16 de outubro de 2026

Soberania mineral: o Brasil não pode ser submisso a interesses estrangeiros, por Leonardo Grandini

A corrida global por minerais críticos já começou, e o Brasil precisa disputá-la em posição de soberania, não de submissão.
Reprodução

Brasil tem a 2ª maior reserva de terras raras, com 401 pedidos de pesquisa só em 2026, concorrendo globalmente por minerais críticos.
Mina Serra Verde, em Goiás, foi vendida a empresa dos EUA por US$2,8 bi, gerando disputa judicial e questionamentos sobre soberania.
Lei nº 15.506/2026 busca industrializar minerais estratégicos, mas Brasil precisa investir em ciência e tecnologia para evitar dependência.

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Soberania mineral: o Brasil não pode ser submisso a interesses estrangeiros, por Leonardo Grandini

O Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do planeta. Apenas nos primeiros cinco meses de 2026, a Agência Nacional de Mineração recebeu 401 pedidos de pesquisa para esses minerais, volume que se aproxima do total acumulado nos 45 anos anteriores. A corrida global por minerais críticos já começou, e o Brasil precisa disputá-la em posição de soberania, não de submissão.

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Um dos casos mais emblemáticos dessa disputa é o da mineradora Serra Verde, localizada em Minaçu, no norte de Goiás. A empresa opera a única mina de terras raras em escala comercial fora da Ásia capaz de fornecer os quatro elementos magnéticos mais cobiçados: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio.

Pela Constituição brasileira, os recursos minerais pertencem à União, e sua gestão cabe ao governo federal. Em março de 2026, enquanto o governo Lula buscava fortalecer a soberania brasileira sobre minerais estratégicos, o governo de Goiás assinou, por iniciativa própria, um memorando de cooperação com os Estados Unidos sobre terras raras, à revelia do ordenamento jurídico.

Logo no mês seguinte, foi anunciada a venda da Serra Verde à norte-americana USA Rare Earth, por aproximadamente US$2,8 bilhões. A operação já havia recebido financiamento de US$565 milhões da U.S. International Development Finance Corporation (DFC), agência do governo dos Estados Unidos, e firmou um contrato de fornecimento de 15 anos, com preços mínimos garantidos. Embora o memorando estadual não autorizasse juridicamente a venda, sua assinatura sinalizou uma disposição política de aproximação com os interesses estadunidenses no setor.

Enquanto o governo Lula buscava construir instrumentos de proteção ao patrimônio mineral brasileiro, avançavam negociações capazes de vincular por décadas a produção nacional às cadeias de abastecimento de um país estrangeiro. O Brasil corre o risco de permanecer como fornecedor de recursos essenciais à transição energética e à indústria de defesa, sem garantir benefícios equivalentes à sua própria industrialização.

Na história brasileira, os ciclos econômicos foram caracterizados por exploração dos nossos recursos por potências estrangeiras — pau-brasil, cana, ouro, café. A soberania mineral passa pelo país ter clareza sobre quais são seus interesses e não se deixar explorar. Durante as negociações do chamado “tarifaço”, os Estados Unidos propuseram que o Brasil informasse antecipadamente qualquer transferência, licitação ou venda de ativos ligados a minerais críticos, permitindo que Washington avaliasse essas operações antes que o próprio Brasil as aprovasse. Na prática, pretendiam interferir nas decisões brasileiras sobre as riquezas do nosso próprio subsolo. O governo Lula rejeitou a proposta, que era aviltante e tratava o Brasil como se fosse uma colônia.

Serra Verde: quando a riqueza mineral não se transforma em desenvolvimento

A operação da Serra Verde é objeto de uma disputa judicial que expõe os desafios de explorar minerais estratégicos sem garantias adequadas aos interesses nacionais. A família proprietária da área move uma ação contra a mineradora, alegando indenização insuficiente pelo uso das terras e questionando a utilização de direitos minerários como garantia de financiamentos. Após o anúncio da aquisição, os proprietários solicitaram à Justiça Federal de Goiás a suspensão do negócio.

O episódio reforça a necessidade de regras claras, segurança jurídica e proteção aos direitos dos proprietários brasileiros. No entanto, evidencia sobretudo um desafio econômico: garantir que a exploração de nossas riquezas minerais resulte em industrialização, transferência de tecnologia e empregos qualificados no Brasil.

Não basta extrair e exportar. É preciso assegurar que uma parcela significativa do valor gerado por esses recursos permaneça no país.

Uma política nacional para minerais estratégicos

A construção de uma política nacional de minerais críticos representa um avanço importante. Em setembro de 2026, o presidente Lula sancionou a Lei nº 15.506/2026, que estabelece diretrizes para o setor e cria instrumentos voltados à industrialização desses recursos.

A nova política busca fortalecer a capacidade do Estado brasileiro de orientar investimentos, acompanhar operações estratégicas e estimular o beneficiamento e a transformação mineral em território nacional.

É um passo importante, embora insuficiente. O Brasil não pode repetir o roteiro histórico de exportar matéria-prima e importar produtos industrializados de elevado valor adicionado, deixando de aproveitar oportunidades de desenvolvimento tecnológico e produtivo.

Com as terras raras, o custo desse erro pode ser ainda maior. Esses elementos são indispensáveis à fabricação de turbinas eólicas, veículos elétricos, equipamentos eletrônicos e sistemas de defesa. Quem domina sua extração, processamento e transformação industrial ocupa uma posição estratégica na economia mundial.

Industrialização é o caminho da soberania

Nenhum país constrói, da noite para o dia, uma cadeia completa de terras raras. Ao contrário, exige investimento em ciência, tecnologia e indústria nacional, com o Estado como indutor do desenvolvimento.

Nesse esforço, São Paulo pode ter um papel fundamental. O estado pelo qual fui eleito deputado estadual reúne o maior parque industrial do Brasil, universidades de excelência, centros de pesquisa em metalurgia e química fina e uma ampla base de trabalhadores qualificados. São Paulo possui condições de contribuir decisivamente para transformar minerais estratégicos em ímãs, ligas metálicas e componentes de alta tecnologia.

Possuímos a grande oportunidade de fortalecer a indústria paulista, gerar empregos de qualidade e ampliar a capacidade tecnológica brasileira. Para aproveitá-la, precisamos de políticas públicas que articulem pesquisa científica, financiamento produtivo e investimentos industriais, integrando diferentes regiões em uma cadeia de produção de âmbito nacional.

O futuro dos minerais críticos precisa ser decidido pelo Brasil e servir ao povo brasileiro. Nossa riqueza mineral deve ser instrumento de desenvolvimento, não de submissão.

Leonardo Grandini, deputado estadual eleito pelo Partido dos Trabalhadores em São Paulo e advogado formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.

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