5 de junho de 2026

Beleza matemática, por G. H. Hardy

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Enviado por Felipe A. P. L. Costa

Beleza matemática

Por G. H. Hardy [1]

 

O matemático, como o pintor ou o poeta, é um desenhista. Se os seus desenhos são mais duradouros que os deles, é porque são feitos com ideias. O pintor desenha com formas e cores, o poeta com palavras.

Os desenhos do matemático, como os do pintor ou do poeta, devem ser belos; as ideias, como as cores ou as palavras, precisam entreligar-se de maneira harmoniosa.

Seria difícil encontrar um homem instruído que fosse totalmente insensível aos atrativos estéticos da matemática. Pode ser muito difícil definir a beleza matemática, mas isso vale igualmente para a beleza de qualquer tipo – podemos não saber muito bem o que é um belo poema, mas isso não nos impede de reconhecer um quando o lemos.

O fato é que existem poucas matérias mais ‘populares’ que a matemática. A maioria das pessoas entende um pouco de matemática, assim como a maioria das pessoas consegue apreciar uma melodia agradável; e provavelmente existem mais pessoas interessadas em matemática do que em música. As aparências podem dar a entender o contrário, mas é fácil explicar isso. A música pode ser usada para estimular as emoções das massas, ao passo que a matemática não, e a incapacidade musical é tida (sem dúvida com razão) como uma imperfeição leve, ao passo que a maioria das pessoas tem tanto medo do nome da matemática que está sempre pronta, sem falsa modéstia, a exagerar a sua própria burrice matemática.

Um pouquinho de reflexão é suficiente para pôr a nu o absurdo da ‘superstição literária’. Há uma quantidade enorme de enxadristas em todos os países civilizados – na Rússia, quase toda a população instruída –, e todo jogador de xadrez consegue reconhecer e apreciar um jogo ou problema ‘bonito’. Não obstante, um problema de xadrez é simplesmente um exercício de matemática pura (não é esse o caso do jogo, já que a psicologia também desempenha nele o seu papel), e todos que consideram ‘bonito’ um problema estão aplaudindo-lhe a beleza matemática, mesmo que seja uma beleza de espécie relativamente inferior. Os problemas de xadrez são as cantigas de roda da matemática.

A mesma coisa nos fica patente – num nível mais baixo, mas que envolve um público mais amplo – no caso do bridge, ou, descendo ainda mais, no das colunas de enigmas dos jornais populares. A imensa popularidade desses enigmas é, em sua imensa maior parte, um tributo aos atrativos da matemática elementar, e os melhores criadores de enigmas, como Dudeney ou ‘Caliban’, usam pouco mais que isso. Eles conhecem o seu negócio; o que o público quer é um pouco de estímulo intelectual, e nada produz um efeito tão estimulante quanto o da matemática.

*

Nota

[1] G. [Godfrey] H. [Harold] Hardy (1877-1947). Extraído e adaptado do blogue Poesia contra a guerra, o excerto acima integra o livro Em defesa de um matemático (Martins Fontes, 2000 [1967]). O original – A mathematician’s apology (ver aqui) – foi publicado em 1940. Em 1967, a Cambridge University Press publicou uma edição acrescida de um prefácio de C. [Charles] P. [Percy] Snow (1905-1980).

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