.
Nos dois períodos, houve apenas a instrumentalização política da santa e a posição oposta dos jornais em relação ao episódio, mas coerentes com sua postura política.
Hoje, mais do que nunca, é preciso que a santa padroeira cumpra sua missão histórica e salve o país.
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