5 de outubro de 2026

O buraco é mais em cima, por Gustavo Tapioca

No mapa político atual, o pequeno Uruguai e o gigante Brasil são as exceções dessa onda devastadora. Pelo menos, por enquanto.
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Flávio Bolsonaro liderou o primeiro turno com 47%, Lula avançou ao segundo turno com 45% dos votos em 4 de outubro.
O avanço da extrema direita na América Latina é apoiado por Trump e Rubio, visando aproximar o Brasil dos EUA.
Eduardo Bolsonaro atua em Washington para pressionar o governo americano e fortalecer a campanha de Flávio Bolsonaro.

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O buraco é mais em cima 

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Lula e o PT precisam fazer sua autocrítica e mudar a campanha. Mas a dianteira de Flávio Bolsonaro se inscreve numa ofensiva continental de Trump e Rubio para trazer o Brasil — a joia da coroa sul-americana — à órbita de Washington. 

Por Gustavo Tapioca 

Flávio Bolsonaro saiu na frente no primeiro turno, com 47% dos votos. Lula chegou ao segundo turno com 45%, por margem estreita. O resultado de 4 de outubro foi assustador para quem defende a democracia e deixou aberta, até 25 de outubro, a possibilidade de o clã Bolsonaro voltar ao Planalto. 

A campanha de Lula e o PT têm muito a examinar. O presidente precisa fazer sua autocrítica, reconhecer erros do governo e da comunicação, rever o que ainda for possível na estratégia eleitoral. A campanha precisa responder melhor às preocupações cotidianas com custo de vida, segurança e emprego. Não basta culpar Sidônio, Janja, o discurso “superado” de Lula, ou seja lá o que for. É preciso corrigir os rumos e disputar cada voto. 

Mas essa autocrítica não pode se transformar numa explicação que absolva o restante do cenário. Os erros da campanha importam, mas não explicam sozinhos a força de Flávio. O buraco é mais em cima: está na expansão da extrema direita, na articulação continental promovida por Donald Trump e na disputa dos Estados Unidos para trazer o Brasil para sua esfera de influência. 

Uma onda continental — e um projeto de poder 

A guinada à direita avançou em vários países sul-americanos. Daniel Noboa foi reeleito no Equador; Rodrigo Paz venceu na Bolívia; José Antonio Kast, no Chile; Keiko Fujimori voltou ao poder no Peru; e Abelardo de la Espriella venceu na Colômbia, com o endosso de Trump. A Argentina de Javier Milei tornou-se um polo de articulação regional. 

No mapa político atual, o pequeno Uruguai e o gigante Brasil são as exceções dessa onda devastadora. Pelo menos, por enquanto. 

Esses governos sul-americanos têm diferenças importantes. O que os aproxima é a combinação de promessas de agendas de redução ou reorientação do Estado e maior alinhamento com Washington. A insatisfação econômica, a insegurança e o desgaste dos governos anteriores abriram espaço para a direita. Trump não produziu sozinho esses votos.  

Sua administração, porém, oferece apoio político, articulação e uma referência comum a lideranças que prometem “reorganizar” a região. 

A pretensão foi resumida numa frase oficial. Após a operação norte-americana na Venezuela, o Departamento de Estado publicou: “Este é hemisfério é nosso”. Marco Rubio, secretário de Estado, sustenta que Washington não permitirá que sua segurança seja ameaçada na região.  

É o espírito da chamada Doutrina Donroe, versão trumpista da Doutrina Monroe: os Estados Unidos reivindicam primazia no Hemisfério Ocidental e o direito de afastar potências rivais, sobretudo a China. 

O Escudo das Américas, apresentado como aliança contra cartéis e redes criminosas, oferece um instrumento de cooperação regional para esse projeto. A captura de Nicolás Maduro por uma operação dos EUA, a pressão sobre governos que não se alinham a Washington e o anúncio de Trump de que “Cuba é a próxima” compõem o mesmo ambiente. 

“América Latina é nossa” não foi uma citação literal: é a síntese política que se pode extrair dessa sequência. 

Brasil, a joia da coroa 

O Brasil é a peça decisiva. É a maior economia e população da América Latina, integra os BRICS, tem a China como principal parceira comercial e possui recursos estratégicos cobiçados por Washington.  

Para Trump e Rubio, a oportunidade de puxar o país para a órbita norte-americana não pode ser perdida. Lula defende a autonomia brasileira. Flávio oferece outra orientação: aproximação com Trump, adesão ao Escudo das Américas e oferta de minerais críticos brasileiros às prioridades dos Estados Unidos. 

Não se trata apenas de afinidade ideológica. Há uma estratégia de pressão e aproximação em curso. No ano passado, Trump vinculou tarifas contra produtos brasileiros ao processo judicial de Jair Bolsonaro.  

A tarefa de Eduardo 

Eduardo Bolsonaro mudou-se para os Estados Unidos em fevereiro de 2025 e passou a atuar em Washington para pressionar o governo Trump contra o STF e em defesa do pai. 

 Em junho deste ano, o Supremo o condenou a quatro anos e dois meses de prisão por coação no curso do processo, ao concluir que ele articulou sanções e tarifas para interferir no julgamento. Eduardo sustenta que buscava cobrar o cumprimento da Constituição. A Reuters relatou a condenação e seus fundamentos. 

Eduardo não ocupa cargo no governo americano. Instalou-se no Texas com a mulher e os filhos; em julho, a família recebeu residência permanente nos EUA. A CNN Brasil noticiou a concessão do green card à família.   

Em maio, acompanhou Flávio ao Salão Oval, onde os dois foram recebidos por Trump. Às vésperas do primeiro turno, segundo fontes americanas ouvidas pelo UOL, Eduardo foi a Washington e disse a interlocutores do governo Trump que um encontro entre Lula e o presidente dos EUA poderia favorecer eleitoralmente o petista.  

O mesmo relato afirma que Rubio e o secretário do Tesouro, Scott Bessent, atuaram para evitar que os presidentes se encontrassem. A Reuters confirmou a reunião com Trump; o UOL reconstituiu a articulação às vésperas do pleito. 

O próprio Eduardo apresentou essa rede como trunfo político: disse que consegue colocar Flávio diante de Trump e Rubio e facilitar medidas como a designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas.  

Flávio pediu essa designação; o Departamento de Estado a anunciou depois do encontro dos irmãos com Trump. A reportagem do UOL descreveu os contatos e essa sequência, que não prova alteração de votos, mas revela convergência política entre a campanha e setores do governo americano.  

Também em setembro Eduardo anunciou que voltaria a pressionar pela retomada de sanções dos EUA contra o ministro Alexandre de Moraes. A Reuters registrou a iniciativa. 

Há ainda uma dimensão de política externa 

Eduardo ameaça fazer uma “faxina” no Itamaraty caso o irmão vença e promete retaliar diplomatas que, segundo ele, sabotaram o governo Jair Bolsonaro. Em vídeo, insinuou que poderia comandar o ministério ou representar o Brasil em Washington; defendeu a entrada no Escudo das Américas e a transferência da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém.  

A campanha de Flávio afirma que Eduardo não fala oficialmente pelo candidato, mas suas declarações mostram o projeto de alinhamento que ele pretende impulsionar. A Folha descreveu essas ameaças e planos. 

O governo Trump também tentou enviar ao Brasil funcionários que, segundo fontes ouvidas pela Reuters, pretendiam questionar a integridade do sistema eleitoral. O Brasil negou os vistos. A tentativa foi noticiada pela Reuters.  

Somada às tarifas, às sanções contra autoridades brasileiras e ao apoio político a interlocutores do bolsonarismo, ela forma um conjunto de pressões sobre a soberania e o processo político brasileiro — sem provar que tenha determinado o resultado das urnas. 

Gustavo Tapioca – Jornalista. Ex-diretor do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás. Consultou do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Autor de “Meninos do Rio Vermelho” e de “Entre o golpe e a eleição“.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Gustavo Tapioca

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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